Abrantes/ Donetsk | Pode a arquitetura aproximar os povos?

Iaroslav Liashok e o Professor Arquitecto Antonio Castelbranco (ACb). Foto: DR

A pergunta pode, à partida, soar a algo de estranho. Mais a mais se pensarmos em duas cidades como Abrantes e Donetsk (Ucrânia), onde, à primeira vista, o que as une é o facto de estarem em duas pontas da Europa. Mas…pode a arquitectura aproximar os povos? Sim, pode, como o atestou o Reitor da Donetsk National Technical University, Iaroslav Liashok, que esteve em Abrantes a convite do arquiteto António Castelbranco, Professor da Faculdade de Arquitectura de Lisboa, entidade que gere uma verba de 8,1 milhões de euros financiados pela União Europeia em projectos de investigação/intercâmbio que ajudam a manter aberto o diálogo com o Leste da Ucrânia. O mediotejo.net esteve em Abrantes a falar com os dois arquitectos que abordaram o presente da Europa e da Ucrânia, as agressões da Rússia, e as pontes de diálogo que se estão a construir ao nível do ensino superior entre a União Europeia e os países de Leste, a partir de Portugal.

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A conversa decorre em casa do arquitecto António Castelbranco, em Abrantes, professor na Faculdade de Arquitectura de Lisboa, e que, em conjunto com a Professora Oksana Turchanina, coordena 3 projectos por eles apresentados e seleccionados em Bruxelas pela Education, Audiovisual and Culture Executive Agency (EACEA), num momento em que se está a fazer o balanço dos três projectos de investigação e intercâmbio que ganharam entre 2012 e 2013, e que reflectem fluxos de mais de 400 alunos entre a UE e o leste da Europa – com um orçamento de cerca de 8,1 milhões de euros.

Este valor atribuído pela União Europeia é considerado um recorde a nível nacional e tem permitido desenvolver projetos de investigação nas áreas do urbanismo, da arquitectura e, da sustentabilidade. TEMPO, INFINITY e RETHINK são os nomes destes três projetos, coordenados pela Faculdade de Arquitetura de Lisboa, todos com o objetivo de aproximar a União Europeia às repúblicas do antigo bloco soviético (e que incluem a Ucrânia, a Bielorússia, a Moldávia, a Geórgia, a Arménia e, o Azerbaijão).

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“É algo que faz parte da política externa da União Europeia possibilitando através da Educação e da Investigação aproximar os países”, enquadrou António Castelbranco, relativamente às candidaturas ganhas pela Faculdade de Arquitectura de Lisboa e que têm como parceiros na União Europeia a Espanha, Itália, Holanda, Alemanha, República Checa, Eslovénia e seis das ex-repúblicas da União Soviética.

Na passada sexta-feira, dia 11 de novembro, tivemos a oportunidade de entrevistar em Abrantes Iaroslav Liashok (IL) – o Reitor da Donetsk National Technical University (DNTU) – que esteve na Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa (FAUL) e em Abrantes para trabalhar na continuação dos projectos coordenados pelo Professor Arquitecto Antonio Castelbranco (ACb) e pela Professora Drª Oksana Turchanina.

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*mediotejo.net (MT) Qual é o nível de satisfação na DNTU (Universidade Técnica Nacional de Donetsk) com os projectos que a FA da Universidade de Lisboa coordena?

Iaroslav Liashok (IL) – A FAUL foi a iniciadora e é a Coordenadora Geral destes projetos, a DNTU foi selecionada como Coordenadora Adjunta neste esforço de aproximação – entre a União Europeia e a Ucrânia – coordenado por Portugal. Porém, em 2014, depois da ocupação desta região (pela Rússia), a DNTU teve que ser relocalizada para o território que não foi ocupado. E, como resultado, muitas ligações e contactos foram perdidos entre a DNTU e a FAUL.  Mas graças aos esforços da coordenação da FAUL, da Profª Oksana Turchanina e do Prof. .Antonio Castelbranco, as relações e ligações foram restabelecidas – o restabelecimento destas relações é essencial para futura colaboração.

(MT) Quais as razões que levaram a DNTU a sair de Donetsk?

(IL) Conforme mencionei, a cidade de Donetsk e parte do distrito foram ocupados à força pela Federação Russa no verão de 2014. Obviamente era impossível continuar com o processo de educação numa universidade sitiada/amordaçada.  Assim, o ministério da educação decidiu relocalizar a universidade para a cidade de Pokrovsk, a 40 km de Donetsk.  Para lhe dar uma ideia das dificuldades com que vivemos, muitas vezes demoramos mais de 48 horas para chegar a Donetsk, para fazer 40Km. Isto deve-se aos bombardeamentos e, às filas infindáveis nos postos de controlo do lado ocupado pela Rússia. Isto sem falar da hora do recolher obrigatório, da proibição da liberdade de expressão, da TV controlada pela Rússia que só passa propaganda. Com efeito, na cidade de Donetsk, a maior parte das pessoas têm esperança de que o exército da Ucrânia as venha salvar e libertar.

* (MT) Qual é a situação político-económica em Donetsk?

