- Publicidade -

Abrantes | António Campos sai da presidência de São Facundo e Vale das Mós com “mágoa” pela falta de médicos e saneamento

A União de Freguesias (UF) de São Facundo e Vale das Mós é uma das 13 do concelho de Abrantes que tem assistido a perda de população, à semelhança de muitas terras do interior. Constituída por cinco aldeias: São Facundo, Vale das Mós, Barrada, Vale de Zebrinho e Esteveira, a união entre as duas freguesias resulta da agregação de 2013. Situa-se no limite sul/sueste do concelho e tem como vizinhos o concelho de Ponte de Sor a sueste, Pego, Alvega e Concavada a norte, Bemposta a oeste, e São Miguel do Rio Torto e Rossio ao Sul do Tejo a noroeste. Com as eleições autárquicas no horizonte, António Campos dá conta que não se recandidata à presidência da UF de São Facundo e Vale das Mós. O maior problema da freguesia “é a falta de médicos”. A promessa que fica por cumprir: o saneamento básico em Vale de Zebrinho.

- Publicidade -

São Facundo e Vale das Mós é uma freguesia de Abrantes, que dista cerca de 15 quilómetros da sede do concelho, com 103 quilómetros quadrados de área e 1515 habitantes (census 2011). Número que “hoje não corresponde à verdade” começa por explicar o presidente da Junta ao mediotejo.net . “Os óbitos são muito mais do que os nascimentos”, o que leva o autarca a contabilizar cerca de 1400 pessoas.

António Campos, presidente da União de Freguesias de São Facundo e Vale das Mós. Créditos: mediotejo.net

- Publicidade -

António Campos, que completou 70 anos no dia 24 de janeiro, está à frente dos destinos da freguesia há praticamente 12 anos, a completar no final do mandato (1 de novembro de 2021). Mas contando a partir da agregação diminui para 8, sendo inicialmente presidente apenas da freguesia de São Facundo. No primeiro mandato foi eleito na lista do ICA (Independentes pelo Concelho de Abrantes), e nos últimos dois mandatos tem representado o Partido Socialista.

Até ao século XVI, São Facundo tinha o nome de Zonalheira. Nessa data foi encontrado um Santo, que foi colocado na Igreja Matriz e a quem foi atribuído o nome de São Fagundo, dando o nome à localidade, mais tarde São Facundo. Vale das Mós foi criada em 1985 por desanexação de parte das freguesias de Bemposta e de S. Facundo e depois agregada em 2013, na atual delimitação, tomando o nome de União de Freguesias de São Facundo e Vale das Mós.

Passando dos Santos à política, António Campos considera que a agregação trouxe “vantagem financeira” uma vez que desde 2013 “a escala é maior e outro poder reivindicativo”. Portanto, permite “a realização de obras que não fazíamos”.

Como desvantagem o presidente aponta “mais trabalho para o presidente da Junta. Tem de se desdobrar para dar conta do recado. Trabalhar com quadro aldeias com uma área de 70 quilómetros quadrados é diferente de trabalhar com cinco, numa área muito maior”. Na hipótese de haver vontade da desagregação das freguesias, garante não ser oposição.

Como trabalho “sensível” e “com a sua especificidade”, o autarca aponta a responsabilidade pelos cemitérios locais. “Esta freguesia é recordista em número de cemitérios no concelho de Abrantes”. Ou seja, cinco cemitérios, um em cada aldeia, fazendo notar o presidente terem “diversos alargamentos”.

Cemitério de Vale de Zebrinho durante das obras da casa-de-banho. Créditos: José Rafael Nascimento

Recentemente gerou-se uma polémica à volta da construção de casas de banho em frente ao cemitério de Vale de Zebrinho, obra “já concluída” e segundo António Campos “muito bonita! A entrada do cemitério foi toda requalificada, com colocação de paralelos numa área bastante significativa, e com a plantação de árvores. As obras dignificam muito aquele espaço e resolveram um problema”, defende, tendo feito notar que nas intervenções “há sempre polémica. Temos de estar preparados para isso”.

No exercício de uma profissão que possibilita às famílias uma despedida digna dos entes queridos, estão os coveiros, profissionais nem sempre fáceis de contratar. A freguesia tem dois. A Junta abriu concurso e conseguiu contratar embora “um deles tenha problemas de saúde”, que resultam em baixa médica, mas “o outro tem condições para fazer o seu trabalho” nos cinco cemitérios, assegura o autarca.

