Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -
Sexta-feira, Maio 14, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Abrantes | Acácio Teixeira e a paixão pela música que fez nascer um professor há 35 anos

Acácio Teixeira, 54 anos, estudou piano e acordeão, começou a sua carreira de professor de música no Instituto de Música Vitorino Matono, em Lisboa, e em 1985 trocou a capital por Abrantes. Foi aí que abriu a sua própria escola de música, lecionando paralelamente noutras escolas. Diz que nunca lhe faltou trabalho e, mesmo em cenário de pandemia, as aulas não pararam. A solução passou pelas aulas online – embora só com aqueles que tinham instrumento em casa. O mediotejo.net foi conhecer o seu projeto de educação artística e saber como se tem adaptado a estes novos tempos.

- Publicidade -

Num ano, esta é a segunda vez que a Escola de Música Acácio Teixeira fecha portas em Abrantes. Neste contexto de isolamento social, devido à pandemia, foi preciso contornar os diferentes graus de dificuldades, aprender a lidar com as ferramentas tecnológicas, mostrar as pautas através de um ecrã, desculpar as falhas e o delay (atraso) comum nas comunicações online.

Mas “nem tudo é mau” garante Acácio Teixeira reconhecendo contudo que “nada é comparável ao ensino presencial”, até pelos aspetos técnicos a ensinar, como a postura, a forma de pegar no instrumento, a utilização dos dedos, que são “muitos difíceis” de passar online. Contudo, defende uma atitude “otimista” perante o cenário de ensino à distância.

- Publicidade -

Acácio Teixeira durante uma audição com os alunos da sua Escola de Música. Créditos: DR

Face aos desafios que a covid-19 está a colocar também sobre o ensino artístico, a única solução viável para proporcionar aos alunos alguma continuidade na aprendizagem passou, então, pelas aulas virtuais, ainda que “transitoriamente”. O ensino musical “não pode funcionar sempre online”, considera, mas assume ser possível “trabalhar a leitura musical e fazer atividades viáveis”, com limitações.

Encontrou alternativas pedindo aos alunos para enviarem vídeos com as suas composições musicais. Assegura que, desta forma, “consegue-se uma melhor qualidade sonora” porque “a Internet pára e parece que o aluno não está a respeitar o tempo e fica com oscilações rítmicas”. Com os vídeos sente que existe da parte dos alunos um maior empenho em tocar bem, e até várias vezes, para resultar numa gravação bonita. “Isso é bom para o seu desenvolvimento”, afirma.

Pelo menos, Acácio Teixeira e a sua mulher Maria Manuel – também ela professora de música na mesma escola, especializada no ensino de crianças do primeiro ciclo – têm escapado ao quebra-cabeças que é tentar dar uma aula a vários alunos ao mesmo tempo através das plataformas digitais, porque naquela escola as aulas são individuais, decorram de forma presencial ou em formato online.

Os alunos só têm aulas em conjunto quando se preparam audições ou espetáculos, por norma dois por ano; um no final do ano letivo e outro no Natal, o que não aconteceu em 2020. Por isso, poupam-se ao desânimo que provoca o atraso comunicacional online e que impede qualquer sincronização entre os vários instrumentos.

VEJA AQUI O CONCERTO DO NATAL PASSADO EM FORMATO ONLINE

Contudo a pandemia, mesmo ao nível do ensino musical, trouxe “coisas úteis”, designadamente no que toca à interação com os pais. “Antes da pandemia muitos pais pensavam que aprender música era despejar o filho na escola e ir à sua vida” refere o músico. As aulas online obrigam os pais a “perceberem o que se faz, o esforço que implica e que é necessário para que os seus filhos possam progredir. Só agora muitos pais se apercebem o que envolve o estudo da música e têm ajudado muito os seus filhos”. Essa consciência conquistou pelo menos mais dois adultos para o estudo musical.

Reconhece que com ensino à distância, os alunos sem instrumento em casa ou condições para ter sessões online, “não puderam ter aulas”. Embora em número reduzido, aconteceu.