No território ucraniano ocupado (pela Rússia) circula o Rublo, o preço da comida é muito alto, e quase todos os bens alimentares vêm da Rússia. Muitas das fábricas Ucranianas situadas em território ocupado foram desmontadas e transportadas para a Rússia, parte das minas de carvão estão inundadas de água porque o equipamento de bombagem das águas subterrâneasm assim como os outros equipamentos das minas, foram enviados como sucata para Rússia.

* (MT) Qual a importância que o Sr. Reitor dá à relação que DNTU tem com a FAUL?

(IL) A importância da FAUL neste processo é difícil de avaliar pois tem sido, e é, absolutamente fundamental em todos os sentidos e, acima de tudo é o reconhecimento – de Portugal – um país da União Europeia à nossa universidade.

* (MT) Por isso acha que estes projectos são relevantes para a DNTU?

(IL) Obviamente muito relevantes, a participação nestes projetos permite aproximar as universidades da Ucrânia ao sistema universitário europeu – ao qual temos esperança de fazer parte no futuro próximo.

* (MT) A sua universidade gostaria de continuar a trabalhar com a FAUL? Porquê?

(IL) Sim! Absolutamente! A continuação destes e de outros projectos é muito importante e, durante a nossa estadia em Portugal foram abordados novos temas para futura colaboração. Nomeadamente, em projetos de mobilidade académica, para alunos, investigadores e docentes, no desenvolvimento de graus duplos, o que é fundamental para obtenção de verbas de Bruxelas, e no desenvolvimento de centros para avaliação de qualidade dos programas académicos.

Iaroslav Liashok (IL) - o Reitor da Donetsk National Technical University, e a Professora Drª Oksana Turchanina em Abrantes. Foto: DR
Iaroslav Liashok (IL), Reitor da Donetsk National Technical University, e a Professora Drª Oksana Turchanina em Abrantes. Foto: DR

* (MT) Acha que este tipo de projectos fortalecem a ligação entre a Ucrânia e a União Europeia?

Sem dúvida. Estes projetos, estes esforços, são a forma mais inteligente de se estabelecerem laços de confiança, de se construírem pontes de entendimento e, acima de tudo, de se reforçar a paz.

Conforme já disse, tenho a certeza de que estes contactos a nível académico e humano reforçam a aproximação da Ucrânia à União Europeia e mais, tenho esperança de que um dia a Ucrânia faça parte da UE.

*Antonio Castelbranco (ACb).  Que tipo de novos acordos / projectos bilaterais gostaria de desenvolver com o Portugal?

Gostaríamos de estabelecer acordos para mais programas académicos, para o desenvolvimento de projetos científicos tendo como temas prioritários o meio ambiente, as tecnologias de informação, o desenvolvimento sustentável do território e, aproveitando o enquadramento do Programa Horizon 2020, financiado pela UE.

* (MT) Tem gostado da sua visita de trabalho a Portugal? e a Abrantes?

(IL) Do ponto de vista profissional a minha visita aqui tem sido muito útil. Do ponto de vista do visitante, também foi muito interessante porque em Portugal pode-se sentir a história, a ligação entre as gerações, o patriotismo e a proximidade ao temperamento ucraniano. A gastronomia, a cultura, a natureza, o clima, o belo oceano Atlântico é espetacular. Abrantes é uma cidade antiga, calma, com gente amável, e também cheia de história e de histórias.

* (ACb).  Sr. Reitor, acha que a União Europeia tem feito o suficiente para ajudar a Ucrânia? O que a UE deveria fazer para vos ajudar com maior eficácia?

(IL) Na União Europeia as pessoas pensam que a guerra na Ucrânia é muito longe e que nunca vai tocá-las, mas a Europa não é muito grande, e em cada momento pode ser alvo de ataque ou de agressão. O nosso desejo é de que a Ucrânia venha a fazer parte da NATO e parte da União Europeia, que faça parte de um sistema de segurança europeu no qual todos os pontos do memorando de Budapeste sejam respeitados por todas as partes sem condições.

Mas se a UE não nos puder dar apoio militar, pelo menos que mantenha a política das sanções e que continue a pressionar a Rússia para respeitar a soberania e independência da Ucrânia.

* (ACb). Acha que Donetsk e a área de Donbass serão devolvidas à Ucrânia?

(IL) Sim! Acreditamos que Donbass e a Crimeia serão devolvidas à Ucrânia e, com o apoio da UE e dos EUA, a Rússia será eventualmente chamada a assumir responsabilidades por todas as suas ações agressivas contra a Ucrânia.

TEMPO, INFINITY e RETHINK são os nomes destes três projetos, coordenados pela Faculdade de Arquitetura de Lisboa, todos com o objetivo de aproximar a União Europeia às repúblicas do antigo bloco soviético. Foto: DR
TEMPO, INFINITY e RETHINK são os nomes destes três projetos, coordenados pela Faculdade de Arquitetura de Lisboa, todos com o objetivo de aproximar a União Europeia às repúblicas do antigo bloco soviético. Foto: DR

*Entrevista conduzida pelo jornalista Mário Rui Fonseca com o apoio na tradução do arquitecto António Castelbranco, a quem o mediotejo.net agradece a disponibilização das condições para a realização deste trabalho.

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