Aldeia de São. Facundo. Créditos: mediotejo.net

Entre as grandes dificuldades enfrentadas pelos presidentes de Junta da região, porventura de todo o País, enumera a vontade de querer realizar mais obra sem meios financeiros. “Hoje em dia as Juntas de Freguesia ainda dependem muito das Câmaras Municipais para qualquer tipo de intervenção”.

Por isso, António Campos defende para as Freguesias autonomia financeira. “Deviam ter verbas do Orçamento de Estado que lhes permitisse fazer face aos problemas e não andar a mendigar na Câmara mais umas migalhas para fazer isto ou aquilo”.

Com a transferência de competências das Câmaras para as Juntas, “em termos financeiros não veio acrescentar nada… ou um valor insignificante. Muitas das competências transferidas da Câmara de Abrantes para as Juntas, na prática já fazíamos. Fosse através de protocolos, fosse através de contratos interadministrativos”, afirma Campos.

Junta de Freguesia de São Facundo. Créditos: mediotejo.net

O orçamento da União de Freguesias de São Facundo e Vale das Mós para 2021 contabiliza 350 mil e 250 euros. Neste montante está incluído o valor dos contratos interadministrativos com a Câmara Municipal, sendo cerca de 81 mil euros. Do orçamento central do Estado chegam 120 mil euros, um valor considerado “manifestamente insuficiente”.

A Junta de Freguesia conta com cinco trabalhadores no quadro, que auferem salários pagos pelo orçamento da Junta, por isso o autarca socorre-se do Centro de Emprego. Anualmente “gostava de ter um orçamento dentro destes valores [350.250,00 euros] mas que viesse diretamente do Estado”, sabendo com o que podia contar, sublinha.

Conta que a Junta tem “pessoas a tempo inteiro a fazer limpeza urbana em todas as localidades da freguesia, à exceção de Esteveira, onde vivem menos de 20 pessoas. Por norma esses serviços são assegurados por desempregados” que recebem Subsídio de Desemprego ou recebiam o Rendimento Social de Inserção, explica.

Mas como principal problema na Freguesia, até pelas “queixas dos fregueses”, António Campos aponta, sem hesitar, a falta de médicos. Lembra que, na primeira vez que concorreu à Junta de Freguesia, pelos Independentes pelo Concelho de Abrantes, em 2009, as aldeias de São Facundo, Vale das Mós, Vale de Zebrinho e Barrada “tinham médico no posto de saúde. Hoje não há médico em lado nenhum. A população da minha freguesia está distribuída por Abrantes, Rossio, Bemposta e Rio de Moinhos”, em termos de acesso a a cuidados de saúde.

Na época do encerramento as consultas médicas na Freguesia, o ACES Médio Tejo justificou a decisão com “falta de médicos. Depois construíram as Unidades de Saúde Familiar, em Abrantes e no Rossio… aqueles equipamentos tinham de ser justificados. A vontade é centralizar” os serviços, critica.

“É inadmissível! A minha população muito envelhecida, idosos sozinhos têm uma dificuldade enorme em deslocar-se”, quer a Abrantes, quer ao Rossio.

Aldeia de São. Facundo. Créditos: mediotejo.net

Para avolumar o problema “não há uma rede de transportes adequada. As pessoas ou vão de táxi ou em carros de familiares ou amigos. Ainda bem que nestas localidades ainda resiste o espírito da boa vizinhança!”, refere. Apesar das diligência realizadas, nomeadamente no mandato anterior, os médicos não regressaram, sendo que os serviços de enfermagem permanecem, para já, em Vale das Mós e São Facundo, duas manhãs por semana.

Mas a “inexistência” de médicos não convence António Campos. “Os médicos são um grande lobby e ninguém consegue dizer-lhes para onde vão trabalhar, no Serviço Nacional de Saúde. Sou militar de carreira (reformado) e se me mandassem para os Açores era obrigado a ir, os professores é a mesma coisa. Formar um médico custa muito ao País”, afirma, defendendo, por isso, que “um médico, após a sua formação, deveria ficar adstrito ao Serviço Nacional de Saúde por determinado número de anos e ser colocado onde houvesse necessidade”.

A pandemia de covid-19 veio agudizar o outro problema, que se prende com a rede de transportes públicos. “São diminutos”, embora reconheça que alguns dos seus fregueses recorrem ao transporte a pedido.

