Abrantes | Centro de Respostas Integradas do Ribatejo atendeu 1800 utentes com problemas de adição em 2018

20 anos da Equipa de Tratamento de Abrantes, do CRI do Ribatejo. Créditos: mediotejo.net

No ano de 2018, o Centro de Respostas Integradas do Ribatejo (CRI) atendeu 1800 utentes, sendo cerca de 600 aqueles que recorreram à Equipa de Tratamento de Abrantes, que assinala 20 anos de existência. Nesse âmbito, o CRI realizou na quinta-feira, 7 de novembro, o Encontro “Entre Margens 2nd Season – Adições…e outras cenas” nas instalações do Regimento de Apoio Militar de Emergência (RAME) de Abrantes. Entre outras personalidades, a sessão contou com Renato Bento, diretor do Centro Distrital da Segurança Social de Santarém, e com Isabel Baptista, coordenadora Técnica CRI do Ribatejo, que falou ao mediotejo.net sobre a problemática da adição.

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Numa zona do distrito de Santarém onde encontros como o que decorreu em Abrantes “não são muito frequentes”, a coordenadora Técnica do Centro de Respostas Integradas do Ribatejo (CRI), Isabel Baptista, fez um balanço “positivo” do colóquio “Entre Margens 2nd Season – Adições…e outras cenas” que assinalou os 20 anos de existência da Equipa de Tratamento de Abrantes.

Nos territórios de abrangência “embora estejam a aparecer muitos casos de doentes com problemas ligadas ao álcool, são zonas agrícolas onde há muita cultura, ainda, do consumo de álcool como ato aceitável e sociável, mas mantemos em consulta um maior número de casos de toxicodependentes. São muitos novos casos de alcoólicos e de toxicodependentes alguns já estão connosco há uns anos, já tinham reorganizado a sua vida e que em determinado momento tiveram um recaída e voltaram. Esses continuam a ser maior peso no nosso serviço. Estão mais doentes, mais envelhecidos, muito mais dependentes de apoios sociais e portanto exigem muito mais das equipas”, deu conta Isabel Baptista.

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Relativamente aos comportamentos aditivos sem substâncias, nomeadamente do jogo, “talvez pela ruralidade, não é muito evidente mas já vão aparecendo alguns casos. Aqui não há casinos que normalmente levam as pessoas ao consumo do jogo e portanto é uma realidade para a qual estamos preparados. Nem sempre as pessoas percebem que estão a precisar de ajuda, em termos da dependência das novas tecnologias, etc, e vamos ficando à espera. Para já é uma realidade um pouco silenciosa as pessoas ainda não recorrem muito à nossa ajuda”, constata.

No caso dos comportamentos aditivos e dependências de álcool também não é a população “mais jovem” que procura o CRI.

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“Nos espaços recreativos onde os jovens se juntam e onde sabemos existir um grande abuso de álcool, é um abuso de fim de semana. Contudo, uma situação de risco porque pode passar para situação de abuso mais continuado. Esses não nos procuram enquanto não interferir com o seu dia a dia, com o seu rendimento escolar, não é sentido como problema. No álcool, muitos dos nossos doentes são de meia idade e já idosos, é evidente que os seus consumos começaram na fase em que estão agora os nossos jovens. É uma doença mais lenta e mais silenciosa. Enquanto na toxicodependência rapidamente a pessoa se desorganiza a precisa de ajuda, o alcoólico consegue ir mantendo o seu dia a dia, com o problema muito escondido, vai mantendo o seu trabalho, a sua família e muitas vezes é um problema de vergonha da própria família”, explicou a responsável.

Com sede e instalações na Rua da Barca, em Abrantes, a Equipa de Tratamento de Abrantes é constituída por três psicólogos, três enfermeiros, dois assistentes sociais, uma médica, uma assistente técnica e dois assistentes operacionais, num serviço que é público, confidencial e também prestado em regime de ambulatório ao nível da intervenção em comportamentos aditivos e dependências de drogas legais (álcool e tabaco), ilegais (heroína e cocaína, por exemplo), e sem substância (como sejam as dependências ao nível do jogo, da internet, compras, e outras).

20 anos da Equipa de Tratamento de Abrantes, do CRI do Ribatejo. Isabel Baptista ao centro. Créditos: mediotejo.net

O CRI tem como áreas de missão o Tratamento – que se operacionaliza através das duas Equipas de Tratamento no distrito, Abrantes e Santarém -, a Prevenção, a Reinserção e a Redução de Riscos e Minimização de Danos.

A Equipa de Tratamento de Abrantes, liderada por Susana Mafra, é a estrutura que assegura o acompanhamento nos municípios de Alcanena, Abrantes, Constância, Torres Novas, Tomar, Ourém, Ferreira do Zêzere, Sardoal, Mação, Entroncamento, Vila Nova da Barquinha, todos no Médio Tejo.

O CRI atendeu cerca de 1800 casos em 2018. Em Abrantes “é sempre mais reduzido pela dimensão, penso que pela acessibilidade à própria estrutura. É uma zona mais dispersa e as pessoas têm mais dificuldades em se deslocar, há pessoas que vêm de Ourém ou de Fátima e isso pode dificultar a resposta. A equipa é também mais pequena tem menos capacidade de resposta”, considera.