Apesar da experiência até correr bem, Acácio Teixeira sente falta do contacto direto com as pessoas, “o mais importante que existe”, diz. E, depois, dos espetáculos. “As crianças gostam muito das audições, há sempre uma certa vaidade, um gosto em poder apresentar o que fazemos”, sendo também importante pedagogicamente. Aponta como necessárias as rotinas que ajudam a estabelecer metas e alvos. “As pessoas acomodam-se muito. Um aluno que sabe que tem um espetáculo tem uma atitude e um trabalho diferente”.

O músico Acácio Teixeira e os seu alunos em concerto. Créditos: DR

O despertar para a música graças a Amarilis Matono

Acácio Teixeira nasceu a 1 de outubro de 1967, em Lisboa, onde iniciou os seus estudos musicais, nomeadamente a técnica de acordeão aos sete anos, no Instituto de Música Vitorino Matono. Concluiu o Curso de Acordeão e de Piano do Conservatório de Música de Lisboa, mas ainda estudou guitarra clássica e violino.

“Era muito útil para as aulas em conjunto”, explica, considerando o piano “um instrumento muito solitário”, enquanto o violino “era o instrumento mais portátil para essas aulas”. Quanto a classificar os instrumento em níveis de dificuldade, Acácio Teixeira diz que “cada instrumento tem as suas especificidades”, a começar pela vocação de cada aluno. Curiosamente, confessa ter dificuldades em instrumentos de sopro.

Acácio Teixeira entrou para a escola primária em Lisboa quase por acaso. “A minha mãe tinha uma amiga que era costureira. O neto começou a frequentar aulas de música no Conservatório e minha mãe perguntou-se se também gostaria de aprender música. E eu fazia o que a minha mãe mandava”, conta a rir.

Confessa que inicialmente a experiência decorreu sem sedução, mas depois o professor Amarilis Matono despertou-lhe a paixão pela música, tendo sido o seu principal motivador. “Despertou-me o gosto. Fiz o meu percurso na vertente artística e também no ensino regular. Não posso dizer que tenha nascido comigo a vontade de ser músico mas providenciou-se, a vida levou-me à música e dediquei-me a ela”.

Recorda que no seu primeiro ano de Conservatório os alunos da sala ao lado “saiam sempre com um estado de espírito completamente diferente” do seu. “Lá consegui arranjar uma forma de incompatibilizar horários, de modo a poder mudar para a aula do outro professor”.

Na música, como em qualquer outra área, artística ou não, “é muito diferente trabalhar com alguém que tem paixão pelo que faz”, justifica. Para ensinar música, “também não basta ter competência”. Acácio Teixeira mantém contacto com Amarilis Matono, que não sendo músico profissional, trabalhava como professor de matemática por ser engenheiro químico. “Era (e é) um grande músico!”

Acácio Teixeira chegou a inscrever-se numa licenciatura de engenharia mas, como terminara o curso de piano, tornou-se professor de acordeão na orquestra no Instituto de Musica Vitorino Matono em Lisboa. Entretanto surgiu a oportunidade de trabalhar no Conservatório Regional de Tomar. Em 1985, diz, “não havia ninguém em Abrantes a ensinar música”, e foi então que uma nova possibilidade se desenhou à sua frente.

Em janeiro desse ano nasceu a Escola de Música Acácio Teixeira. No entanto, até 2009 continuou a dar aulas no Instituto Matono, saindo quando iniciou docência no Conservatório de Música do Coral Phydellius de Torres Novas, como professor de acordeão, onde permanece, tal como na Ourearte – Escola de Música e Artes de Ourém.

O músico diz com convicção que poderia trabalhar noutra profissão qualquer. “Engenheiro, contabilista ou o que fosse. Tudo o que faço tem de ser com paixão. Se tivesse outra profissão, só a teria se gostasse”, vinca.

