Abrantes | Do castelo à EN2, a RCA eterniza o património em lembranças feitas à mão

Cristina Reis tem 31 anos e é a gerente da RCA- Restauro, Criação e Arte, localizada na cidade de Abrantes. Foto: mediotejo.net

Ligada às artes desde os tempos em que o avô lhe cedia uns “pedacitos de barro” para passar o tempo, Cristina Reis encontra nos vidratos coloridos e nas tintas cerâmicas o seu modo de vida. Com um pensamento positivo e uma vontade intrínseca de valorizar “aquilo que é nosso”, pôs de pé o projeto RCA – Restauro, Criação e Arte há cerca de um ano e hoje ganha destaque pela região com os seus ímanes alusivos a monumentos da cidade de Abrantes e também à afamada Estrada Nacional 2, o “empurrão” necessário para enfrentar estes tempos de pandemia.

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As cores são parte do dia a dia de Cristina. Tal como o são a faiança, o gesso, o barro, a cerâmica, um sem número de pincéis, moldes e tantos outros materiais que, a partir das suas mãos, se transformam em arte.

 

Com os vestígios de tinta na bata branca, é imediatamente comprovável que este é um trabalho onde a expressão de ordem é a de “pôr a mão na massa”. “É tudo feito aqui. Os moldes são nossos, os dos ímanes da cidade sou eu que os faço, os protótipos. É tudo feito à mão, cozido aqui, pintado à mão e vai outra vez ao forno”, explica.

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Estamos na RCA – Restauro, Criação e Arte, um projeto inaugurado a 1 de junho de 2019 que significa a concretização de um sonho de criança de Cristina Reis, a responsável.

Desde criança ligada ao mundo das artes, Cristina sempre teve o sonho de ter uma loja. Foto: mediotejo.net

“A loja sempre foi um sonho. Sempre quis ter uma coisa deste género”, confessa, em entrevista ao mediotejo.net. O “sempre” remonta-nos aos tempos da sua infância, em que “ia para o pé do meu avô, que trabalha com o barro e com o gesso, ele dava-me uns pedacitos de barro e eu ficava a brincar e acabava por me entreter e passar o tempo”.

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O pai, professor de artes, também a incentivou a ir para aquela que Cristina define como “uma área gira, diferente”. Acabou por fazer licenciatura e mestrado em Conservação e Restauro, tal como o marido, Adriano, que hoje é o seu braço direito no projeto.

“Temos a mesma formação base mas ele é especializado em património integrado e eu em património móvel”, explica. “O Adriano trabalha mais com pedra, acompanhamento de obras, castelos, museus”.

A conversa decorre na sala onde Cristina passa os dias, a sala de produção artística. Ladeada de embalagens com vidratos coloridos, da máquina que recorta os moldes um a um e dos ímanes em processo de construção, fala-nos do seu percurso no mundo das artes enquanto ao longe se ouve o barulho de máquinas a trabalhar. É na cave que Adriano restaura todo o tipo de materiais, nomeadamente, móveis.

Antes do nascimento da loja, na rua Rua Afonso Vasques Correia, em Abrantes, Cristina trabalhava “num pequeno atelier na casa dos meus avós”. Foi em 2016 que a mestre em restauro e conservação começou a investir na produção de ímanes, com um objetivo definido de “promover a cidade. Nunca quisemos largá-la”.

Todos os ímanes produzidos na RCA são pintados à mão e vão ao forno duas vezes a temperaturas elevadas. Foto: mediotejo.net

“Uma das nossas apostas é também o uso de produtos regionais. A cortiça usada nos presépios, por exemplo, é da Sofalca, na tentativa de puxar um bocadinho para o que é nosso, a valorização daquilo que é da cidade”, defende a abrantina.

Desde andorinhas, presépios exclusivos, porta-chaves personalizados, até azulejos tipicamente portugueses, de figura avulsa e peças ligadas ao mosaico romano, Cristina tenta aliar as técnicas tradicionais aos objetos contemporâneos, personalizando ao gosto de cada cliente.

“Nós fazemos muito isso [trabalho personalizado] na pintura de azulejos. Por exemplo, com a frase do anjo da guarda, mas pondo o nome da pessoa. É um trabalho personalizado e não levamos mais por esse tipo de trabalho. Acho que estas coisas também são importantes para que toda a gente possa ter o mesmo acesso.”, refere.

Mas o sucesso da loja têm sido os já referidos ímanes alusivos à cidade. “Temos a torre das comunicações, o castelo de Abrantes, a igreja de Santa Maria do castelo, as casinhas floridas”, enumera, sem se esquecer do íman com a frase “Vamos todos ficar bem”, que surgiu em tempos de pandemia.

O íman alusivo à torre das comunicações de Abrantes é uma das apostas da RCA. Foto: mediotejo.net

Por outro lado, há também estabelecimentos a pedir peças específicas alusivas a lojas ou ainda ímanes relativos à célebre Estrada Nacional 2. “Há muita gente a querer”, confirma-nos Cristina. “Temos o normal, o do quilómetro 404 de Abrantes, e depois temos as lojas”.

Ímanes alusivos à Estrada Nacional 2. Foto: mediotejo.net

E foi também o mote da Nacional 2 que acabou por dar “um empurrão” ao projeto em tempos de pandemia, com os desafios lançados por diversos estabelecimentos. “Na altura, nem sabia desta forma como a Nacional 2 está a ser encarada. Depois, as pessoas começaram a aderir e é muito interessante. Acho que acabou por dar um bocadinho um empurrão, sou uma pessoa com sorte”, afirma.

Apesar de o espaço físico da RCA estar “um bocadinho escondido”, facto que Cristina não considera negativo pois defende que as atuais instalações lhe permitem ter liberdade para imaginar mais alto, o trabalho não passa despercebido e admite que estão a começar a “expandir um bocadinho para fora”. Na verdade, além dos pontos de venda que tem por toda a cidade, a RCA marca já presença no concelho de Sardoal e tem até um cliente de Pedras Salgadas (Vila Pouca de Aguiar).

Com pouco mais de um ano de vida, as redes sociais são o grande veículo de divulgação do projeto e a próxima aposta da RCA é em workshops.

“Aqui costumam passar muitas crianças diariamente e o olhar delas, o sorriso delas ao verem as peças. E todos nós somos capazes de fazer coisas bonitas, o que eu faço eles também podem fazer e é um bocadinho isto que quero dar, que pudessem vir e conhecer um bocadinho das técnicas, do processo, mas que eles próprios pudessem criar as suas coisas bonitas”, conta-nos Cristina.

Apesar dos “altos e baixos” sentidos ao longo deste ano de casa e no meio de uma pandemia, Cristina vai continuar a dar cor à cidade através das suas peças, sempre com duas coisas no pensamento: a entreajuda e a convicção de que “os bons tempos somos nós que os criamos”.

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