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Quarta-feira, Dezembro 1, 2021

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Abrantes | Em dia de pedir os bolinhos, as portas dos santinhos abriram-se às crianças (C/VIDEO)

“Bolinhos, bolinhos, à porta dos santinhos”. É esta a ladainha que outrora se fazia ecoar pelas ruas de Alferrarede, numa verdadeira azáfama de crianças a correr de porta em porta para não perder um doce. Esta segunda-feira, dia 1 de novembro de 2021, as vozes eram poucas e tímidas. O receio de sair à rua deixado pela pandemia faz o silêncio sobressair. Mesmo assim, há quem não queira deixar cair no esquecimento a tradição e, de sacola na mão, tivesse partido em busca de um beijinho, uma broa ou quiçá até de uma moedinha.

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São 10h00. Por esta hora, há dois anos, a correria de crianças rua acima e rua abaixo era bem notória na zona de Alferrarede no Dia de Todos os Santos. Após um ano de interrupção desta prática por força da pandemia, este ano aguardava-se ansiosamente pelo regresso da tradição – e até São Pedro deu tréguas e mostrou o sol – mas a deceção bateu à porta e os “santinhos” não escondem algum sentimento de tristeza por verem menos crianças nas ruas.

“Tudo acaba e é bem verdade”, diz Maria, moradora no bairro do Tapadão. “É por causa dessa porcaria [do vírus] que aí anda. As pessoas têm receio e não vêm”, diz. “É que não se vê ninguém”, acrescenta outra vizinha que lembra que no seu tempo, por esta hora, “já estávamos fartos de pedir bolinhos. Corríamos tudo, eram quilómetros e quilómetros”.

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Os minutos passam, os olhares à espreita das crianças multiplicam-se às janelas e portões e quase perto de voltar costas e ir começar a tratar do almoço, eis que aparecem ao fundo da rua duas crianças acompanhadas por duas senhoras, mãe e avó.

Ana Damas vive em Lisboa mas tem raízes em Abrantes, e faz questão de voltar à terra para dar a conhecer aos dois filhos as raízes e cumprir a tradição. “Em anos anteriores tenho vindo com os meus filhos, ainda se mantém a tradição”, conta, admitindo que não teve receio de sair à rua com as crianças: “Já estão na escola, já socializam com outras crianças e acho que é mais importante depois desta pandemia manter a tradição do que não os trazer.”

“Este ano nota-se que há menos crianças. Ainda há alguns pais com receio do Covid mas ainda se vêm algumas”, diz também.

Por esta altura, passam alguns grupos de jovens com os sacos meio vazios mas não se demoram muito em bater às portas, preocupados mais em ir ao encontro daquelas que já estão abertas com os doces à vista. São 10h30. Sandra Fontes começou agora o trajeto com as duas filhas. É a primeira vez que pedem os bolinhos em Alferrarede, porque a filha mais velha era suposto vir pedir com as amigas mas “as mães das amigas não as deixaram sair ainda”.

Sandra partilha da opinião de Ana, mas admite que “embora haja ainda algum receio de sair à rua e andar com eles de porta em porta, é bom manter as tradições, manter o contacto, conhecer os sítios”.

E as crianças aprovam este costume. “A mais nova só tem 3 anos, nem tinha essa perceção do que era mas anda encantada. A mais velha andava ansiosa”, revela-nos.

10h40. Cheila Rebelo vem também pela primeira vez pedir os bolinhos com a filha Luísa. “Acho giro, aqui em Abrantes pede-se os bolinhos à porta dos santinhos, em Lisboa pedíamos o pão por Deus”, refere, sublinhando a simpatia dos moradores que vai encontrando por aqui. “Está a ser divertido”, diz-nos com o sorriso no rosto antes de ir à procura dos doces de uma das vizinhas que estava para fechar a porta.

11h00, 11h30, o relógio vai avançado. Os crentes regressam da missa do Dia de Todos os Santos e ficam céticos com o cenário despido das ruas. Uma ou outra criança vai passando acompanhada pelos pais quase sem dar sinal da sua passagem.

O relógio da Igreja ao longe assinala o meio-dia. A manhã está a chegar ao fim, é tempo de encostar a porta, ir acabar o almoço e guardar os doces para o ano que vem, com a esperança de que tudo volte a ser aquilo era.

Dia de Todos os Santos / Dia dos Bolinhos. Imagem: mediotejo.net

Abrantina mas orgulhosa da sua costela maçaense, rumou a Lisboa com o objetivo de se formar em Jornalismo. Foi aí que descobriu a rádio e a magia de contar histórias ao ouvido. Acredita que com mais compreensão, abraços e chocolate o mundo seria um lugar mais feliz.

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