Abrantes | Água das Casas cria sistema de defesa contra incêndios

Abílio Dias Alves na sua casa onde ainda se veem mangueiras estendidas em prevenção

Nestas últimas semanas, a aldeia de Água das Casas, em Fontes, no concelho de Abrantes, destacou-se pelas boas práticas da população. Sobretudo entre aqueles que estiveram no palco de combate aos fogos. Após os incêndios de 2003 naquela terra, isolada entre pinheiros e eucaliptos com o rio Zêzere aos pés, só restaram as casas, à volta ardeu tudo. Tal não podia repetir-se e na aldeia o pensamento foi generalizado: e se nos socorrêssemos da abundância de água para criarmos um sistema próprio de defesa? Assim pensaram, melhor fizeram. Com Abílio Dias Alves no comando operacional. O mediotejo.net foi conhecer a história desta iniciativa popular.

Ao final da tarde, no dia 25 de agosto, o ti’ Abílio, como é conhecido em Água das Casas, esperava que o repórter do mediotejo.net chegasse para mostrar como tudo acontece por lá quando o alarme contra incêndios é accionado. Não que seja um verdadeiro alarme no sentido físico, mas um guia sensorial e visual ligado quando os cerca de 40 residentes naquela povoação da freguesia de Fontes avistam lá ao fundo as primeiras colunas de fumo a elevar-se aos céus. É tempo de ligar as máquinas e estender os cerca de mil metros de mangueira pelas ruas e casas da aldeia. Tudo fica em prevenção. A experiência de outros fogos, nomeadamente do grande incêndio há 14 anos, indica que no sopro forte do vento, as chamas correm velozes e se a má sorte as empurrar até ao vale, Água das Casas pode muito bem ser a próxima povoação de aflitos.

“Em 2003 não houve cá bombeiros e então tivemos de defender isto”. Abílio Alves fala no plural referindo-se às gentes da povoação que, unida e munida com tratores e caldeiros de água, defenderam como podiam as habitações.

Na abundância de água naquela zona da freguesia de Fontes encontraram a solução “para a primeira linha de combate, não para substituir os bombeiros”, até porque sabem-se incapazes de dominar “um grande incêndio”, afirma o homem que desenvolveu a ideia, de 86 anos, ainda presidente do Centro Social Cultural Recreativo e Desportivo (CSCRD) de Água das Casas.

Um dos tanques de que ligado por tubos a outros constrói a rede de água do sistema de protecção

Foi esta associação que levou para a frente a construção do sistema acalmando os espíritos dos residentes.”Sentimo-nos muito mais sossegados”, garante. É que em Água das Casas quase todas as moradias possuem tanques reservatórios de água nos quintais anexos. O que sugere sem dúvidas a toponímia do lugar.

“Os vizinhos estavam de acordo. Estávamos todos dentro do mesmo barco”, afirmou. E assim, em 2005, na contabilidade dos metros das ruas e da altura das elevações realizaram um estudo para perceber qual a máquina indicada, capaz, com tal motor “que com pressão conseguisse colocar água” nos pontos mais altos da pequena povoação.

Abílio Dias Alves pôs os pés ao caminho que o levou até Lisboa onde adquiriram a máquina que puxa a água dando pressão às duas bocas-de-incêndio colocadas estrategicamente. A máquina está guardada num depósito junto a um tanque porque “só puxa a água a seis metros” embora empurre até onde tem força, explica.

A máquina que faz a maior parte do trabalho

Estamos sentados na adega de Abílio, e porta aberta para o rio Zêzere em descanso ao fundo. Nos dias que correm já não zumbem helicópteros por cima das nossas cabeças. Há tranquilidade, embora as mangueiras continuem estendidas por toda a aldeia. “Não serão guardadas até que venham as chuvas e os campos refresquem”, assegura.

Especialistas “indicaram-nos estas mangueiras que são utilizadas pelos bombeiros” para ligar então aos hidrantes que o ti’ Abílio apelida de “marcos”. Cada uma dessas bocas-de-incêndio vermelhas tem três saídas para mangueiras, duas mais estreitas usadas pelos populares e uma mais larga usada pelos bombeiros. Foram adquiridas em Ourém.

