Abrantes | As novas rotinas do Centro Dia de Alferrarede após cinco meses de portas fechadas

Depois de cinco meses fechado devido à pandemia, o Centro de Dia de Alferrarede voltou a abrir portas a 24 de agosto, com capacidade reduzida para metade e novas regras de segurança. Foto: mediotejo.net

A funcionar desde 1999, o Centro de Dia de Alferrarede acolhe diariamente nas suas instalações 40 utentes. Por força da pandemia, viu-se obrigado a fechar portas a 16 de março e a funcionar 100% em apoio domiciliário, levando refeições e palavras de esperança a 80 utentes. Cinco meses depois, as portas voltaram a abrir para receber de volta os primeiros idosos. O mediotejo.net foi conhecer as novas rotinas do Centro de Dia de Alferrarede e descobrir quais as formas adotadas para combater a Covid-19 e também a solidão.

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“A carrinha pára aqui, eles saem, sentam-se numa cadeira. A colaboradora descalça os sapatos que eles trazem de casa e calçamos uns que estão só aqui na Instituição”. Depois, é só seguir as setas coladas no chão e não trespassar as fitas de sinalização que dividem as zonas desinfetadas das não seguras. Na rua há também uma zona desinfetada para os utentes poderem respirar um pouco de ar livre.

Quem nos dá as indicações é Adriana Santos, a diretora técnica do Centro de Dia de Alferrarede. Entramos e sentimos a responsabilidade e a pressão de não tocar em nada. Desinfetantes à vista, as normas da Direção-Geral da Saúde na parede e espaços vazios, vazios demais para aquilo que costumava ser o dia-a-dia do Centro de Dia.

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“Antes desta crise nós tínhamos aqui 40 utentes, normalmente. É essa a lotação aprovada pela Segurança Social e tínhamos sempre, mais ou menos, a lotação esgotada. Agora, tem de ser por dois turnos, para haver o distanciamento”, explica-nos José Bartolomeu, o presidente da direção do Centro Social de Alferrarede, entidade detentora do Centro de Dia e também da valência de creche e pré-escolar.

(E-D) Adriana Santos, diretora técnica do Centro de Dia de Alferrarede, e José Bartolomeu, presidente da direção do Centro Social de Alferrarede. Foto: mediotejo.net

Além destes 40 utentes, o Centro de Dia de Alferrarede prestava ainda, antes da pandemia, apoio domiciliário a mais 40 idosos. Com o aparecimento da Covid-19, a Instituição viu-se obrigada a fechar portas a 16 de março e a trabalhar 100% em regime de apoio domiciliário.

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“O apoio domiciliário sempre funcionou durante todo o Covid”, reforça José Bartolomeu que diz de forma vincada que esta tem sido “uma altura complicadíssima”.

“Havia muitos idosos que estavam habituados a isto e não tinham outra maneira de convívio e para eles foi um bocado complicado. E durante todo este tempo houve várias pessoas que vieram ter comigo sempre a perguntar quando é que abria (…) havia essa necessidade de eles conviverem, que era o mais importante”, explica o presidente da direção do Centro Social de Alferrarede.

 

As rotinas mudaram e a instituição viu-se numa situação de “reorganização forçada”. Todos os dias de manhã as carrinhas do Centro de Dia saíam em direção à casa dos 80 utentes, percorrendo as diversas ruas do território de Abrantes.

“Íamos todos os dias, todos os dias alguém ia lá a casa. (…) Acaba por ser mais difícil, ao termos mais utentes em casa acabamos por ter que fazer mais voltas de apoio domiciliário, são também mais utentes com higienes habitacionais”, conta Adriana, a diretora técnica.

Nos primeiros tempos, a equipa do Centro de Dia trabalhou em espelho com apoio das funcionárias do Jardim de Infância, que também fechou portas. De quinze em quinze dias trocavam as equipas, por uma questão de segurança.

A casa dos idosos ia também, uma vez por semana, a animadora. Nas visitas, sobressaía o sentimento de solidão.

“Sim, [sentia-se] muito mais. A partir de junho a animadora começou a ir a casa deles fazer alguma animação, pouca, porque não podia ter muito contacto com eles mas sempre conversavam, mandava-lhes trabalhos para fazer, desenhos para pintar, fazia ginástica com eles”, conta-nos Adriana.

Boa semana a todos. ❤️

Publicado por Centro Social de Alferrarede em Terça-feira, 28 de julho de 2020

 

O dia da reabertura

Em comunicado publicado no portal do Governo no início do mês de agosto foi anunciada a possibilidade de reabertura faseada dos Centros de Dia a partir do dia 15 do mesmo mês, mediante o cumprimento de orientações definidas num guia orientador elaborado pelo Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social.

A 24 de agosto o Centro de Dia de Alferrarede deu o passo em frente e reabriu portas para uma nova realidade.

“Na primeira semana que reabrimos vieram só sete utentes, porque alguns ainda não têm declaração médica”, conta-nos José Bartolomeu. Uma declaração médica que é exigida pela Direção-Geral da Saúde a atestar a aptidão dos utentes para frequentarem presencialmente o Centro de Dia, documento esse que é passado pelo médico de família. A ideia é haver dois turnos, onde a cada semana vem um grupo de 20 idosos, alternando assim entre os 40 utentes do Centro de Dia em regime presencial.

