Abrantes | Cineteatro São Pedro: um edifício histórico e Ruy Jervis de Athouguia

Cineteatro São Pedro: um edifício histórico em Abrantes da autoria de Ruy Jervis de Athouguia

Encerrado desde o dia 30 de janeiro de 2018, quando a sociedade Iniciativas de Abrantes Lda. decidiu assumir a gestão do imóvel quase duas décadas após cedência à Câmara Municipal de Abrantes, o futuro do Cineteatro São Pedro foi agora conhecido. A autarquia decidiu adquirir o espaço por 470 mil euros, e o município de Abrantes torna-se assim proprietária do histórico imóvel em vésperas da sala de espetáculos completar 70 anos.

PUB

A 19 de fevereiro de 1949 foi inaugurado o Cineteatro São Pedro da autoria do arquiteto Ruy Jervis de Athouguia – a construção do edifício é da responsabilidade do engenheiro Manuel Travassos Valdez -, com a representação da peça ‘Outono em Flor’ de Júlio Dantas, pela companhia Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro, do Teatro Nacional D. Maria II. As sessões de cinema iniciavam-se no dia 22 daquele ano com a projeção do filme ‘A Dama de Arminho’.

“No decurso do Estado Novo, apesar das restrições das liberdades impostas por um regime de cariz autoritário, surgiram em Abrantes várias infraestruturas que a transformaram numa localidade mais moderna e desenvolvida. Manuel Luís Fernandes, médico que se estabeleceu na cidade ainda na década de vinte, onde se aproximou inclusivamente em termos familiares, da família Moura Neves, foi um dos principais agentes desta renovação.

PUB

O Dr. Manuel Fernandes, a 3 de maio de 1937, inaugurou a Casa de Saúde de Abrantes, onde passou a exercer a sua atividade profissional. O entusiasmo pela sua terra de adoção, levou-o a conjugar esforços e conjuntamente com um grupo de abrantinos ilustres, designado Iniciativas de Abrantes, criado em 1943, efetivou diversas obras de vulto.

A 13 de outubro nasceu o Colégio de Nossa Senhora de Fátima, para educação feminina, a 19 de fevereiro de 1949 foi inaugurado o Cineteatro São Pedro, considerado na altura a melhor sala de espetáculos da região. Já em 1954, abriu as suas portas o Hotel Turismo de Abrantes”, lê-se no livro ‘História Breve de Abrantes’, numa edição do Município escrita por vários autores.

PUB

Na noite de inauguração, faziam parte da companhia de Amélia Rey Colaço atrizes como Palmira Bastos, Maria Matos, Luz Veloso, Maria Corte Real e os atores Raul de Carvalho, Samwel Diniz e Paiva Raposo, com a peça em três atos do escritor abrantino Francisco Mata ‘A vida é um jogo’, noticiou o Jornal de Abrantes. No entanto, a ‘Cronologia de Abrantes do Século XX’ refere a peça ‘Outono em Flor’ de Júlio Dantas. A seguir realizou-se um baile no salão do teatro, onde tiveram ingresso todos os espectadores com traje de soirée.

Após alguns anos encerrado o Cineteatro contou, no virar do século, com obras de recuperação. Reabriu ao público em junho de 2001, com uma sala de 561 lugares.

“A linguagem arquitetónica utilizada situava-se entre a referência a um primeiro modernismo e um racionalismo italiano de linhas mais pesadas e puristas. Mostra delicadeza numa projeção para o exterior através de palas de betão armado e volumes que diferenciam funções. O projeto e obra de recuperação foram cofinanciados pelo Programa Operacional da Cultura” dá conta o livro ‘Lisboa e Vale do Tejo – Reabilitação do Património e Arte em Rede’.

Contando muitas outras obras notáveis, o arquiteto Ruy Jervis de Athouguia, juntamente com Alberto Pessoa, Pedro Cid, Gonçalo Ribeiro Telles e António Viana Barreto, ganhou o Prémio Valmor 1975, pelo conjunto arquitetónico: Sede, Jardins e Museu Calouste Gulbenkian.

Arquiteto Ruy Jervis de Athouguia. Foto: DR

Há nomes que deixam uma marca mas que se mantêm na sombra durante muito tempo, por motivos uns mais, outros menos explicáveis. Ruy d’Athouguia é um desses nomes, autor de uma obra arquitetónica superior, que, entre 1947 e 1967, esteve envolvido no desenho e na construção de alguns dos edifícios mais significativos em Portugal. Com a sua morte, em 2006, deixou um legado de grande coerência, modernista, e ao mesmo tempo profundamente ligado ao local, capaz ainda de abrir caminhos para a novíssima arquitetura portuguesa.

No seu trabalho na capital sobressaem o “Bairro das Estacas”, projectado em parceria com Formosinho Sanchez e Maurício de Vasconcelos, as Escolas Primárias do Bairro de São Miguel e Teixeira de Pascoaes, e a Escola Secundária (antigo Liceu) Padre António Vieira, bem como parte dos edifícios circundantes da praça de Alvalade.

Em Cascais realizou inúmeros projectos de habitação durante a década de 50, bem com a Torre do Infante, ou o belíssimo “Bairro das Caixas”, na Parede. E em Abrantes projectou o Cine-Teatro São Pedro de Abrantes (1949). A memória descritiva da Torre do Infante é reveladora do tipo de arquitetura que perseguia: “A Arquitectura é simples e directa de expressão; os materiais são empregues sem artifícios. As estruturas de betão armado, fortemente marcadas, não serão revestidas nos seus elementos essenciais. As caixilharias serão metálicas, contrastando na sua leveza com a robustez do conjunto”.

Na história do cineteatro São Pedro em Abrantes há agora uma nova página a escrever, com a passagem de propriedade, 70 anos depois da sua inauguração, para o município de Abrantes. Mantendo e preservando a memória de Ruy d’Athouguia.

c/Paula Mourato

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).

pub

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here