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Domingo, Setembro 19, 2021

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Abrantes | Encerramento de Santander em Rossio deixa clientes com sentimento de perda e mágoa

Esta sexta-feira 25 de junho, a agência do banco Santander Totta em Rossio ao Sul do Tejo encerra definitivamente portas. Todos os clientes ouvidos pelo mediotejo.net manifestam "perda", “tristeza” e "mágoa". O Santander assume-se como um “banco responsável” mas a avançada idade da população não pesou na decisão de encerrar a histórica sucursal, que foi a primeira agência da província há mais de 60 anos. O balcão “muda-se” para engrossar o já existente na cidade de Abrantes, enquanto Rossio perde mais um serviço, ficando sem qualquer agência bancária.

O balcão do banco Santander Totta, em Rossio ao Sul do Tejo (Abrantes), fecha de vez esta sexta-feira 25 de junho. Era já a única instituição bancária na localidade.

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É uma “opção estratégica” com “aquilo que os clientes pedem”, esclareceu a instituição bancária à agência Lusa, apostando no reforço de meios humanos em Abrantes, o balcão mais próximo e que dista cerca de quatro quilómetros da localidade de Rossio ao Sul do Tejo.

“O balcão do Rossio está a 3,7 quilómetros do balcão de Abrantes, onde temos uma equipa maior e que terá mais capacidade para atender os clientes” do espaço que vai encerrar, referiu a instituição bancária.

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A mesma fonte indicou que se está a trabalhar no sentido de “encontrar uma solução de manter a ATM em funcionamento para que a população do Rossio ao Sul do Tejo não tenha que se deslocar para as operações básicas bancárias” que podem ser feitas por essa via.

E a “solução” passa por instalar o ATM (caixa multibanco) no edifício da Junta de Freguesia, segundo disse ao mediotejo.net o presidente da União de Freguesias de São Miguel do Rio Torto e Rossio ao Sul do Tejo. Luís Alves explicou que a Junta, a Câmara Municipal de Abrantes e o Banco encontram-se em negociações. “Vamos ainda reunir para perceber as condições mas a proposta passa pela instalação do ATM no edifício da Junta, custeando o banco 50% do valor dessa instalação”.

E o restante será suportado pela Junta e pela Câmara?, questionou o nosso jornal. “Vamos ver se assim será! Por isso vamos reunir, mas essa é a proposta que está em cima da mesa”, garantiu o autarca.

Luís Alves, presidente da Junta do Rossio. Créditos: mediotejo.net

Luís Alves considerou tal decisão “lamentável” até por ser uma sucursal “das mais antigas” do distrito de Santarém, e justificada com questões económicas.

“Hoje em dia a economia valoriza mais a criação de riqueza do que o bem estar das pessoas. Resolveram fechar. As pessoas deixaram de contar”. Em Rossio ao Sul do Tejo, nos últimos anos fechou o balcão dos CTT e as agências bancárias BPI e Caixa Geral de Depósitos, a que se junta amanhã o fecho do Santander.

O presidente critica os partidos que “arrogam a defesa dos trabalhadores, da população, e estão a aceitar migalhas. Não sabemos para onde nos devemos virar!”. No interior “onde os presidentes de Junta têm responsabilidade, veem envelhecer as populações e vemos perder tudo, começa a ser desesperante […] nas aldeias estão a tirar tudo aquilo que são direitos das pessoas, escolas, serviços de saúde, correios, etc”, afirma.

Luís Alves considera que o encerramento do balcão deixa as populações mais desprotegidas porque apesar da entidade bancária ser um serviço privado é um serviço público de proximidade que se perde. “Temos de acordar todos em vez de andarmos a escrever no Facebook”, considera.

Farmácia Santos em Rossio ao Sul do Tejo. Créditos: mediotejo.net

Com este fecho, todos os clientes ouvidos pelo mediotejo.net manifestam “perda”, “tristeza” e “mágoa”. Ana Maria Santos, proprietária da Farmácia Santos, conta-se entre os clientes descontentes com a decisão do Santander. “Há 40 anos adquiri a farmácia e na altura já existia o Totta, o primeiro banco a instalar-se no Rossio. E agora estamos numa situação de perda total; tínhamos o BPI, encerrou; a Caixa Geral de Depósitos, encerrou; e o Santander vai encerrar amanhã”.