Falando em gostos, manifesta ainda interesse pela literatura e filosofia. A propósito desta últim,a recorda o pensamento dos antigos gregos, que associavam à boa formação do carácter a formação em música. Confessa que tirar um curso de filosofia, no futuro, é uma hipótese que não descarta.

O músico Acácio Teixeira e um aluno a tocar acordeão. Créditos: DR

Uma escola de música dos 5 aos 92 anos

Artisticamente “estamos sempre insatisfeitos mas plenamente realizados”, diz. “Esse sentimento de gratidão, de bem estar, de fazer o que gostamos”, é algo que muito valoriza. “Todos os dias vou trabalhar com prazer. A arte serve para nos colocar para cima, por em nós o que há de melhor”.

E nessa atividade, há 35 anos que Acácio Teixeira, e também Maria Manuel Teixeira, são referência como professores de música no concelho de Abrantes. Por ano letivo contam com cerca de 50 alunos. Todos os anos saem e entram novos, havendo já três gerações (avó, mãe e neto) como alunos daquela instituição.

No Verão recebe na sua Escola filhos de ex-alunos, que emigraram e que nas férias fazem um curso intensivo. “Miúdos que moram na Alemanha, no Luxemburgo, em França”, aprendem música em Abrantes, especialmente nos meses de junho e julho.

Na Escola de Música Acácio Teixeira o aluno mais novo tem cinco anos e o mais velho tem 92 anos. Na verdade, é uma aluna: a senhora Clarisse Albuquerque, de Abrantes, embora a Escola tenha alunos de vários pontos da região. O professor refere que Clarisse, aluna de piano e violino, manifesta saudades de voltar e revela-se ansiosa com o fim da pandemia, também para regressar à música. Para a idosa funciona como uma terapia.

Nestes 35 anos de existência, a Escola encerra outras histórias de vidas que sonhavam em tocar um instrumento, como a de uma professora do ensino primário, com o sonho de aprender piano. Um acidente levou à realização desse sonho já na idade de reforma. O piano ajudou a que voltasse a mexer os dedos da mão esquerda “e ainda tocou umas peças muito interessantes”, recorda Acácio Teixeira.

Acácio Teixeira durante uma audição com os alunos da sua Escola de Música. Créditos: DR

Muitos alunos, várias escolas, poucos músicos

Na verdade, as últimas décadas revelaram a democratização do ensino artístico, nomeadamente musical. É hoje uma realidade social, cultural e formativa incontornável no desenvolvimento do sistema educativo em Portugal, mas terá a música, apesar disso, uma expressão algo limitada?

Acácio Teixeira considera que sim. No passado, o estudo da música surgia por vontade ou vocação e muito pouco por experiência. “No Conservatório em Lisboa entrava quem tinha potencial e depois sujeitava-se a um trabalho muito exigente. Atualmente há uma certa desorientação. Não só na música, aplica-se em tudo”, critica o professor.

Para Acácio Teixeira a aposta no ensino artístico “é boa” ou seja, “a rede aumentou, apanha muito peixe”, mas representa, em número de músicos, “o mesmo que havia há 30 anos”. Isto porque, o ensino musical “exige foco e poucos miúdos estão vocacionados para isso”, alega. Reconhece a utilidade da educação musical e diz passarem pela Escola “alunos com um talento incrível, mas depois falta-lhe o foco necessário para poderem exponenciar as suas capacidades”.

O professor fala numa geração multifunções que reage muito a estímulos. “Entram em várias atividades. Os pais acham que os filhos têm de ser bons em tudo, experimentar tudo… atualmente quase todas as crianças aprendem música por isso aumentou o número de conservatórios e muitas escolas de música e de dança, etc. Isso é muito bom mas as pessoas estão muito dispersas, há muitos jovens que têm contacto com a música mas não chegam a conhecer a música porque esta exige trabalho e rotina, para o qual não estão preparados”.

