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Quarta-feira, Setembro 22, 2021

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Abrantes | Autarcas relatam em tribunal momentos de pânico e ameaças reiteradas de Ferreira Dias

Teve início esta segunda-feira, 28 de junho, no Tribunal de Santarém, o julgamento do empresário abrantino Jorge Ferreira Dias, devido ao incidente ocorrido a 22 de dezembro na Câmara de Abrantes, quando este interrompeu a reunião camarária e alegadamente agrediu uma funcionária, vereadores e o próprio presidente da Câmara. Nesta primeira sessão de audição de testemunhas, os autarcas presentes relataram momentos de medo e até de algum pânico com as ações do empresário, tendo em conta o historial de ameaças à integridade física aos eleitos. Ferreira Dias permaneceu em silêncio, comentando apenas que gostaria de falar no final do julgamento.

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Jorge Ferreira Dias à saída da primeira sessão de julgamento, em Santarém, a 28 de junho de 2021. Foto: mediotjeo.net

“Foi uma situação de pânico e apreensão nossa”, admitiu hoje o presidente da Câmara de Abrantes. “Nós andávamos muito receosos”, recordou, nomeadamente com as ameaças de morte numa assembleia municipal anterior. “Chegou a ameaçar com bombas, com um bidão de gasolina”, lembrou Manuel Jorge Valamatos.

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Estavam imputados a Ferreira Dias mais de 30 crimes decorridos do episódio na reunião de Câmara de Abrantes em dezembro, mas o Ministério Público reduziu a cinco a acusação no julgamento que hoje principiou. Ferreira Dias responde por um crime de coação contra órgão constitucional, um de ameaça agravada, e três de ofensa à integridade física qualificada, pelas agressões ao presidente da Câmara, Manuel Jorge Valamatos, ao vice-presidente João Gomes, e a Manuela Santos, a funcionária que controlava o acesso ao interior do Edifício Pirâmide, onde decorria a reunião, vedada ao público.

Executivo municipal manteve a coerência sobre os momentos que marcaram o incidente de 22 de dezembro Foto: mediotejo.net

Ferreira Dias mantém há muitos anos um litígio com a Câmara Municipal de Abrantes, a quem acusa de responsabilidades na falências das suas empresas. A 22 de dezembro interrompeu a reunião camarária e ameaçou verbal e fisicamente os autarcas presentes, nomeadamente com um gravato (vara com um gancho na extremidade) que trazia consigo.

A primeira pessoa a testemunhar foi Manuela Santos, a administrativa de 57 anos que primeiro se apercebeu da chegada de Ferreira Dias e foi ao seu encontro, para o avisar que a sessão não era aberta ao público. Segundo narrou ao coletivo de juízes, Ferreira Dias foi-a afastando do seu caminho até conseguir chegar à sala de sessões, momento em que, ao fechar a porta, lhe entalou parcialmente a mão.

Quando abriu a porta já encontrou o empresário a ameaçar os autarcas, ocasião em que este se dirigiu novamente a ela, a empurrou para fora da sala, e tornou a fechar a porta. Manuela Santos afirma que se desequilibrou, mas não chegou a cair. Ao tornar a abrir a sala já encontrou a confusão instalada, com os vereadores a tentarem tirar o gravato a Ferreira Dias.

A funcionária referiu que ficou muito nervosa, pelo que já não se recorda bem dos restantes acontecimentos. Lembrava-se apenas de ver o presidente da Câmara a sangrar do lábio.

Manuela Santos manifestou conhecer o litígio que envolve Ferreira Dias à Câmara de Abrantes, assim como as ameaças de morte em sessões públicas anteriores. “Foi tudo muito rápido”, comentou, relembrando o seu nervosismo e que não viu o empresário a agredir ninguém, sendo que a ação se focou em torno do gravato, acabando este por ser retirado a Ferreira Dias.

A administrativa acabou por ir duas vezes ao hospital e realizou um Raio-X, tendo o incidente com a porta causado o agravamento de uma tendinite existente.

Seguiu-se a intervenção de Manuel Jorge Valamatos, que narrou o episódio ocorrido dentro da sala. “Ficámos preocupados”, admitiu o presidente da Câmara, lembrando que houvera ameaças anteriores ao executivo e que a interrupção da sessão camarária surpreendeu toda a gente. Posteriormente contaria que chegou a ir ao Tribunal de Abrantes falar com a procuradora do Ministério Público sobre as ameaças repetidas do empresário, mas que esta desvalorizara a situação e ele nunca avançou com queixa.

Manuel Jorge Valamatos admitiu que não se apercebeu do momento em que ficou ferido no lábio. No momento em que Ferreira Dias fechou a porta da sala, uma funcionária da comunicação começou aos gritos e na medida em que este avançou apontando o graveto na sua direção, procurou defender-se.

Ao agarrar no graveto, um dos elementos da vereação e um técnico municipal vieram em seu auxílio, agarrando também no pau e retirando-o das mãos de Ferreira Dias. Ao ver-se sem o graveto, o empresário pegou numa cadeira e atirou-a ao vereador.

