Abrantes | Banda Filarmónica de Mouriscas, 25 anos a tocar melodias que nem a covid-19 silencia

Banda Filarmónica Mourisquense. Créditos: BFM

A Banda Filarmónica Mourisquense é, por certo, a banda mais jovem do concelho de Abrantes. Não por celebrar 25 anos no próximo domingo 3 de maio, mas porque é composta por 30 músicos com idades compreendidas entre os 9 e os 22 anos. Este aniversário, completando um quarto de século, devido à pandemia de covid-19, será assinalado de forma diferente. No domingo, dia 3 de maio, recorrendo às plataformas digitais, os músicos tocam o hino das Mouriscas, numa sessão conjunta à distância. Momento musical, em vídeo, que será replicado nas redes sociais da Banda Filarmónica.

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Esta não é a história de uma Banda clássica, muito antiga, apesar de recuar até ao século passado. Falamos de uma Filarmónica a tocar ao longo de mais de duas décadas, mantendo o objetivo inicial embora o decréscimo populacional em Mouriscas e a disponibilidade para a música das gentes mais velhas tenha alterado o volume… não do som, mas do grupo.

Vivia-se o ano de 1995 quando alguns mourisquenses, juntando esforços e vontades, fundaram aquela que é hoje a Banda Filarmónica Mourisquense. A intenção passava pela satisfação musical, de quem toca e de quem escuta, o desempenho e até a formação. Criaram uma escola de música que ainda hoje permanece aberta a todos, embora há seis anos a estratégia tenha mudado recrutando a juventude. Passados 25 anos, a celebrar no domingo, a Banda continua com espírito persistente, dirigida pelo maestro Francisco Lamarosa.

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E foi a pensar no dia de aniversário que a Associação contactou outra banda portuguesa para as celebrações. Inicialmente estava pensado “realizar um concerto de duas bandas e uma arruada em Mouriscas” marcando estes 25 anos. Na oportunidade “os músicos jovens teriam várias atuações a solo, porque têm estudado para dar a conhecer ao público as suas capacidades”, evento cancelado devido à crise epidemiológica conta ao mediotejo.net o presidente, José Rocha, na frente da coletividade desde 2014.

A Banda Filarmónica Mourisquense nasceu com a criação de uma Associação em 3 de maio de 1995. Antes da atual denominação chamou-se: Escola e Banda de Música da Casa do Povo de Mouriscas, que abriu com cerca de trinta aprendizes, sob a orientação e regência do maestro Francelino Lopes Pereira de Sardoal, em 1981. No final desse ano a Escola já contava com cerca de cinquenta alunos, com idades compreendidas entre os oito e os sessenta.

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A Banda da Escola teve então a sua primeira atuação com 25 músicos, no dia 23 de janeiro de 1983, na festa de São Sebastião, padroeiro da freguesia de Mouriscas. No início do ano de 1995 e por alteração do quadro legal das casas do povo, houve necessidade de criar e organizar uma nova associação de apoio à Banda a qual nasceu por escritura, feita no Cartório Notarial de Sardoal em 3 de maio de 1995.

Banda Filarmónica Mourisquense. Créditos: mediotejo.net

Há seis anos “entendemos constituir uma banda só de jovens músicos porque, na verdade, não tínhamos outros. Os mais antigos desistiram” conta o presidente. O risco do silêncio levou à decisão de procurar “jovens e aliciá-los para a música. Temos vindo a conseguir um aumento gradual no número de músicos e a sua consistência. Alguns já têm uma qualidade muito boa” considera.

Os elementos são “todos do concelho de Abrantes embora alguns músicos estejam a estudar no ensino secundário em Mação ou em Sardoal e outros na universidade, quase todos na Covilhã” acrescenta fazendo notar que Mouriscas, à semelhança de outras terras do interior do País, “tem vindo a perder jovens”.

