Abrantes | Cidades próximas, Centenário e Ensino marcam Jornadas de História Local

foto: mediotejo.net

A Biblioteca António Botto acolheu esta sexta-feira as XIV Jornadas de História Local, evento organizado pelo Centro de Estudos de História Local de Abrantes, da Associação Palha de Abrantes. Este ano o mote foi ‘Abrantes: 100 anos de Cidade’ e contou com painéis que abordaram diversas áreas assentes numa narrativa simples por parte dos oradores, que contextualizaram as suas intervenções com a evolução dos tempos. Os temas foram ‘Cidades Próximas’ e o ‘Ensino’, em duas abordagens sobre a evolução social, económica e a influência política no crescimento de Abrantes enquanto cidade e enquanto importante pólo de educação.

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Fernando Sanchez Salvador, do Instituto Politécnico de Tomar, abordou o tema “Cidades Próximas”, fazendo um olhar sobre as cidades de Tomar, Abrantes e Entroncamento, enquanto cidades médias – pequenas escalas.

Segundo o investigador “não há duas cidades iguais”, e como tal Abrantes teve a sua evolução em termos territoriais de uma forma muito própria, sendo também isso um dado da sua identidade.

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Fernando Salvador fez um olhar sobre fotografias antigas que são documentos importantes para um estudo e observação cuidada em termos da evolução de Abrantes enquanto cidade com um centro histórico e com património cultural e edificado.

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Fernando Sánchez Salvador, do IPT, durante a apresentação sobre Cidades Próximas. Foto: mediotejo.net

O orador citou Fernando Távora, “Os centros históricos têm dois problemas. O primeiro é estarem no centro. O segundo é serem históricos”, mostrando concordar com a expressão, ao passo que referiu a importância de estratégias de Regeneração Urbana e reabilitação arquitetónica.

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Fernando Salvador reforçou os fatores determinantes que condicionam a vida nos centros históricos, entre eles a economia de escala, a diversidade de usos, as estratégias de ‘RE’ Conversão, a mobilidade e horários de funcionamento, fazendo notar os “contributos que deviam ser dados” em termos de incentivos e benefícios fiscais, trabalho e no âmbito da cidadania e educação.

Terminando a apresentação, o investigador terminou com a frase “A herança nunca é um dado, é uma tarefa”.

O Ensino no antes e no pós-25 de abril

O segundo painel das jornadas pretendeu fazer um olhar para a área do Ensino em Portugal e em Abrantes, no antes e no pós-25 de abril. Mário Pissarra, Branca Fernandes e Teresa Aparício foram os oradores deste momento, essencialmente, de partilha de memórias. Mário Pissarra começou por apresentar um confronto entre os dados do panorama português “acerca da Educação em Portugal (…) dos últimos 40 anos, que são os anos que levo em Abrantes”. Os dados apresentados variam entre a década de 1970 e o ano 2014.

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Foto: mediotejo.net

Segundo o filósofo, em 1970, havia em Portugal, 26% de analfabetos, dos quais 20% eram homens, 31% mulheres. Em 2014 há 5% de analfabetos, 3,5 % são homens e 7% são mulheres. Na pré-primária em Portugal, entre os 3 e os 5 anos, havia – em 1970 – 41 mil crianças, o que representava 8% do universo das crianças. Neste momento, há 273 mil crianças na pré-primária, e representam 89% das crianças.

Quanto ao primeiro ciclo, com abertura em 1970, era de 85% da população. Hoje, é de 100%. Ao nível do ensino secundário, em 1970, 5% da população frequentava o ensino secundário. Hoje, 72% dos jovens frequentam o secundário. No ensino superior, em 1970, representavam 0,9% da população. 1,4% eram homens, 0,5 % eram mulheres, hoje 14,8% da população portuguesa tem o ensino superior. 12,4 são homens, 16,9 são mulheres.

Panorama de Portugal, apresentado pelo professor, “e é neste quadro que devemos enquadrar o que se passou no nosso país. A legislação liberal sobre o ensino em Portugal foi sempre muito benevolente. Toda a gente com direito à educação. Só que, efetivamente, só se tinha direito à educação. A educação não existia, inclusivamente neste curto espaço de tempo, dos 100 anos em Abrantes”, disse.

O professor de Filosofia salientou que “Abrantes deve muito aos colégios”, colégios internos que recebiam alunos de outras regiões do país. Abrantes foi considerado como “pólo de atração para o ensino”, porém começa a perder força com a expansão do ensino regular, com a reforma de Veiga Simão.