De resto “é a gestão do dia a dia. Há sempre coisas a fazer quer de melhorias na rede viária quer noutros aspetos” em aldeias daquela freguesia que ainda contam com farmácia, padaria, mercearia, cafés e outros serviços, indica o presidente, contrariamente ao que acontece em outras freguesias vizinhas.

A antiga escola primária de São Facundo que atualmente em obras. Créditos: mediotejo.net

Alguns anos a ouvir e a tentar resolver os problemas aos seus fregueses por ser o autarca mais próximo do cidadão, conhece hoje melhor o “fardo” que o cargo acarreta do que no seu primeiro mandato.

Ainda assim António Campos confessa gostar de ser presidente da Junta. Muitos dias “saio de casa de manhã e entro à noite. Às vezes sinto que não andei em vão e que trabalhei em prol da comunidade, outras vezes é o contrário. Mas é motivador! Evidentemente que ao fim de muitos anos tem o seu desgaste e quem sofre mais é a família”. Contudo a missão de serviço público “vai deixar saudades”, antecipa.

Porque “são muitas horas dedicadas à Freguesia. Se não fosse reformado, com tempo para fazer face às exigências de um território desta dimensão seria muito complicado. Não imagino um presidente que tenha o seu trabalho e à noite possa ir à junta fazer despachos e aperceber-se dos problemas”, refere.

António Campos defende que o cargo de presidente de Junta deve ser a tempo inteiro. Algo que não tem pernas para andar “enquanto o poder político não der alguma dignidade ao cargo nomeadamente em termos de vencimento”. Vaticina que futuramente “haverá muita dificuldade em arranjar pessoas que queiram assumir estes cargos. Recebo 274 euros por mês” pelo cargo na Junta. “Não é compatível com o trabalho que se faz!”, afiança.

Entrou na vida política “por amor à camisola. Sabia que não ia ser fácil!”, afirma, tendo feito notar a dificuldade em “constituir listas” de candidatos à Junta de Freguesia. “Creio que nas próximas eleições, este ano, haverá muita dificuldade em conseguir pessoas responsáveis” para assumir tarefas.

Sublinha que o trabalho de presidente da Junta “é de proximidade” sendo “por vezes acusado de situações injustas” que não dependem da sua vontade, “e isso dói um bocadinho. Já me arrependi algumas vezes de ter assumido este cargo”, confessa.

Aldeia da Barrada ao fundo. Créditos. mediotejo.net

Este apresenta-se como o último ano do atual mandato, havendo eleições autárquicas dentro de alguns meses. António Campos assegura que não se vai recandidatar. “Uma decisão definitiva! Doze anos dedicados à causa pública é muito tempo”. Até porque “antes das eleições e na altura da campanha eleitoral promete-se mundos e fundos e a seguir passa tudo”.

Mas promessas em incumprimento é para este militar reformado “revoltante”. Na política autárquica “é muito frequente. Prometem-se determinadas condições e depois na hora da verdade falha tudo. Esta é a minha maior desilusão com a política”.

Orgulha-se da execução, durante o seu mandato, da obra que asfaltou a estrada que liga São Facundo a Vale das Mós embora tendo sido “protelada no tempo”. Prometida “para o inicio de mandato e realizada no fim”. Outras intervenções ficam por fazer.

A zona que deveria ser verde com as árvores que António Campo queria substituir. Créditos: mediotejo.net

Como as árvores plantadas, numa (suposta) zona verde, à entrada de São Facundo. “Constou sempre no meu manifesto e acabo por me ir embora sem ser feito”.

Outra promessa por cumprir, e com a qual se sente “enganado”, foi realizada pela anterior presidente da Câmara Municipal de Abrantes, hoje ministra da Agricultura, Maria do Céu Antunes. Prende-se com a falta de saneamento básico em Vale de Zebrinho.

António Campos admite ter-se candidatado pelo PS, no segundo mandato, porque “a senhora presidente prometeu o saneamento básico, era uma aspiração das pessoas, e o saneamento básico continua por fazer”, uma “mágoa” que traz e leva consigo depois de encerrar este capítulo político para se dedicar à família.

