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Abrantes | Diogo Oleiro lembrado e homenageado nas VI Jornadas do MIAA

No dia em que se assinalou o Dia Internacional dos Museus, 18 de maio, Abrantes, mais precisamente o Museu D. Lopo de Almeida, na Igreja de Santa Maria do Castelo, acolheu a sexta edição das Jornadas Internacionais do MIAA. Além do habitual programa de intervenções de teóricos, investigadores e interessados nas áreas da Museologia, Arqueologia, História e Antropologia, estas jornadas prestaram homenagem, assinalando-se 55 anos da sua morte, ao “homem extraordinário e que foi muito importante para Abrantes” e fundador do Museu D. Lopo de Almeida, Diogo Armando da Silva Oleiro.

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Manuel Oleiro, um dos netos de Diogo Oleiro que estiveram presentes na iniciativa para prestar um momento de homenagem, avançou com a intervenção “Memórias do nosso Avô, Diogo Oleiro”.

O descendente recordou os tempos de vivência em Abrantes, quando passava férias com os seus irmãos na casa dos avós. Recordou “um homem que ao longo de toda a sua vida manifestou um imenso orgulho pela sua cidade natal”, numa altura em se contam 55 anos após a sua morte.

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Entre as imagens, marcas e memórias que foram deixadas porque “grande parte das nossas férias escolares, férias grandes, eram passadas em casa dos nossos avós aqui, em Abrantes”, ficaram “memórias fortes dos escritórios” do avô Diogo Oleiro.

“Eram autênticas grutas de Ali Babá. Muito cativantes para nós, que éramos miúdos, pequenos na altura, espaços cheios de mesas, secretárias, onde se situavam montanhas de papéis, jornais, revistas, no que parecia ser uma desordem enorme”, mas que afinal, segundo Manuel Oleiro, tratava-se de uma “organização muito, muito pessoal do espaço e dos documentos que o preenchiam”.

O espaço e a distribuição do escritório continua muito presente na memória. “As estantes forravam as paredes com livros, pontuadas por armários altos com portas vidradas que escondiam cerâmicas variadas, leques muito ilustrados, recordações de viagens, dos mais diversos objetos que construíam um mundo de maravilha para nós, todos eles tinham uma história, todos eles tinham qualquer memória que o nosso avô gostava muito de nos contar e de recordar”.

Manuel Oleiro iniciou as VI Jornadas do MIAA com um momento de homenagem, dando voz a “Memórias do nosso Avô, Diogo Oleiro”. Foto: mediotejo.net

Porém, segundo o neto de Oleiro, o acesso “não era completamente livre” para os netos, mas é claro que “havia zonas do escritório onde podíamos mexer e bisbilhotar à vontade, mas havia outros espaços que estavam para lá do nosso acesso e nos quais não tínhamos autorização para mexer”.

Ainda que o acesso fosse condicionado, o espaço sobrava para deixar fluir a imaginação, as brincadeiras,… “As zonas a que tínhamos acesso eram mais que suficientes para satisfazer curiosidades e fornecer material para brincadeiras infindas”, e onde não faltavam também os jogos tradicionais de herança, desde jogos antigos, piões, berlindes, soldadinhos de cartão de uniformes coloridos.

“Os escritórios do avô eram um mundo fabuloso, onde a imaginação de todos nós, crianças, não tinha limites e construía todo o tipo de aventuras”, deslindou Manuel.

As férias também incluíam passeios pela cidade, na companhia do avô, “sempre pontuados de informações variadas e muito detalhadas sobre esta ou aquela casa, sobre o nome antigo desta ou daquela rua, o que é que se passava ou que se tinha passado neste ou naquele lugar”, numa viagem quase “enciclopédica”.

O Senhor Joaquim, o vigilante atento e interessado, também surgiu nesta viagem pelas memórias dos netos de Diogo Oleiro, que recordavam igualmente as visitas ao museu. “O museu tinha duas pessoas, o diretor e o guarda, como aliás era muito caraterístico dos museus nessa altura”.

Mas esta relação próxima com o patriarca Diogo Oleiro foi “interrompida de forma, para nós, muito inesperada”, algo que se deveu ao falecimento do até então diretor do museu, no dia de Natal, em dezembro de 1962.

Autodidata, curioso e interessado “por tudo o que dizia respeito à cidade e à região”, Diogo Oleiro tinha gosto em partilhar o seu conhecimento. Os netos reconheceram-no, e mostraram ter “grande orgulho pela sua curiosidade inteletual”.

“O nosso avô não tinha qualquer licenciatura. Era um autodidata que baseara a sua formação em muitas leituras, em muitas viagens para conhecer o património nacional. Era uma pessoa que estava sempre atenta a tudo o que se passava no país, e queria conhecer e ver e visitava”, enquadrou.

Foi na biblioteca criada, ao longo do tempo, por Diogo Oleiro que os seus netos ganharam o gosto pela leitura, confidenciou Manuel, “era uma fonte de informação e um espelho dos seus principais interesses. Tinha livros de História, de História de Arte, revistas e jornais sobre a região do Médio Tejo, a sua cultura, património, os atos e costumes, o folclore, o desenvolvimento turístico, mas também livros mais diversos de autores portugueses” e ainda “montes e montes de folhetos e catálogos informativos sobre os museus e os monumentos que visitava”.