Para Ana Maria Santos, a sucursal vai fazer muita falta. “Até quando precisávamos de trocos, dava jeito. Os funcionários estavam sempre prontos a ajudar, pessoas extraordinárias”, diz, recordando que primeiramente “encerram o cofre noturno e agora o balcão”.

A empresária declara não compreender a opção, até porque o balcão do Rossio “tem melhor estacionamento” que o balcão de Abrantes, e mais espaço. “Ainda ontem passei em Abrantes e vi uma fila fora do banco à espera. Não tenho tempo para estar lá e além disso torna-se perigoso, no sítio onde é. Para estacionar tem de ser na Fontinha e depois venho a pé com o dinheiro para ir depositar? Ou vou buscar trocos e depois venho do banco a pé para a Fontinha?”, questiona, reafirmando que “não é prático nem seguro”.

Ana Maria já comunicou ao banco que vai deixar de ser cliente. “Tenho de ver como vou fazer porque de qualquer maneira tenho de me deslocar a Abrantes”, diz, desconhecendo neste momento se as deslocações serão diárias ou semanais. “Não faço a mínima ideia! Porque há funcionários do Santander que moram no Pego e passam aqui mas também há funcionários da Caixa Geral de Depósitos que moram no Cabrito… não sei, ainda não analisei bem” como será no futuro.

Relativamente à perda de serviços em Rossio ao Sul do Tejo, Ana Maria Santos afirma ser “uma desgraça”, e lembra que a caixa multibanco também “faz muita falta”, referindo que o marido “lutou muito para manter o ATM” aquando do encerramento do balcão da Caixa Geral de Depósitos. “Agora não sei como será.”

Manifesta sentir “muita tristeza” ao ver a sua terra perder tudo, notando “grandes diferenças” em Rossio ao Sul do Tejo nos últimos 40 anos. Lamenta “a política de centralização na cidade” e também “os despedimentos dos funcionários”.

José Maria Bogalho reside em Rossio ao Sul do Tejo há 60 anos e é cliente do Santander “desde sempre”. Créditos: mediotejo.net

José Maria Bogalho, de 79 anos, reside em Rossio ao Sul do Tejo há 60 anos e também é cliente do Santander “desde sempre”, ou seja, há pelo menos 50 anos. Quando o nosso jornal o encontrou à porta do banco acabara de se despedir os funcionários a quem chama “amigos”.

“É com muita mágoa que me despeço dos funcionários e é com muita mágoa que vejo fechar estas instalações que tão bem têm servido as pessoas”, afirmou.

Realça que a sucursal encontra-se instalada “num sitio estratégico” e considera que o encerramento do balcão “vai lesar muita gente”, o próprio incluído. “Sinto-me lesado porque moro aqui por cima e vamos tendo uma idade mais avançada e temos de nos deslocar para muito longe. Agora tenho de ir à cidade, para mim e para a minha mulher já é um bocado pesado”, refere, fazendo notar uma futura situação “muito diferente de ter o banco à porta”.

Também José Maria Bogalho enumera os bancos que fecharam recentemente naquela localidade na margem sul do Tejo: “Fechou a Caixa Geral de Depósitos, fechou o BPI, está tudo a fechar e sinto muita tristeza com o que está a acontecer, não só no Rossio, a nível geral, nacional e mundial. A economia domina o mundo e não se compadece.”

Diz-se “fiel” ao Santander Totta e por isso não pensa em mudar de banco. “Têm-me tratado sempre bem e tenho um carinho especial pelas pessoas. Vou continuar a ser cliente apesar da mudança”.

Outro cliente é Manuel António Pires, de 85 anos, residente em Coalhos, na vizinha freguesia do Pego. Já perdeu a conta aos anos que confia no Santander. E este encerramento dificulta-lhe a vida. “Aqui era sempre melhor para mim porque em Abrantes não podemos estacionar os carros e temos de atravessar a estrada.”