No ano passado, chegam à Equipa de Tratamento de Santarém cerca de 1200 utentes e em Abrantes cerca de 600 utentes. “Desde o principio tem sido sempre assim”, refere. A proporção entre os toxicodependentes e os alcoólicos é idêntica nos dois serviços. Por norma “o número de alcoólicos é um terço do numero dos toxicodependentes que são acompanhados, portanto pensamos que há muito para fazer pelos alcoólicos”.

Nestes casos os doentes, devido aos vários problemas de saúde associados, são referenciados pelos médicos de família.

Falando das novas substâncias, nomeadamente de drogas sintéticas, Isabel Batista garante que os profissionais do CRI “estão muito atentos. O Observatório Europeu vai fornecendo informação sobre novas drogas, o que está a circular etc. Na nossa zona o que nos preocupa é a cannabis, uma substância muito banalizada. Os jovens consideram que é uma substância que faz tanto mal como um cigarro, que é uma situação social em grupo e que não traz problemas. O que nos preocupa! Porque sabemos que a cannabis traz vários problemas em termos de aproveitamento escolar, de atenção, concentração, memória, do processo cognitivo. Tudo isso é afetado com um consumo continuado de cannabis, para além dos surtos psicóticos que podem surgir. São situações de risco” que os jovens não assumem”.

Sob a dependência do Ministério da Saúde, esta equipa trabalha na área das Dependências de Substâncias Psicoativas Lícitas e Ilícitas, através da Divisão de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e Dependências, tendo como missão promover a redução do consumo de substâncias psicoativas, a prevenção dos comportamentos aditivos e a diminuição das dependências, na área de abrangência da ARSLVT, IP.

As Unidades de Intervenção Local (UIL) são unidades funcionais prestadoras de cuidados de saúde em matéria de intervenção dos comportamentos aditivos e das dependências, responsáveis, dentro do seu âmbito territorial, e de forma articulada, pelas áreas de intervenção da prevenção, da redução de riscos e minimização de danos, do tratamento, e da reinserção de utentes com comportamentos aditivos e dependências de substâncias psicoativas lícitas ou ilícitas, de acordo com as orientações da DICAD.

As UIL revestem a natureza de Centros de Respostas Integradas, Unidades de Alcoologia, Unidades de Desabituação ou Comunidades Terapêuticas.

Presente na sessão, Renato Bento, diretor do Centro Distrital da Segurança Social de Santarém, deu conta, durante a sua intervenção, de uma priorização no próximo quadro comunitário de projetos na rede de cuidados continuados sobretudo na área da saúde mental. Isabel Baptista notou a urgência na contratação de profissionais dessa área para trabalharem no distrito de Santarém.

“Há falta de especialistas nessa área. Quer no Hospital de Santarém, quem tem serviço de psiquiatria, quer no Hospital de Tomar, que também tem serviço de psiquiatria, há grandes dificuldades em manter uma equipa estável e que dê resposta. Atualmente as grandes dificuldades surgem ao nível da pedopsiquiatria e sabemos que vai até aos 17 anos e muitas vezes os problemas surgem nessa fase”, observa.

Focando as carências na saúde mental nota a falta de respostas ao nível de “estruturas de apoio a estes doentes, que para terem equilíbrio não precisam de internamento hospitalar, mas também não têm condições em casa porque a família não sabe lidar com estas situações. É necessário uma estrutura que dê resposta a estes casos. Já em 2014 foi identificada essa necessidade”, vinca.

20 anos da Equipa de Tratamento de Abrantes, do CRI do Ribatejo. Renato Bento. Créditos: mediotejo.net

Renato Bento considerou a área da Segurança Social e da Saúde “duas áreas de intervenção combativa e política que andam sempre de mãos dadas” e reconheceu que a sociedade se depara com novos problemas “todos os dias surgem novas substancias sintéticas” e “o uso excessivo do álcool” com várias implicações também ao nível da sinistralidade rodoviária.

Da parte da Segurança Social enumerou uma “multiplicidade de medidas direcionadas para estas problemáticas e fragilidades” e referiu a rede nacional de cuidados continuados integrados na área da saúde mental reconhecendo que “necessita de um reforço da sua capacidade de resposta”.

Renato Bento lembrou que os problemas de adição “estão muito associados à área da saúde mental”. Deu conta que o distrito de Santarém tem um acordo de cooperação que transitará para a rede nacional de cuidados continuados na área da saúde mental, numa resposta que se designará comunidade sociocupacional.

“Precisamos também que o Ministério da Saúde tenha disponibilidade financeira para fazer esse caminho de cooperação com as instituições”, notou.

Seguindo a mesma linha de pensamento, também Francisco Fonseca, coordenador do DICAD considerou “importantíssima para todo o País” a rede nacional de cuidados continuados integrados.

As consultas para o CRI são gratuitas, com marcação prévia, pessoal ou telefonicamente, pelo próprio ou por via institucional.

Durante a sessão foi ainda possível apreciar os trabalhos, em exposição, realizados por utentes do Hospital de Dia do Centro de Psiquiatria do Centro Hospital do Médio Tejo.

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