Tal constrangimento demográfico causa na Banda um número menor de elementos de Mouriscas do que contabilizou no passado. “Temos procurado jovens na cidade de Abrantes e arredores, como Chaínça. Já no ano passado tinha pedido à Escola Dr. Manuel Fernandes para realizarmos lá uma atuação, ficou para este ano mas não se concretizou porque como a Câmara não tem a sala do cineteatro S. Pedro, ocupou muitas vezes o auditório da Escola” e depois chegou a pandemia. A possibilidade de um concerto naquela Escola de Abrantes “continua em aberto” com o objetivo de “chamar mais miúdos para a música” revela.

Até agora a adesão dos músicos faz-se através do “passa palavra”. Os jovens encorajam outros para engrossarem a Banda de Mouriscas. Por ano chegam à Filarmónica uma média de “6 novos músicos. Alguns ficam outros desistem, e o número têm-se mantido à volta de 30”. Certo é que “a estrutura também não dá para muito mais. Não podemos querer uma Banda como as do Norte do País com 60 ou 70 elementos. Não temos capacidade para isso” confessa o presidente.

Muito por causa da aquisição de instrumentos. “Grande parte dos miúdos tem o seu próprio instrumento”. Uma “ajuda” para a Banda sem capacidade de disponibilizar instrumentos para todos. “Temos vindo a adquirir, ano após ano. Ultimamente engrandecemos instrumentos como a bateria, lira e outros para que os miúdos aprendam novos instrumentos e a Banda seja mais completa, com maior oferta” diz.

A Associação conta com 150 sócios e a Banda da responsabilidade técnica do maestro Francisco Lamarosa, que desempenha também o papel de professor na escola de música. No contexto da pandemia de covid-19, e sem ensaios presenciais, o maestro “envia pautas” para os músicos não perderem o treino. Por seu lado, “os músicos fazem vídeos para que possa ouvir, criticar e melhorar” conta explicando como têm decorrido as aulas neste último mês e meio, reinventando os métodos devido ao afastamento social.

O ritual musical tem lugar nas manhãs de sábado, quando o maestro “junta os músicos por naipes para treinarem as interpretações a solo. Como quase todos os alunos tinham acesso, na escola, à plataforma Zoom, o maestro também acedeu e têm aulas individuais” explica.

Sem descurar a necessária inovação, variedade e novos ritmos. Francisco Lamarosa disponibiliza, por isso, aos alunos “muitas partituras para que não se cansem de tocar e aprender sempre a mesma música. Sabemos que na escola têm uma partitura por período. Na Banda quase semanalmente há uma nova para aprender. Não é consolidada mas vai-se fazendo um bocadinho todas as semanas para consolidar e temos conseguido fortalecer a Banda porque o maestro é dedicado” afirma José Rocha.

I Festival do Azeite e do Figo, Mouriscas. Banda Filarmónica Mourisquense

Os jovens músicos que integram a Banda “gostam, continuam e trabalham em casa” embora também existam aqueles que experimentam mas “saltam” para outra qualquer atividade como os escuteiros ou o futebol. As duas atividades concorrentes no que diz respeito à angariação de novos elementos, apesar do ensino da música ser gratuito.

“Temos alguns instrumentos de sopro, metal ou madeiras para iniciarem e depois se tiverem gosto mais tarde adquirem o seu próprio instrumento” relata. A Associação só pede aos pais que sejam sócios, pagando uma quota de 12 euros por ano.

Devido à pandemia, a Banda Filarmónica Mourisquense cancelou e viu cancelados muitos concertos agendados para este ano, designadamente no verão. “Tínhamos para julho e agosto e não confirmámos porque não é uma situação que passe nestes dois meses. Se calhar este ano não será possível fazer atuações…. enquanto não existir uma vacina” lamenta.

Entre os eventos cancelados encontra-se a segunda edição do Festival Mourisco, para mais três dias de viagem à época medieval, nos séculos X e XI, em tempos de reconquista cristã, em Mouriscas.

Este ano o Festival “teria lugar no Largo das Ferrarias. Começamos a delinear e fizemos um plano, candidatamos o evento ao FinAbrantes e foi cancelado na semana passada. Será para o ano, vamos ver se conseguimos fazer como iniciação” diz recordando tratar-se de uma proposta vencedora do Orçamento Participativo de Abrantes no ano de 2016, com realização em maio de 2017. O proponente foi Amadeu Bento, um mourisquense que regressou recentemente à Banda.

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