Abrantes | Ana Rita Mendes, uma escuteira em Beirute a tentar confortar o Líbano (c/fotos)

Foto: DR

A explosão que aconteceu em Beirute no dia 4 de agosto deixou cerca de 350 000 desalojados ou a viver em condições ainda mais precárias das que já eram visíveis anteriormente, devido à crise económica e financeira que se fazia sentir no país. Ana Rita Mendes, 21 anos, escuteira residente em Chaínça (Abrantes) foi apanhada na confusão que reina no Líbano mas dali não quis sair e integra hoje uma equipa de mais de 5 mil escuteiros que estão na ruas de Beirute a ajudar a limpar os destroços e a confortar os martirizados cidadãos libaneses.

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Em declarações ao mediotejo.net, a partir do Líbano, a jovem Caminheira ligada ao Agrupamento de Escuteiros de Rossio ao Sul do Tejo desde os oito anos, disse que foi a 16 de julho para aquele país com o intuito de passar férias com uns amigos escuteiros e que acabariam todos por colocar-se à disposição dos que mais precisavam por causa da explosão.

“Na sequência da catástrofe que atingiu Beirute no dia 4 de agosto mais de 5000 escuteiros da Federação de Escuteiros do Líbano saíram à rua para ajudar e reconfortar os cidadãos devastados e é o que estamos todos a fazer e por aqui vou continuar pelo menos até ao dia 20 de agosto”, disse Ana Rita, que lembrou os momentos da explosão no porto de Beirute.

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“Estava a arranjar-me para sair de casa quando senti a casa tremer e as janelas abriram-se com uma espécie de rajada de vento. Ninguém percebera o que se passara. Começaram todos a falar Libanês e eu sem perceber rapidamente entrei num pequenino pânico. Depois do Joseph me explicar que achava que tinha sido um terremoto, agarrei no passaporte e começamos a descer as escadas. Fomos abordados a meio da descida por uns vizinhos que disseram “Não é um terremoto, houve uma explosão”, relatou.

“Voltamos para casa, ligamos a tv e começamos a ver o pânico. Ninguém ainda percebera o que se passara, nem os próprios jornalistas que andavam meio perdidos por Beirute à procura do assunto do dia. As horas foram passando e fomos recebendo cada vez mais informação do que se passava. A modos que pensei em não dizer aos meus pais para não os preocupar mas acontece que passado 30 minutos tinha a minha avózinha a ligar-me e rapidamente percebi que a dimensão era maior do que o que pensava. As horas que vieram foram horríveis e as imagens a que íamos tendo acesso eram chocantes. Já falávamos em comprar um bilhete de avião para mim”, lembra, mas tal não chegou a suceder.

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“Essa noite passou e no dia seguinte percebemos que havia muito por fazer e que ser escuteiro não é só usar a farda mas é agir quando o dever chama. Juntei-me a um grupo de escuteiros amigos e dirigimo-nos a Mar Mikhael e Ashrafieh, duas zonas da cidade que se encontram mesmo ao lado do porto de Beirute, e procurámos serviço. Na realidade não procurámos serviço nenhum, bastava olhar à nossa volta e ver o rasto de destruição. Casas desmoronadas, pequenas lojas de comércio local sem janelas, e com os proprietários sentados à porta para que ninguém lhes levasse o mínimo que a sua vida ainda tinha, que me olhavam com uma profundidade que não consigo colocar em palavras, carros pisados com pedaços de casas maiores que eu, um rasto de vidros no chão que quase nos impediam de olhar em volta com medo que nos acontecesse o que aconteceu a outros”.

“Irreconhecível. Inimaginável. Intolerável. Doeu-me o coração em cada segundo que lá estive”, conta a jovem caminheira, que integra um grupo que, além de mudar janelas, apanhar vidros, limpar e tentar garantir que as pessoas voltam a ter um local confortável para estar e para poderem seguir com as suas vidas, também doam sangue e distribuem comida.

“Começámos por ajudar o padre do grupo de escuteiros que tinha a casa virada ao contrário e sem janelas. Limpamos tudo e tentamos recuperar o que era possível. Dividimo-nos em grupos, abordávamos as pessoas e perguntávamos se precisavam de nós. Havia muitas casas abandonadas porque as pessoas se encontravam internadas”.

No meio de toda aquela destruição, conta, ainda “é possível encontrar um pouco de esperança. Vêm-se escuteiros a limpar as ruas e a recuperar casas, vêm-se associações e organizações não-governamentais a distribuir comida e a curar feridos, vêm-se indíviduos com carrinhas a recolher o lixo das ruas. Nos dias que se sucederam ninguém desiste da missão de recompor a capital do Líbano”.