Iniciam as escolas preparatórias, retirou alunos da cidade, e deu-se a expansão do ensino secundário, caso do Liceu/atual Escola Dr. Manuel Fernandes e  da Escola Industrial/Escola Secundário Dr. Solano de Abreu.

Teresa Aparício e Branca Fernandes, professoras, contaram um pouco da sua experiência profissional e pessoal no antes e nos pós-25 de abril. Branca Fernandes lembra o dia em que ficara com 63 alunos para cuidar. Teresa Aparício lembra de quando os contínuos das escolas mediam o comprimento das saias das meninas, dos alunos que chegavam com poucas condições de higiene e com piolhos, e daqueles que comiam as sopas de cavalo cansado, cujo vinho os deixava atordoados em sala de aula.

Branca Fernandes, que terminara com 45 anos de serviço, nascida na Abrançalha e com morada na Chainça, relembra os tempos em que se ia a pé para a escola, sem iluminação pública, sem estrada alcatroada, e sem demais condições. Chegou a ter uma turma de 63 alunos por sua conta.

As professoras primárias lembraram a pedra/ardósia e a passagem para os quadros a giz, e a tortura que era o ditado em que só se podia dar 5 erros, no exame da primeira classe.

Branca Fernandes, Mário Pissarra e Teresa Aparício no painel sobre o Ensino em Abrantes e em Portugal, no antes e no pós-25 de abril. Foto: mediotejo.net

As Jornadas de História Local, a revista Zahara e o CEHLA

José Martinho Gaspar, membro da organização das Jornadas, professor e historiador, referiu durante a abertura dos trabalhos que “este é um projeto e um trabalho que tem sido desenvolvido pelo CEHLA, que existe desde 2003, e cuja ação se tem traduzido sobretudo na realização destas jornadas, anualmente, por esta altura de novembro/dezembro”. O Centro de Estudos é também responsável pela publicação de História Local, a revista Zahara.

15301337_1278700655525582_816140806_nSegundo o historiador, “este grupo [CEHLA] resultou do encontro de várias pessoas com interesse pela história e pela cultural local, e há cerca de 14 anos reuniram esta equipa que tem trabalhado na medida das possibilidades, no sentido de promover e conhecer melhor o passado de Abrantes e da região. Temos tido várias edições das jornadas (…) habitualmente são mais abrangentes, porque este é também um grupo que olha para um território abrangente, ou seja, não nos ficamos apenas pelo território do concelho de Abrantes, mas integramos também no nosso trabalho os concelhos de Constância, Gavião, Mação, Sardoal, Vila de Rei e Vila Nova da Barquinha”, explicou.

A equipa responsável por estes dois produtos pertence ao CEHLA. “Temos contado ao longo do tempo com muita gente que tem, quer a título individual, quer integrado em instituições várias, quer apresentando trabalhos académicos, nos tem dado conta de alguns caminhos que têm sido feitos no âmbito da História local e também daqui têm partido outros caminhos que têm levado a outros trabalhos e isso está a acontecer todos os dias”.

“Resgatar a memória desta região”, através de artigos e trabalhos de múltipla dimensão, “numa perspetiva de bastante seriedade e de garantia de continuidade do nosso trabalho. Tem sido um dos objetivos, isto é, muitas vezes aparecem alguns projetos que são pontuais, nós temos tido esta vontade de dar sempre continuidade e queremos continuar a fazê-lo. Desta vez, acabámos por optar por umas jornadas com caraterísticas um pouco diferentes daquilo que tem sido habitual (…) este ano, porque são os 100 anos da cidade de Abrantes, entendemos que algumas das nossas atividades deveriam direcionar-se para o centenário”, referiu José Martinho Gaspar.

O nº 27 da revista Zahara também evocou o centenário de Abrantes. “Já tínhamos tido, em julho, a apresentação da nossa revista, que já nessa altura foi direcionada sobretudo para o território de Abrantes, com várias abordagens destes 100 anos da cidade. Desta vez, também as jornadas acabaram por ter uma opção que foi no sentido de abordar a questão dos 100 anos da cidade. E por isso, o programa acabou por ir exatamente nesse sentido”, concluiu.

A 14ª edição das Jornadas, na sala polivalente da Biblioteca Municipal António Botto, Abrantes, terminou precisamente com a apresentação do nº 28 da publicação sobre História Local, depois dos painéis que refletiram sobre a Ação social e o Desporto na parte da tarde.

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Foto: mediotejo.net

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