“Foi uma situação de pânico e apreensão nossa”, admitiu. “Nós andávamos muito receosos”, recordou, nomeadamente com as ameaças de morte numa assembleia municipal anterior. “Chegou a ameaçar com bombas, com um bidão de gasolina”, enumerou.

Questionado sobre o porquê do ressentimento com o município, o presidente afirmou: “Sei que houve um senhor juiz que tomou uma decisão e que o senhor Jorge não a aceita.” 

Manuel Jorge Valamatos disse que procurou manter a calma, não obstante Ferreira Dias tenha batido com “violência extrema” nas mesas, o que terá causado a queda dum computador. Sobre a ferida no lábio, o presidente admitiu que, tendo em conta toda a situação, não consegue garantir que tenha sido a ação de Ferreira Dias a causar o ferimento.

Manifestando-se tranquilo com o processo, Ferreira Dias permanece em prisão domiciliária Foto: mediotejo.net

Reconhecendo-se marcado pelo episódio, o presidente terminou o seu depoimento a referir que não deu qualquer ordem para interromper a transmissão online da sessão.

A terceira testemunha chamada foi o vereador João Gomes, que acorreu a agarrar o graveto quando Ferreira Dias e o presidente já mediam forças. O autarca repetiu o mesmo cenário descrito por Valamatos, descrevendo como o empresário bateu nas mesas com o graveto e ameaçou os presentes, em particular o presidente, para que lhe resolvessem de vez os problemas.

Recordou também o momento em que Ferreira Dias empurrou Manuela Santos, o que, segundo admitiu, foi o que efetivamente fez as pessoas levantarem-se das cadeiras. 

Quando João Gomes conseguiu retirar o graveto ao empresário, este agarrou numa cadeira e atirou-a na sua direção, ação que o terá magoado no cotovelo e provocado posteriormente um inchaço. Comentou ainda que ficou surpreendido quando Ferreira Dias o acusou de nunca ter querido reunir com ele, uma vez que, afirmou, houve pelo menos duas situações dessa natureza.

João Gomes também não soube dizer porque motivo a transmissão da sessão online foi cortada, tendo o som continuado sem imagem. Referiu ainda que não viu o presidente a ser atingido, apenas quando este já sangrava.

Jorge Ferreira Dias ameaçou autarcas durante uma reunião do executivo. Em casa com pulseira eletrónica desde 15 e janeiro, aguarda pelo julgamento que vai começar a 28 de junho. Foto: mediotejo.net

A quarta testemunha foi a vereadora Paula Grijó, que veio a reconhecer ter sido ela que chamou a PSP, ligando para o Comandante. Testemunhou também que foi dada a indicação para parar a transmissão online, uma vez que se entendeu o episódio como uma interrupção dos trabalhos.

“O que se pediu foi para parar a transmissão, não a gravação”, explicou, referindo que não sabia que uma ação implicava a outra. Segundo a vereadora, há duas gravações a ocorrer, a da imagem e a do som, razão pela qual a imagem desapareceu mas o som continuou.

Paula Grijó estava de frente para a porta, tendo-se apercebido de imediato da chegada do empresário. “Apercebi-me, pela expressão corporal, que o senhor Jorge vinha com agressividade”, pelo que agarrou logo o telemóvel com o objetivo de pedir apoio. Segundo a mesma, foi já no decorrer do confronto que conseguiu falar com o Comandante da PSP.

A vereadora constatou que foi a partir do momento em que Ferreira Dias empurrou a administrativa que a situação escalou, não obstante tudo tenha ocorrido muito depressa. O facto de ter tido a intuição de agarrar o telemóvel para pedir ajuda, explicou, foi devido ao historial de ameaças, em particular na assembleia municipal anterior. 

A encerrar a sessão no tribunal de Santarém falou o vereador Luís Dias, também testemunha de todo o episódio, que corroborou as narrativas anteriores. “Ficámos todos com muito medo”, reconheceu, nomeadamente após o incidente com Manuela Santos. Segundo o autarca, o presidente tentou apelar à calma, mas no momento em que Ferreira Dias empunhou o cajado na direção dele os presentes assustaram-se. 

“Não foi a primeira vez”, reiterou, corroborando os episódios de ameaças anteriores. Durante toda a situação, afirmou, foram recorrentes as acusações de “bandidos” e “malandros”. 

Luís Dias saiu com o presidente da sala quando a situação já estava controlada e ajudou-o com a ferida. Segundo este, foi quando a PSP viu o sangramento que decidiu prender o empresário.

A próxima audição de testemunhas está marcada para segunda-feira, 5 de julho, a partir das 09h30. No final da sessão, após discussão entre o coletivo de juízes, o Ministério Público e a defesa, decidiu-se prescindir de várias das testemunhas, pelo que serão ouvidas apenas mais quatro pessoas. 

À saída do Tribunal, Jorge Ferreira Dias, que esteve preso em dezembro e se encontra desde janeiro em prisão domiciliária com pulseira eletrónica, afirmou-se tranquilo com o desenvolvimento do processo.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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