Ana Rita constatou nos últimos dias que o povo libanês “tem uma força que jamais, na minha vida, curta ainda, vi. Todos saem à rua para ajudar. ONG´S, associações, indivíduos, escuteiros, todos. Uns ajudam a limpar, outros ajudam a carregar metal e coisas mais pesadas, outros arranjam os cabos de eletricidade, outros distribuem comida e água e ninguém para. Ouvem-se sirenes, gritos, música, tudo. Há tudo. E não há nada. E é isso que me faz voltar a este país vezes e vezes sem nunca hesitar”, afirma, tendo dado conta das críticas feitas a um governo que acabaria por se demitir.

“Ninguém do governo se prontificou a ajudar, não se ouviu um político dirigir-se com coerência a este povo abalado e destruído. E é por isso que toda a gente sai à rua para ajudar, porque por experiência sabem que não podem esperar nada dos dirigentes políticos. Nada mesmo. Nem comida, nem água para os que sem casa ficaram”, conta.

“Muita gente me tem perguntado se há possibilidade de ajudar através de mim. Infelizmente não há muito que possam fazer além de doar a associações e ONG’s de confiança. O trabalho passa muito por mobilização no terreno, o abordar diretamente as pessoas e perguntar-lhes no que podemos ser úteis. Para os interessados em doar, por favor, enviem-me diretamente, terei todo o gosto em informar-vos de maneiras seguras e de confiança para o fazerem”, solicita a jovem escuteira, apelando aos portugueses para que “tenham as mentes cá e as vossas rezas para os libaneses”.

“Nunca antes tinha percebido o que é estar numa situação de emergência e, meus caros amigos, é algo que espero que nunca jamais tenham de viver”, reflete Ana Rita.

A 04 deste mês, a explosão de 2.750 toneladas de nitrato de amónio armazenadas há seis anos no porto de Beirute arrasou vários bairros da capital e provocou 171 mortes e mais de 6.000 feridos, deixando ainda mais de 300.000 pessoas sem casa. Foto: DR

“Aqui aprendi que ser escuteira não é só usar um uniforme durante as atividades nos nossos agrupamentos, regiões ou mesmo a nível nacional, mas é estarmos dispostos a ajudar em qualquer situação, em qualquer canto do mundo, quando o meu semelhante precisa de mim. É necessário colocarmo-nos na posição do outro em todas as circunstâncias e nunca nos esquecermos o que prometemos na nossa promessa de escuteiro”, lembra Ana Rita Mendes, a Caminheira do Agrupamento 697 de Rossio ao Sul do Tejo que foi de férias para terras libanesas e por lá se manterá até dia 20 de agosto a cumprir uma missão inspirada nos valores de Baden-Powell e de verdadeiro espírito de solidariedade e ajuda ao próximo.

Beirute/Explosões | Mais de 600 edifícios históricos afetados, 70 em risco de ruir

As explosões de dia 04 em Beirute afetaram 601 edifícios históricos da capital do Líbano, dos quais 70 estão em risco de ruir, alertaram hoje as autoridades libanesas.

Numa conferência de imprensa, Abbas Mortada, ministro da Cultura em funções no Líbano – o Governo apresentou segunda-feira a demissão -, adiantou que os edifícios históricos, alguns deles património nacional, requerem uma “restauração urgente”, pelo que irão ser reabilitados.

Mortada frisou que os edifícios em causa “não podem ser vendidos” para evitar abusos nos bairros afetados do centro de Beirute, havendo já uma instrução do Ministério das Finanças libanês, que aprovou uma resolução que proíbe as transações.

Segundo a Agência Nacional de Notícias (ANN, estatal) libanesa, a resolução visa “evitar que se explore a atual situação” nas zonas afetadas pelas explosões em Beirute e arredores.

“Queremos dizer aos donos destes edifícios que queremos preservar a história que representam e que, nas próximas semanas, daremos início às obras de reabilitação […] e que não iremos tolerar que alguém queira comprá-los para os destruir e construir outros edifícios novos no coração de Beirute”, declarou Mortada.

Segundo o ministro, também não será permitida a venda dos imóveis sem a autorização do próprio ministério, para se evitar a “especulação” imobiliária e para proteger “o caráter histórico, demográfico e urbanístico” das áreas afetadas.

A 04 deste mês, a explosão de 2.750 toneladas de nitrato de amónio armazenadas há seis anos no porto de Beirute arrasou vários bairros da capital e provocou 171 mortes e mais de 6.000 feridos, deixando ainda mais de 300.000 pessoas sem casa.

c/LUSA

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