O fecho da agência bancária “é uma perda” muito grande. “Tenho muita pena que o balcão encerre em Rossio. E tenho dificuldade em me deslocar a Abrantes. A idade já é muita para andar com o carro e tenho de pedir ao meu filho para ir comigo”, refere.

Banco Santander, em Rossio ao Sul do Tejo. Créditos: mediotejo.net

Manuel conta ainda que o banco lhe enviou um carta garantindo que as condições no balcão de Abrantes serão as mesmas oferecidas no balcão do Rossio, sendo que “o pessoal passa lá para cima… mas aqui era sempre melhor para a gente”.

Para já descarta a ideia de mudar de banco, apesar da instituição bancária mais perto de sua casa ser agora no Pego, a Caixa Agrícola. “Pode ser uma possibilidade. Por enquanto ainda não penso em mudar… depois se verá”, afirma.

Na resposta enviada à Lusa, o Santander refere também que “nos últimos cinco anos (…) incorporou as redes dos bancos Banif e Popular e desde essa data que o banco tem vindo a rever a dispersão geográfica e a sua presença física em função não só das redundâncias daí resultantes, mas também do nível de digitalização dos clientes, quer da observação do número, em diminuição, de visitas dos clientes aos balcões”.

Dando conta que “o número de transações em balcão caiu cerca de 30% de 2019 para 2020”, a mesma fonte disse que o banco tem atualmente 380 balcões e que continuará a “monitorizar” o seu grau de utilização de forma a “dar a resposta que os clientes pedem” em termos de utilização.

“À medida que otimizamos a rede física também estamos a investir cada vez mais em tecnologia e em processos cada vez mais automáticos de contratação remota. É um movimento inevitável que os nossos clientes pedem e que a pandemia veio acelerar”, justifica o Santander.

Certo é que o Santander Totta obteve um resultado líquido positivo de 34,2 milhões de euros no final primeiro trimestre deste ano, apesar dos impactos da pandemia de covid-19.

E o mediotejo.net sabe que o balcão que agora encerra apresenta maior movimento que o balcão de Abrantes, sendo até uma agência das que apresenta maior movimento no distrito de Santarém, mas, apesar dos números, a opção da administração passou por centralizar os serviços na cidade.

Entretanto, em Carta Aberta à administração do Banco Santander Totta, a Comissão Nacional de Trabalhadores dá conta de “uma política agressiva de rescisões por mutuo acordo generalizadas, colocadas sob chantagem de despedimento coletivo futuro […] contrariaram a política anunciada pelo grupo e pelo banco de ‘não discriminação de género’ quando assumiram, perante várias colegas, que propunham mais rescisões a colegas mulheres porque as mulheres têm maior esperança de vida e, por isso, acarretam maiores encargos ao banco nas Reformas”.

Nessa Carta Aberta, a que o mediotejo.net teve acesso, afirma estar “tecnicamente impedida pela administração do Banco de utilizar o e-mail da CNT para enviar a comunicação” aos trabalhadores que representam, considerando tal limitação “ilegal e inconstitucional” aguardando que os órgãos do Estado se pronunciem.

Além disso, acusa ainda na Carta Aberta “o atual processo de redução do número de trabalhadores efetivos do Banco está a ser um processo de substituição e de precarização das relações de trabalho pois o grupo Santander está a contratar trabalhadores em Portugal, com salários de 700 euros, para executar o trabalho dos serviços centrais. Igualmente o encerramento dos balcões da rede comercial está a dar lugar a abertura de ‘novos’ balcões (alguns nas mesmas localidades) sob o nome de ‘Santander – Intermediário de Crédito Vinculado’ com novos trabalhadores”.

Acrescenta que “a Administração comunicou à Comissão de Trabalhadores que vai apresentar até final deste mês de junho, um plano de reestruturação do Banco (rede comercial e serviços centrais) para prosseguir com a redução/substituição de trabalhadores. Desde que este processo se iniciou, desde setembro de 2020, já foi reduzido o quadro em mais de 420 trabalhadores (por reformas e rescisões por mútuo acordo)”.

A Comissão de Trabalhadores defende “uma ação de paralisação geral no Banco Santander Totta”. E diz “em conjunto com o apoio dos sindicatos” estar a preparar essa ação contra os despedimentos e pelo emprego com direitos.

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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