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Sábado, Julho 24, 2021

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Abrantes | António Botto, o poeta de Concavada nasceu há 120 anos

António Botto regressou a 17 de agosto ao concelho onde nasceu para soprar uma vela de aniversário que valeu por 120, numa homenagem da autarquia. O poeta, escritor, dramaturgo e tradutor, como que renascido, andou pelo centro histórico da cidade de Abrantes durante o dia com uma agenda cheia que incluiu uma arruada e momentos literários no Jardim da República, estabelecimentos de restauração e na biblioteca de que é patrono. Com o aproximar da noite rumou à terra natal, Concavada, onde foi evocado na Junta de Freguesia.

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O menino que correu “descalço e alegre” pelas ruas da “terra de província, com arvoredos, piquenas casas, e uma fonte” – como se refere aos tempos de infância na localidade abrantina em “Cartas que me foram devolvidas” (1932) – cedo passou a pisar o chão do bairro de Alfama e foi pela capital que cresceu com os dois irmãos, a mãe doméstica e o pai marítimo, conhecedor profundo do Tejo que garantia o sustento da família.

As comemorações dos 120 anos incluíram uma arruada e sessões de contos. Fotos: mediotejo.net

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Muitas vezes terá a mãe dito “António Tomás, porque não vais para padre?”. A desistência dos pedidos contínuos, aos quais nunca cedeu, é dada na primeira pessoa “alguém lhe disse uma noite: seu filho é bonito de mais para ser padre”.

Não ficou conhecido por ser bonito, mas pela figura esguia, o encontro com figuras de relevo enquanto trabalhava como livreiro em Lisboa e a coletânea de poemas “Canções”, revista e aumentada entre 1921 e 1932, que Fernando Pessoa (ortónimo) aclamou e Álvaro de Campos censurou.

Quando o heterónimo andava por longe, os dois caminhavam juntos para o famoso “Martinho da Arcada”, ponto de encontro de intelectuais na Praça do Comércio (Lisboa). Os cafés e as bebidas acompanhavam a discussão certa sobre a ousadia das palavras do poeta da Concavada cujas “Canções” representaram uma mudança na mentalidade portuguesa ao abordar explicitamente a homossexualidade que o poeta da “Tabacaria” viria a traduzir para o inglês.

António Botto, Fernando Pessoa, Raul Leal e Augusto Ferreira Gomes no “Martinho da Arcada”. Foto: DR

As noites boémias trouxeram-lhe a sífilis que debilitaram o corpo, mas não a avidez das palavras do homem para quem: “Deram-se as bocas num beijo, / – Um beijo nervoso e lento… / O homem cede ao desejo / Como a nuvem cede ao vento. / Vinha longe a madrugada. / Por fim, / Largando esse corpo / Que adormecera cansado /E que eu beijara loucamente / Sem sentir, / Bebia vinho, perdidamente, / Bebia vinho… até cair”.

José Régio escreveria em 1959, ano da morte do poeta, que António Botto conquistara a imortalidade através do seu legado literário. Entre ele encontrou as palavras arrojadas que lhe geraram “o choque profundo, a surpresa ao mesmo tempo grata e como receosa, da mais autêntica originalidade: a que se não arremeda, nem conquista, a que mesmo involuntariamente se denuncia, pois é fatal, vital, e porventura nem bem consciente de si”.

A obra mais conhecida do poeta abrantino é a coletânea de poemas intitulada “Canções”. Fotos: DR

António Botto respondeu-lhe, sem saber, 37 anos antes: “No amor, / – Apenas, é mentira no futuro / Aquilo / Que nos parece uma verdade presente. / O amor não mente, nunca! / Exagera simplesmente”. Não mentiu e uma vez assumida a orientação sexual, nem a união de facto com Carminda Rodrigues, nove anos mais velha, não foi suficiente para diminuir a homofobia de que foi alvo toda a vida.

Ser igual a si próprio valeu-lhe a apreensão da obra pelo Governo Civil em 1923 e o despedimento do cargo de escriturário de primeira-classe do Arquivo Geral de Identificação em 1942 por dirigir “galanteios e frases de sentido equívoco a um seu colega, denunciando tendências condenadas pela moral social”.

Entre ambas as datas, correu o estrangeiro e foi funcionário público na antiga colónia de Angola em 1924 e 1925.

António Botto regressou a Abrantes esta quinta-feira. Foto: mediotejo.net

A agrura provocada pelos adultos não lhe levou a doçura das palavras e nesse ano publicava a obra infantil “Os Contos de António Botto”.

Um mundo imaginário que transportou consigo para o Brasil no ano de 1947 em busca de refúgio, despedindo-se do país com recitais de poesia em Lisboa e no Porto que lhe granjearam os elogios de Amália Rodrigues, João Villaret e Aquilino Ribeiro. Não voltaria a pisar as ruas por onde correu descalço em menino.

Amado por uns, odiado por outros, António Botto afirmou-se como uma figura controversa e proeminente da literatura portuguesa. Os restos mortais foram transladado para o cemitério do Alto de São João (Lisboa) em 1966 e regressou simbolicamente pelas placas toponímicas existentes na capital e na terra natal, o busto com dedicatória da população em Concavada, a atribuição do nome à biblioteca municipal de Abrantes, e a inclusão na exposição “100 anos de autores abrantinos”, em que surgia na tela pintada por Abel Manta.

A exposição “100 anos de autores abrantinos” na Biblioteca Municipal António Botto. Fotos: mediotejo.net

Ao longo dos últimos 120 anos tentou “criar beleza”, 62 dos quais com recurso às próprias mãos e 58 através das palavras que deixou escritas. Pelos 27 anos já tinha consciência da ambiguidade do conceito de “estética”.

Quem estabelece o que é belo ou feio? Nas suas “Curiosidades Estéticas” (1924) limitou-se a constatar o óbvio:

O mais
importante na vida
É ser-se criador – criar beleza.

Para isso,
É necessário pressenti-la
Aonde os nossos olhos não a virem.

Eu creio que sonhar o impossível
É como que ouvir uma voz de alguma coisa
Que pede existência e que nos chama de longe.

Sim, o mais importante na vida
É ser-se criador.
E para o impossível
Só devemos caminhar de olhos fechados
Como a fé e como o amor.

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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