Com o sistema de combate aos incêndios os 40 residentes em Água das Casas sentem-se mais protegidos

Para colocar os tubos de plástico, que ligam os vários tanques de água uns aos outros debaixo da terra, contaram com o apoio do Município. A Câmara Municipal de Abrantes cedeu ao pedido da associação e “mandou uma máquina” para ajudar a população a abrir as valas. Apesar de no início “existir uma dúvida generalizada sobre a nossa capacidade de realizar a obra”, lembra Abílio. Mais tarde, após a inauguração, “a Câmara ajudou com cinco mil euros” e a associação financiou o resto do orçamento.

Como qualquer associação de uma pequena povoação o dinheiro para ali realizar melhoramentos retira-se nas festas que o povo prepara durante o ano e de alguns apoios autárquicos. Abílio, que após 32 anos a trabalhar na Carris regressou a Água das Casas em 1990, sempre foi activo na sua terra natal mesmo a residir em Lisboa, desde o tempo que o CSCRD ainda era Comissão de Melhoramentos.

Apesar do incêndio já ser passado as mangueiras continuam de prontidão pelas ruas de Água das Casas

E até ao dia 12 de agosto, quando arderam cerca de 1000 metros quadrados, o sistema não se havia estreado a apagar de fogos. “Era usado todos os anos para limpar as ruas depois das festas”. Até porque convém ser utilizado “para dar movimento ao motor”, correndo risco de ficar inutilizado por falta de uso.

No dia do incêndio, chegado de Vila de Rei atravessando o Zêzere através de uma projecção, “todos disponibilizaram os seus tanques de água. Naquele dia não seria para a rega mas para apagar o lume”, refere.

A fonte é permanente. Vem de uma nascente do cimo das serrarias descendo até ao vale. Agora já canalizada por tubos de plástico formando uma rede, deixando para trás o tempo em que passava por uma levada. “A água é dividida de noite e de dia. Antigamente regava-se à meia-noite” se essa fosse a hora do giro, agora os tanques enchem às horas atribuídas a cada um dos regantes para ser usada sem restrições à hora que entenderem, explica.

Na ponta da aldeia onde fica situada a casa de Abílio Alves não há boca-de-incêndio por isso compraram “um motor próprio só para esta parte”.

E o fogo pode chegar a qualquer momento enquanto o calor insistir em ficar. No incêndio de Agosto “o lume andava mais rápido que um automóvel. Jesus, foi horrível!” recorda. E o sistema já mostrou ser uma mais-valia. Embora “não fizesse mal que não mostrasse”.

Um motor de retirar água do tanque de Abílio Alves

Conta que quando os bombeiros chegaram a Água das Casas os populares já “estavam espalhados” pelos pontos de fogo. E lembra que nesse dia aconteceu algo caricato, “um carro de bombeiros ficou sem água e depois teve de se encher com uma mangueira das nossas”.

A primeira operação passa por “molhar tudo à volta das casas”, sendo esse o principal objectivo do sistema: a defesa das habitações. Mal-grado ser uma população envelhecida para puxar mangueira, enfrenta-se o fogo sem medos e com a disposição de um combatente, bastando dois homens para o serviço. “A gente enfrenta a vida conforme ela for”, justifica.

Água das Casas ao fundo com um dos tanques de água numa horta

Também a presidente da Junta de Freguesia de Fontes reconhece que no dia do incêndio ao deslocar-se, em conjunto com a presidente da Câmara de Abrantes, Maria do Céu Albuquerque, e a Protecção Civil, a Água das Casas  “a população já estava a accionar o sistema”.

Viver no meio de tanto verde “é muito bonito mas ao mesmo tempo medonho. Cada vez que há um fogo – e todos os anos vivemos isto – não há palavras para explicar o sentimento”, confessa.

Por outro lado, sobressai um espírito de união. “Tudo ralha porque todos queremos soluções que naquele momento não existem”. A autarca frisa ainda “o medo” que se apodera das populações, apesar de este ano em Água das Casas o fogo que lavrou na encosta do rio ser “prontamente” apagado. “Foi só um susto”

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