A existência dos turnos prende-se com a questão do distanciamento social, uma vez que “no máximo, podem estar 20 [utentes] no mesmo espaço agora”.

O distanciamento social é respeitado no refeitório do Centro Social de Alferrarede. Agora, só pode almoçar um utente por cada mesa. Foto: mediotejo.net

Agora, tudo é feito com ainda mais cuidado e segurança. “Só pode almoçar um utente por mesa, temos sempre uma colaboradora responsável pela desinfeção, temos o distanciamento de dois metros, nas carrinhas de transporte também não pode vir cheia. Muitos mais cuidados”, explica-nos Adriana.

Aos poucos, tentam-se recuperar as rotinas que existiam antes da chegada da pandemia. Rotinas essas que faziam o Centro de Dia funcionar “de uma forma quase perfeita”, desde o chá com bolachas ao meio da manhã à hora de rezar o terço, sem esquecer a ginástica, os trabalhos manuais e os passos de dança – agora a solo – que “tanta falta lhes faz”.

Todos de máscara colocada, cada um na sua cadeira, os utentes respeitam escrupulosamente as regras. “Respeitam muito e entendem todas as normas, tem corrido muito bem nesse sentido”, assegura a diretora técnica.

O rasto que a Covid-19 deixou

O número de utentes foi uma das consequências deixadas pela pandemia. “As famílias não podiam ficar com elas e arranjaram soluções porque nós não podíamos, deram-nos ordem para fechar”, refere José Bartolomeu.

“Mas já estamos a recuperar, já temos muitos utentes novos a entrar”, acrescenta Adriana Santos. “Tínhamos uma lista de espera e felizmente estamos a recuperar bem”, reforça José Bartolomeu.

Também em termos financeiros, o Centro de Dia sentiu as consequências negativas da pandemia, com a redução das receitas e o aumento dos custos. “Nós ainda não temos a avaliação, não temos as contas ainda, mas que o impacto é grande é, não temos dúvidas nenhumas. Temos a certeza absoluta que é grande”, refere o presidente da direção do Centro Social de Alferrarede.

José Bartolomeu refere que uma das maiores dificuldades sentidas foi a nova organização do espaço do Centro de Dia.

“Por exemplo, na sala onde os idosos estão permanentemente durante o dia e no refeitório tivemos de retirar dali mais de metade do equipamento. Foi para o ginásio, não se consegue lá entrar agora”, diz. Outra das mudanças foi a logística em termos de transporte para a qual o Centro de Dia “não estava preparado”.

“Aumentámos muito o transporte, mais quilómetros, porque em vez de irmos levar refeições a 40 utentes passou a ser a 80. E acabávamos ainda por ter mais despesa porque tínhamos de ir mais vezes, se tivéssemos tido tempo para ter carros maiores, tempo para nos prepararmos, mas não tivemos”, conta Lúcia Serras, secretária do Centro Social de Alferrarede ao mediotejo.net.

(E-D): Adriana Santos, diretora técnica do Centro de Dia, José Bartolomeu, Lúcia Serras e Pedro Simão, membros da direção do Centro Social de Alferrarede. Foto: mediotejo.net

Apesar dos constrangimentos, o Centro Social de Alferrarede não despediu nenhum funcionário. Da parte da creche e jardim de infância ainda houve trabalhadoras em lay-off durante dois meses, mas no caso do Centro de Dia apenas houve uma saída por reforma, a qual foi rapidamente substituída por uma nova contratação.

O apoio do Município de Abrantes

Os custos no Centro de Dia de Alferrarede aumentaram também com a necessidade de adquirir gel desinfetante e material de proteção individual.

José Bartolomeu não se acanha a atribuir mérito à autarquia de Abrantes pelas máscaras, desinfetantes, luvas, batas descartáveis e outros materiais fornecidos à instituição.

“O presidente da Câmara tem sido uma pessoa nossa amiga, dá-nos apoio moral e há toda a expectativa de que nos venha a ajudar de outra maneira”, diz o responsável. “Ainda há dias reunimos e estamos convencidos de que vamos ter ajudas”.

A instituição recebeu também apoio de outras entidades do concelho e até de voluntários que se ofereceram para ajudar. “Sempre fomos muito recetivos a voluntários na instituição, só que com isto tudo é complicado”, diz a diretora técnica do Centro de Dia.

Quanto à Segurança Social, José Bartolomeu afirma que ainda estão à espera. “Nós estamos sempre à espera. Enviámos os mapas de quantos tínhamos no Centro de Dia e de quem estávamos a apoiar em casa, eles disseram que iam dar um apoio mas até agora ainda não deram. É tudo televisões, jornais, mas fica por aí. Concretamente, as coisas ainda não apareceram, mas vamos ter esperança”.

E é essa mesma esperança num regresso à antiga vida do Centro de Dia, com salas compostas de gente e muitos sorrisos descobertos que faz com que a equipa do Centro Social de Alferrarede, quer na valência de Centro de Dia quer na valência de creche e jardim de infância continue a lutar todos os dias.

É essa a certeza dada por José, a de que “pelo menos vontade não nos falta, para continuar a lutar”.

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