Na sua juventude, Acácio Teixeira tocava em diversos espetáculos. Era contratado por “muitas empresas de instrumentos musicais, sobretudo de teclados, órgãos e pianos eletrónicos” para apresentações. Foi demonstrador de algumas marcas e chegou a ir ao estrangeiro nessa missão. Quando se dedicou ao ensino deixou de tocar mas, há 4 ou 5 anos, “surgiu novamente o bichinho de tocar em público”, com propostas para participar em projetos.

Recorda a formação do Ensemble Cassotto e o concerto de Ano Novo em Abrantes, há dois anos, mas diz ter sido “uma brincadeira” com alunos seus finalistas “muito talentosos”. Diz ter surgido a ideia de fazer um agrupamento com música de câmara. “Foi bom para a sua formação porque estavam em fase pré-universitária e para mim também foi muito agradável”, devido ao bom nível artístico. “Ainda fizemos três ou quatro espetáculos muito interessantes”, conta.

Alunos de música da Escola Acácio Teixeira em Abrantes. Créditos: DR

Sublinha que aprender música “é ir além de tocar um instrumento. É saber ouvir, criticar”. Aprendizagens que ficam para a vida, defende Acácio Teixeira, que também tem um filho músico. Nataniel Sousa, de 30 anos, atualmente a trabalhar no Brasil, cresceu na Escola de Música dos pais, onde se pode aprender piano, acordeão, guitarra clássica, elétrica, acústica e violino.

O futuro passa por continuar com o seu projeto artístico. “O crescimento é o nosso crescimento interior e o crescimento e a valorização pessoal dos nossos alunos. O espaço sabemos que não é para crescer mais. O meu objetivo não é criar um negócio da música, uma empresa que massifique o ensino musical”, mas uma atividade que realize os dois professores de música daquela instituição: Acácio e Maria Manuel.

O professor, que nos últimos anos se tem dedicado ao acordeão de concerto, explica ser um instrumento “relativamente moderno, de raiz tradicional”. Recorda que nos anos 1980 Vitorino Matono trabalhou para que o curso tivesse o reconhecimento oficial. “Devido a isso muitas escolas abriram cursos de acordeão e houve necessidade de formar professores para dar aulas nessas escolas”.

Fala do acordeão, com o qual toca Mozart ou Bach, como “um instrumento extremamente completo”, contrariamente ao pensamento corrente, como sendo apenas um instrumento de música popular. “Sobretudo o acordeão de concerto, ensinado nos conservatórios e nas universidades, um instrumento que nasceu em 1959, tem muito potencial de crescimento, amplos recursos e é pouco conhecido. Um acordeão é praticamente um órgão litúrgico – que tem dois teclados e pedais – mas portátil”, explica.

Segundo Acácio Teixeira, o interesse na aprendizagem de acordeão existe, embora na sua Escola de Música tenha apenas cinco alunos nessa arte, não só pela falta de reconhecimento desse instrumento como “completo” mas sobretudo por ser “extremamente caro”.

Por isso defende que as autoridades oficiais terão, num futuro próximo, de apoiar a sua aquisição, seja através de uma política de subsídios seja de empréstimo. “É muito difícil para uma pessoa comum, para os pais de um aluno, poder comprar um instrumento decente. Já apareceram alunos com um potencial incrível, que até poderiam seguir um curso superior, mas não podem porque não têm capacidade financeira para comprar um acordeão de concerto”.

Nota que um modelo básico, para um curso superior de acordeão – em Portugal existem em Castelo Branco, Évora e Aveiro –, custa no mínimo 15 mil euros.

Como pianista, Acácio Teixeira acompanha ainda o Orfeão de Abrantes e o Coral Polifónico de Ponte de Sor, e com o acordeão tem trabalhado com a soprano Manuela Moniz. “Há certo reportório que não fica nada atrás de um piano, muito pelo contrário, até valoriza. Há muita coisa a descobrir”. Assim a pandemia dê tréguas e nos permita voltar a poder apreciar concertos como estes ao vivo.

O músico Acácio Teixeira com o seu acordeão de concerto. Créditos: DR

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

- Publicidade -
- Publicidade -

COMENTÁRIOS

Please enter your comment!
O seu nome