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Sábado, Outubro 16, 2021

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Abrantes | António Eustáquio leva hoje Carlos Paredes em guitolão ao cineteatro (entrevista)

Falar de Carlos Paredes é falar da guitarra portuguesa que tocou como ninguém. No entanto, Carlos Paredes também pode ser falar de guitolão, um instrumento musical do qual existem três exemplares no mundo e António Eustáquio traz o primeiro ao Cineteatro S. Pedro na noite desta sexta-feira, dia 29. Quisemos saber mais sobre este cordofone construído pelo mestre Gilberto Grácio e o músico que faz vibrar o legado de Carlos Paredes de cada vez que toca.

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Nascido em Portalegre, estudante em Castelo Branco e Paris, músico na Orquestra Ligeira do Exército e no Conservatório de Música de Portalegre, docente de música, fundador do Quarteto do Sol, do quarteto Sons do Tempo e da Camerata Lusitana… Estas são apenas algumas etapas do percurso pessoal e profissional de António Eustáquio, o músico que sobe ao palco do Cineteatro S. Pedro na noite desta sexta-feira.

Não vai sozinho e leva consigo o primeiro guitolão construído pelo mestre Gilberto Grácio, cuja família tem longa tradição ligada à construção tradicional de instrumentos musicais em que se incluem as transformações na guitarra portuguesa realizadas em conjunto com Artur Paredes, o pai do guitarrista Carlos Paredes. O último privou com o mestre guitarreiro, encontrando-se entre a lista de amigos e clientes onde constam nomes como António Chainho e Jimmy Page, e desse contacto surgiu o guitolão.

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O sufixo “ão” confirma o grau aumentativo uma vez que a caixa de ressonância e a escala são maiores e o braço é mais longo. Foi este novo instrumento musical semelhante à guitarra portuguesa que António Eustáquio viu e tocou pela primeira vez na casa de Carlos Paredes, em Benfica, quando lá foi a convite de Luísa Amaro (companheira de Carlos Paredes). O protótipo ia ao encontro da pesquisa que tinha iniciado em Paris na década de 80 com outros músicos em busca de “um género de música que na altura não estava inserido na «mainstream»”.

Apresentação do guitolão com o mestre guitarreiro Gilberto Grácio

A experiência dos primeiros acordes no guitolão não ficou apenas registada no “gravador de cassetes”, mas também na sua mente e ganhou novos contornos quando se encontrou com Gilberto Grácio quando tocou na Basílica da Estrela durante o funeral de Carlos Paredes. O mestre revelou-lhe na altura que pensava prestar uma homenagem ao “construir o modelo definitivo” com “madeiras que ele tinha guardado há cerca de 30 anos”.

A ideia do guitarrista que conhecemos pelo “movimento perpétuo” ganhou forma, foi patenteada e o primeiro dos três exemplares existentes em todo o mundo passou a ser tocado por este músico alentejano em palcos nacionais e estrangeiros. Os outros dois também se encontram em terras lusas, partilha, tendo o segundo sido “adquirido pelo guitarrista algarvio Valentim Filipe e o terceiro por um jovem de Coimbra, Luís Castela”, que partilham a missão de divulgar o guitolão.

Para António Eustáquio, este instrumento diferencia-se por ter “um registo mais amplo que a tradicional guitarra portuguesa”, acrescentando que “a técnica de execução também é um pouco diferente”. Na sua opinião, trata-se de “um instrumento mediterrânico que concentra as sonoridades do Saz Turco, Guitarra Hispânica, Alaude Árabe e, claro, da nossa guitarra portuguesa. Quem for assistir ao concerto em Abrantes irá compreender isso”.

António Eustáquio explora novas sonoridades com o instrumento musical idealizado por Carlos Paredes

Apresentou o guitolão ao mundo pela primeira vez em abril de 2005 num concerto nas Ruínas da cidade Romana de Ammaia (Marvão) e desde então tem perpetuado o legado de Carlos Paredes de cada vez que sobe ao palco. Responsabilidade ou desafio? Assume que é “sobretudo uma responsabilidade, em consideração à sua história, no que respeita à sua origem. Estamos a falar de um instrumento que surge do resultado de muitos anos de experiência no domínio de um luthier (Gilberto Grácio) que vem de várias gerações de guitarreiros. É um instrumento que teve origem numa ideia do grande mestre Carlos Paredes e que agora se lança em novos desafios”.

Recorda o dia em Carlos Paredes lhe disse que “gostava que as gerações mais jovens continuassem o seu percurso musical, mas que não copiassem a sua música. Achava que deviam procurar outros caminhos, outras sonoridades” e assume que é “nessa linha que tenho tentado, humildemente, realizar o meu trabalho. Não repetir o que ele fez, porque é quase impossível imitar o mestre, mas criar novas paisagens sonoras”.

Tal como Carlos Paredes, António Eustáquio procura novas sonoridades. Numa entrevista à Lusa, em 2015, dizia que o guitolão não foi idealizado para acompanhar o fado e os projetos com o Quarteto Ibero-Americano e Carlos Barretto reforçam essa posição. O fado, diz, “tem uma abordagem e linguagem muito próprias. No entanto, pode ser interpretado com o acompanhamento de diferentes instrumentos”, acrescentando que“o guitolão não é limitativo em termos de repertório, mas não é minha intenção substituir a guitarra portuguesa”.

Primeira apresentação da “Suite das Folhas”, em Marvão, que também sobe ao palco do Cineteatro S. Pedro

Ao contrário do que seria expectável, o fado estará presente no concerto. Amália Rodrigues surge na voz de Vera Soldado e é acompanhado pela música de uma orquestra de cordas. Questionado se o público pode esperar um momento em que a música da saudade vai ou não ser acompanhada pelo guitolão, António Eustáquio deixa no ar “tudo pode acontecer…”. No palco do cineteatro também estarão os arranjos do falecido maestro José Marinho e os momentos de fado serão intercalados pela interpretação da “Suite das Folhas”.

A suite que integra o repertório desta sexta-feira foi inicialmente tocada por si no concerto de Natal do Tonhalle Dusseldorf, na Alemanha, com uma orquestra sinfónica. O resultado “fantástico” motivou-o a repetir o formato “com uma orquestra de câmara, apenas com instrumentos de cordas” que apresentou primeiramente em Castelo de Vide por ocasião da Páscoa. O mesmo será repetido num momento em que a paixão também sobe ao palco pois o guitolão é um instrumento “que se toca sempre com paixão”.

A segunda peça interpretada em Abrantes chama-se “Paixão das Folhas”, segundo António Eustáquio, o público pode esperar a “partilha de energias” gerada pelo concerto. O músico e o seu guitolão vão ser os guias de uma “viagem” que defende “tem que ser construída em conjunto com os que executam a música e os que a absorvem”. À sua espera tem “cumplicidade na descoberta de paisagens imaginárias onde os sons e os silêncios coabitam numa unidade etérea” e “empatia (…) na procura de ótimas vibrações e vivências mutuas”.

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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