Na União de Freguesias por concluir encontramos a pavimentação dos passeios em Vale das Mós, o arranjo dos passeios à entrada de São Facundo, aldeia onde os passeios também apresentam desníveis entre o alcatrão e os paralelos. Na Barrada e Esteveira ainda existem ruas em terra batida, no Vale de Zebrinho “há outros pontos”, para além do saneamento básico em rede, e substituição de condutas de água em fibrocimento em São Facundo, Vale de Zebrinho e Barrada, indica.

Os passeios à entrada de São Facundo que necessitam de uma intervenção. Créditos: mediotejo.net

Falando do lado positivo do cargo afirma levar “uma relação espetacular” com os restantes presidentes de Junta do concelho de Abrantes e também com o atual presidente da Câmara, Manuel Jorge Valamatos (PS).

Por isso sabe qual “o ponto que toca a todos” os presidente de Junta: “O desejo que o financiamento chegasse do Orçamento de Estado”.

Apesar da população envelhecida, na União de Freguesias de São Facundo e Vale das Mós abundam coletividades. O associativismo está presente como “uma mais valia para as aldeias” sendo “um povo dinâmico”, destaca o presidente.

São Facundo conta com a Casa do Povo e com a Associação de Caçadores, Vale das Mós conta também com a Associação de Caçadores, com o Rancho Folclórico, a Associação Juvenil Cem Rumos e o Clube Recreativo e Cultural de Vale das Mós. A Barrada tem a Associação de Festas e a Associação de Caçadores, Vale de Zebrinho a Associação O Vale, e Esteveira tem a Associação Recreativa e Cultural.

Casa do Povo de São Facundo. Créditos: mediotejo.net

A desertificação é outro problema que lamenta. Em Esteveira “não nasce uma criança há mais de 30 anos”. Embora surja agora alguma esperança de repovoamento. “As pessoas de Lisboa acham a povoação maravilhosa para ter uma habitação de fim-de-semana e de férias. Há pessoas a comprar e a recuperar casas. É um bom sinal!”, diz, abrindo um sorriso.

Naquela aldeia acontecem “talvez as festas mais tradicionais” do concelho de Abrantes, destaca António Campos. “É à moda antiga; barraquinhas com estrutura em madeira com rama de eucalipto por cima, o baile é feito numa eira” e têm lugar no primeiro fim de semana de setembro.

As atividades culturais e desportivas na freguesia, em regra, são promovidas pelas coletividades que organizam desde as festas de verão às equipas desportivas para disputarem os campeonatos de futebol do INATEL e outros torneios desportivos.

Campo de jogos de São Facundo. Créditos: mediotejo.net

Além disso, a Freguesia conta com piscinas públicas em Vale das Mós. “Uma mais valia para a freguesia que serve não só pessoas do Sul do concelho mas também de Ponte de Sor. Este ano foi feito um investimento de 14 mil euros, com a ajuda da Câmara Municipal em oito mil euros”.

Equipamento que requer com regularidade “pequenas obras de manutenção mas esta obra de fundo veio resolver a questão da perda de água nas caleiras. O problema agora, mais urgente, prende-se com a substituição dos azulejos. O revestimento é em pastilhas e saltam muito”, explica António Campos.

Piscinas descobertas de Vale das Mós. Créditos: CMA

Sem o apoio financeiro da Câmara “a Junta teria de suportar todos os custos e as piscinas todos os anos dão prejuízo”, garante. Em 2020 os prejuízos aumentaram devido à pandemia de covid-19.

“Além de sermos obrigados a mais gastos em produtos desinfetantes, compramos uma série de dispensadores de álcool, o numero de utilizadores foi menor porque os acessos eram limitados”. Assim a receita das piscinas descobertas de Vale das Mós, em entradas com preço igual, foi de 4.609,54 euros em 2020 enquanto em 2019 havia sido de 7.392,97 euros.

Contas feitas, e entre o deve e o haver, António Campos dedicou boa parte da sua reforma à causa pública, entendendo agora chegada a hora de passar a pasta a quem queira dirigir os destinos da ainda União de Freguesias de São Facundo e Vale das Mós. Campos, pela sua parte, vai dedicar-se à família e usufruir da sua reforma, sendo certo que sempre o acompanhará o bichinho da atividade politica de proximidade para com os cidadãos. E, quem sabe, se não iremos ver ainda António Campos a brindar às conquistas da freguesia, seja no campo dos médicos de família, seja no campo do saneamento básico que tanta ambiciona cheguem às populações daquelas localidades. Para já, em promessas, Campos já não entra.

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
O seu nome

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).

- Publicidade -