Abrantes | Em arranque do ano letivo há alunos a viajar de pé e lado a lado nos transportes públicos

Em arranque do ano letivo há alunos em três circuitos no concelho de Abrantes a viajar de pé e lado a lado nos transportes públicos, segundo relatos dos encarregados de educação. Foto ilustrativa: Pau Casals

O ano novo letivo arrancou em cenário de pandemia de covid-19. O incumprimento de regras de segurança e medidas como o distanciamento social, nos transportes públicos, estão a preocupar alguns pais que relataram situações de alunos a viajarem de pé e lado a lado, nomeadamente em autocarros que partem de São Facundo e Bemposta, freguesias que distam mais de 15 quilómetros da cidade de Abrantes. Além destes testemunhos, o mediotejo.net contactou a Rodoviária do Tejo que confirmou ter recebido essa preocupação também por parte da Câmara Municipal e da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo. O assunto já havia sido abordado na terça-feira, 15 de setembro, na reunião de executivo municipal de Abrantes.

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Segundo uma nota informativa da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo a rede de serviços de transporte públicos foi reforçada na região do Médio Tejo desde segunda-feira tendo em conta o início do novo ano letivo, anunciando o número de 650 ligações diárias, mas relativamente ao concelho de Abrantes, há pais de alunos residentes em Bemposta e São Facundo a manifestarem-se preocupados ao verem uma situação que se repetiu nos primeiros dias de aulas: alunos a viajarem de pé até à escola na cidade de Abrantes, tendo a perceção de que os autocarros circulam com lotação esgotada.

Por isso, a comunidade manifesta-se inquieta no que concerne aos transportes públicos que levam (e trazem) os alunos das freguesias rurais até aos Agrupamentos de escolas da cidade neste início do novo ano escolar, e em cenário de pandemia de covid-19.

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Uma mãe residente em São Facundo, que pediu anonimato, conta ao mediotejo.net os relatos do seu filho de 10 anos, afirmando que “muitos alunos viajaram hoje de pé no autocarro até à cidade de Abrantes” que dista cerca de 15 quilómetros. “Muitos quilómetros a viajar em pé, para crianças de 10 anos”, considera. Por lei, “no meu carro o meu filho tem de viajar numa cadeira própria e no autocarro viaja em pé sem ter onde se segurar… ao menos que tivesse lugar sentado”, reclamou.

“No primeiro dia fui levar o meu filho ao autocarro, e vi que viajam dois passageiros por cada banco. Vão todos juntos, de máscara, mas sem possibilidade de cumprir as distâncias recomendadas” pela Direção Geral da Saúde, afirmou.

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Quanto à lotação de dois terços determinada por lei, tendo em conta a contenção do vírus SARS-CoV-2, essa mãe testemunhou que “apenas os dois lugares atrás do motorista estão interditos” e manifesta-se preocupada principalmente com “a falta de distanciamento”. Além disso considera “incorreto” o transporte não ser exclusivamente escolar.

Este é o segundo ano que o seu filho frequenta a escola em Abrantes, porque o ensino termina no quarto ano de escolaridade nas freguesias rurais. O menino frequenta agora o sexto ano, e a mãe garante que a situação de sobrelotação colocava-se já no ano passado.

“Só que este ano temos pandemia! Em São Facundo existem três paragens e o meu filho era o último a entrar na aldeia. Ia sempre em pé, e enjoava. Chegou a uma altura que chorava, não queria ir à escola. Por isso tivemos de passar a levá-lo à primeira paragem para garantir que tinha lugar sentado. Este ano a situação repete-se, agora com covid”, diz.

Foto: DR

Do lado da Rodoviária do Tejo, Teresa Fernandes apontou três linhas onde situações de passageiros a viajar de pé têm ocorrido desde o arranque do ano escolar, no dia 14 de setembro. Mas garante que em nenhuma destas linhas no concelho de Abrantes a lotação dos veículos foi ultrapassada, sendo que, devido à situação de pandemia, os autocarros têm, como é sabido, de circular com dois terços da lotação total.

Assim, na linha que liga Vale de Horta a Abrantes e que passa por São Facundo “a lotação total é agora de 53 passageiros e o autocarro chegou a Abrantes com 45 passageiros”, assegura Teresa Fernandes. Na linha que liga Barrada a Abrantes passando por São Facundo “a lotação é igualmente de 53 passageiros sendo que o autocarro chegou a Abrantes com 25 pessoas” e na linha da Foz, que passa por Bemposta em direção a Abrantes, os dois terços obrigam a uma lotação de “54 passageiros e chegou a Abrantes com 38”, garante a responsável da Rodoviária do Tejo.

No entanto, Teresa Fernandes lembra que a lotação total – número que não conseguiu precisar – “é uma lotação mista que engloba lugares sentados e lugares em pé”. Além disso, sublinha, em causa estão “carreiras de serviços públicos que não transportam apenas alunos mas também outras pessoas” da comunidade.