Mas naquela altura, Diogo Oleiro já tinha uma espécie de centro de documentação especializado sobre a cidade, pois “foi recolhendo informação sobre tudo o que respeitava à cidade e ao concelho nas suas mais variadas vertentes, sobre as ermidas, os conventos, as igrejas, o teatro (…)”.

“O nosso avô tinha de facto um enorme orgulho na sua cidade, e tinha por isso uma vontade inesgotável de a dar a conhecer, de lhe dar visibilidade, de a ver crescer e desenvolver-se”

O Museu D. Lopo de Almeida, que Diogo Oleiro dirigiu até morrer, foi sendo motivo de grande orgulho para o próprio. Os seus netos guardam da sua personalidade e caráter, a “capacidade de valorizar o passado”, “vontade de constante de partilhar o que estudava e sabia sobre o património”, e a humildade de quem “nunca quis ser tratado por doutor”.

Manuel Oleiro e os seus irmãos garantiram que “de certeza absoluta que nunca falhou, ou teve dúvidas, sobre o quanto gostava e se orgulhava de Abrantes, à qual, na verdade, dedicou toda a sua vida”.

Manuel Oleiro com os irmãos, os netos de Diogo Oleiro. Foto: mediotejo.net

Presente na sessão de abertura e no momento de homenagem, Maria do Céu Albuquerque, presidente da CMA, referiu ser “um privilégio para nós podermos estar neste espaço, onde as memórias falam de nós, o Panteão dos Almeida, no fundo o berço da nossa identidade enquanto comunidade abrantina”.

Reconheceu no homenageado o “papel determinante na construção não só deste museu, mas de toda a busca incessante que Diogo Oleiro fez ao longo da sua vida para deixar um património reconhecido e identificado, para que nós pudéssemos/possamos a todo o tempo continuar a crescer, a criar a nossa identidade, e a projetar-nos também enquanto comunidade”.

Durante a sua intervenção recordou mais duas “figuras ímpares da nossa cultura contemporânea”, sendo Maria Lucília Moita, a primeira curadora do museu, e Eduardo Campos, “um discípulo, que criou condições para que hoje possamos ter um património identificado, reconhecido e tão importante”, disse,

“Esta homenagem é devida e felizmente que a estamos a fazer hoje, neste dia tão importante para os museus em Portugal [Dia Internacional dos Museus, 18 de maio]”, referiu a autarca.

Quanto ao mote das VI Jornadas Internacionais, a autarca indicou basear-se na discussão do “papel dos museus nas nossas comunidades, e da necessidade de envolver novos públicos, novos espetadores, mais ativos, melhores cidadãos, em torno do conhecimento das coleções, mas também da salvaguarda e da valorização do património cultural”.

Um momento ainda para refletir “a importância das pessoas, das suas memórias, dos reflexos da sua oralidade como elementos que se distinguem destes espaços que são os paradigmas da museologia do século XXI”, salientou.

Maria do Céu Albuquerque, autarca da CM Abrantes, prestou homenagem lembrando o fundador Diogo Oleiro, diretor do atual Museu D. Lopo de Almeida. Instalado desde 1 de Junho de 1921 no corpo da Igreja de Sta. Maria, no Castelo de Abrantes, na altura ainda Quartel de Artilharia Nº 8, foi o sexto museu a ser criado no país e tinha a abrangente responsabilidade da categoria de Museu Regional. Passou a ser Museu Municipal, em 1994. Foto: mediotejo.net

Maria do Céu Albuquerque aproveitou para fazer um olhar sobre o panorama de oferta cultural na cidade. “O interesse que nós temos em particular por estes projetos assentam nas prioridades e nas orientações estratégicas municipais nomeadamente com as obras que temos em curso, e no investimento associado”, referindo-se à recuperação do Convento de São Domingos, local onde será instalado o Museu Ibérico de Arqueologia e Arte (MIAA).

Sobre o projeto, acrescentou ser uma “obra que demora algum tempo”, reconhecendo que “é uma recuperação determinante, que assenta na estratégia municipal de um conjunto vasto de património cultural, para criarmos uma rede de equipamentos, e com isso possamos também afirmar a nossa identidade e crescermos do ponto de vista da oferta de turismo cultural”.

Outras apostas salientadas pela presidente da CM, em termos de valorização da oferta cultural da cidade e do concelho, foram o recém-inaugurado Museu da Metalúrgica Duarte Ferreira, em Tramagal, o Museu de Arte Contemporânea Charters de Almeida, futuramente instalado no Edifício Carneiro, cuja obra vai iniciar “ainda este ano, vamos lançar a empreitada – contamos nós – num futuro muito, muito próximo”, vai permitir acolher o acervo de Charters de Almeida bem como disponibilizar espaços polivalentes. Também será feita uma passagem por dentro do Castelo, através da Porta da Traição, e a chegada dentro de muros ao Panteão dos Almeida, que a autarquia irá valorizar através de ação de recuperação do Museu D. Lopo de Almeida, havendo financiamento garantido no âmbito da regeneração urbana, explicou Maria do Céu Albuquerque.

Ao longo da manhã seguiram-se intervenções dos oradores convidados, Luiz Osterbeek, Lígia Marques, Vítor Matos, Ricardo Triães e Davide Delfino, culminando a iniciativa com uma visita orientada ao Museu D. Lopo de Almeida, depois de almoço.

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres: o conhecimento e o saber, a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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