Abrantes | Autarca estranha inclusão de empresas e ETAR entre as 10 que mais descargas lançam no Tejo

A reportagem da RTP transmitida na passada segunda-feira, 5 de março, sobre a poluição no Tejo, foi abordada no dia seguinte em reunião de Câmara Municipal de Abrantes (CMA). A estação pública de televisão divulgou a lista com as entidades poluidoras do rio situadas entre Vila Velha de Rodão e Constância. De acordo com a RTP, as empresas identificadas como mais urgentes são dez, seis indústrias e quatro estações de tratamento urbanas, sendo metade na região de Gavião, Abrantes e Constância. Maria do Céu Albuquerque considerou a situação “no mínimo estranha”, disse desconhecer, e que iria pedir explicações à Agência Portuguesa do Ambiente (APA), tendo referido eventual tentativa de encontrar “um bode expiatório”.

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O Ministério do Ambiente está a rever com urgência as licenças das empresas responsáveis pelas maiores descargas de efluentes no Tejo, com o objetivo de limitar a poluição no rio. Após o foco detetado no açude de Abrantes em janeiro último, o Governo foi obrigado agir e assumiu o compromisso de rever 40 Títulos de Utilização dos Recursos Hídricos. A RTP teve acesso à lista das entidades responsáveis pelas descargas e divulgou as dez empresas identificadas como mais urgentes; seis são industriais e quatro são estações de tratamento urbanas. Situam-se todas entre Vila Velha de Rodão e Constância.

Mas entre o concelho de Gavião e o concelho de Constância situam-se metade, e três são no concelho de Abrantes. A CAIMA – Indústria de Celulose S.A., no concelho de Constância e a ETAR de Gavião, da responsabilidade da Águas do Vale do Tejo S.A. Em Abrantes: a ETAR da Margem Sul, sob gestão da Abrantáqua – Serviço de Águas Residuais Urbanas do Município de Abrantes, situada em São Miguel do Rio Torto; a fábrica Queijo Saloio – Indústria de Laticínios S.A., na freguesia do Pego e a empresa de abate e transformação de carne de porco Margarido & Margarido Lda, em Alferrarede.

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Por esse motivo, a reportagem foi assunto na reunião de Executivo camarário de Abrantes, esta terça-feira 6 de março, com a presidente Maria do Céu Albuquerque (PS) a garantir desconhecer tais resultados e a assumiu estar a CMA “farta de pedir à APA que dê informação sobre as eventuais situações que no nosso território necessitem de melhor acompanhamento” salientando de seguida que os casos apontados “em bom rigor não são da responsabilidade” da CMA.

Reunião de CM de Abrantes

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“Da nossa responsabilidade é a ETAR da Margem Sul, gerida pela Abrantáqua. Nós recebemos os resultados e sabemos que cumprem. Ou, se não cumprem, é pontualmente, como aconteceu na ETAR da Fonte Quente”, disse a presidente, admitindo ao mediotejo.net poder “haver um desajuste em relação à quantidade de efluente que é despejado em função do caudal do Tejo” mas a autarca sustentou não ter dados que lhe permitam fazer essa avaliação.

Relativamente às ETAR das empresas do concelho apontadas na peça da RTP, Maria do Céu Albuquerque explicou que “a ETAR da Queijo Saloio é responsabilidade do Ministério [do Ambiente] fazer cumprir mas, em relação à ETAR dos Margarido’s nem sequer percebo porque é que faz parte desta listagem, porque não drena, nem direta nem indiretamente, para o Tejo. Há aqui qualquer coisa que não bate a bota com a perdigota”.

Maria do Céu Albuquerque voltou a sugerir mais uma “tentativa de encontrar um bode expiatório” uma vez que o Ministério do Ambiente deu conta recentemente que “quando muito, a ETAR de Abrantes seria responsável por 5% do efluente que chega ao Tejo. Até porque sabemos que 90% do efluente é produzido pela Celtejo. Nem sequer é pela Navigator ou a Paper Prime. É pela Celtejo em concreto”, exclamou.

Assim, “qualquer ETAR municipal nunca poderia ser responsável pelo que quer que seja”. A autarca vincou o compromisso de assumir “de acordo com a responsabilidade social e ambiental todas as consequências” da ação do Município em relação ao Tejo.

A presidente indicou que iria voltar a pedir à APA um esclarecimento sobre estas questões. Até porque, “no âmbito da Comissão criada pelo Ministério [do Ambiente] para acompanhar o Tejo, falou-se sobre a lista de eventuais questões que têm de ser melhoradas, ficaram de vir apresentar ao terreno e, até hoje, isso ainda não aconteceu”, acrescentou.

Quer as ETAR da responsabilidade da Águas Portugal como as duas indústrias do concelho de Abrantes garantiram à RTP que cumprem os parâmetros das condições de descarga e as licenças de Utilização de Recursos Hídricos.

As restantes empresas apontadas na lista divulgada pela televisão pública situam-se a montante do concelho de Abrantes, sendo elas as ETAR de Nisa e de Vila Velha de Ródão, da Águas do Vale do Tejo, e, também em Vila Velha de Rodão, as celuloses Navigator Tissue, Paper Prime e Celtejo.

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Paula Mourato
A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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