Teresa Fernandes assegura que a Rodoviária do Tejo está “atenta” ao evoluir dos vários processos, e disse que “a empresa dá indicações aos motoristas” no sentido do cumprimento das medidas de segurança e prevenção da covid-19. Segundo aquela responsável, a situação está a ser “monitorizada diariamente”.

Em declarações ao mediotejo.net, Teresa Fernandes deu conta que todas as medidas e decisões da Rodoviária do Tejo foram tomadas em “articulação com os municípios e com a Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo que são as autoridades competentes de transporte nesta matéria”.

A responsável garante que “sempre que se justificar existirão ajustamentos, nomeadamente com mais autocarros, de acordo com o que for solicitado, ajustando às necessidades”. Teresa Fernandes garantiu ainda que todas as viaturas disponibilizam álcool gel e são regularmente desinfetadas.

Reunião de Câmara Municipal de Abrantes. Créditos. mediotejo.net

Segurança dos alunos nos transportes públicos abordada em reunião de Câmara

O tema da lotação dos autocarros, com alunos a viajar de pé, foi abordado pelos vereadores da oposição. Armindo Silveira, eleito pelo Bloco de Esquerda, e Rui Santos eleito pelo Partido Social Democrata, levaram o assunto a reunião de executivo na terça-feira, manifestando preocupação com a segurança dos alunos.

Rui Santos chegou mesmo a afirmar ter verificado que “vários autocarros trariam alunos a mais”, lembrando que “há vários anos há alunos que viajam sentados e alunos que viajam de pé. E isso é permitido por lei, mas sabemos o perigo que é os alunos fazerem o percurso – e não vou mais longe – do Pego a Abrantes, em pé”.

Questionado pelo mediotejo.net sobre a problemática da segurança rodoviária e sanitária dos alunos nos transportes públicos, num ano em que o Município assume a transferência de competência na área da Educação, o presidente da Câmara Municipal de Abrantes, Manuel Jorge Valamatos (PS), garantiu que a autarquia “está preparada para responder com os diferentes agentes do território nas diferentes ações”.

Considerou que a transferência de competências na área da Educação “não muda rigorosamente nada na forma operacional, naquilo que sempre foram os transportes escolares” em Abrantes, embora reconheça que agora “compete à Câmara uma maior responsabilidade de análise, de observação, de atenção com estas situações”.

Começou por esclarecer que a Câmara estabelece “um conjunto de protocolos com as Juntas de Freguesia para dar respostas personalizadas a muitos dos nossos alunos”, um trabalho que classificou de “extraordinário”.

Lembrou que a Câmara também compra “um conjunto de serviços a várias entidades com táxis, carrinhas de nove lugares para fazer esses transportes garantindo toda a segurança aos nossos jovens” que considera uma “prioridade”, quer na situação de pandemia de covid-19 “quer em outras situações”, nomeadamente “de incumprimento das regras quer da DGS quer da lei geral da mobilidade”.

Quanto aos alunos do secundário, “os transportes também são, de forma muito robusta, financiados pela autarquia com a Rodoviária do Tejo, para que os diferentes jovens venham dos diferentes lugares do concelho para as escolas sede em segurança”, afirmou, tendo feito notar que o executivo “não pode permitir que as crianças venham em pé ou de forma descontrolada, desnecessária. Isso não pode acontecer!”, vincou.

O presidente afirmou que o executivo “está atento, neste caso particular com a Rodoviária do Tejo, para que possamos ajudar a serem criadas todas as condições para que os nossos alunos se desloquem dos diferentes lugares do nosso concelho, que é muito disperso e muito grande, em segurança. Tudo faremos para dar todas as respostas. E acompanharemos este início do ano letivo que poderá apresentar algumas fragilidades aqui ou além”, aduziu.

“Se houver necessidade de aumentar o número de transportes assegurados pelo Município de forma direta ou indireta faremos todos os complementos necessários para responder às expectativas das famílias que é ter os seus educandos devidamente seguros nos transportes públicos, de casa para a escola e vice-versa”, assegurou o autarca.

No ano passado, vários pais e encarregados de educação fizeram chegar os seus protestos a quem de direito, juntando fotografias a um processo que acompanharam sempre de perto. Alunos seguiam em pé de Tramagal para Abrantes. Foto: DR

Sobre a circulação de autocarros exclusivamente escolares, lembrou que existem transportes para o primeiro ciclo de escolaridade. No entanto, para já, “não existe nenhuma situação” em que o executivo socialista “entenda ser necessário um autocarro especifico para os alunos que não possa trazer mais passageiros de um diferente lugar. Nem faz sentido, nem é eventualmente sustentável economicamente!”, considerou.

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