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Segunda-feira, Setembro 27, 2021

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Abrantes | Abrancongelados supera pandemia e posiciona-se entre as 1000 melhores PME do País

A Abrancongelados integra o ranking da revista Exame das 1000 Maiores PME a operar em Portugal. Uma análise ao universo das Pequenas e Médias Empresas e aos seus dados financeiros no final do último exercício com contas completas, ou seja o de 2019, a empresa de Abrantes classificou-se na 873ª posição, “uma surpresa” para Jorge Batista, um dos fundadores da Abrancongelados, com quem o mediotejo.net falou para ficar a conhecer esta história de empreendedorismo. Entre as preocupações: manter os postos de trabalho. Entre as dificuldades: adquirir matéria prima num mundo global onde a China controla.

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O relatório tem a assinatura da revista Exame. Para serem consideradas entre as 1000 Melhores PME portuguesas foram instituídos alguns critérios de seleção, designadamente relacionados com dimensão, propriedade e organização empresarial. Os indicadores que fazem o retrato económico e financeiro das empresas e a avaliação da sua performance servem de base à escolha das melhores. O ranking compreende as maiores PME do País por volume de negócios de 2019, aquelas que mais se destacaram, setorialmente, onde se insere, pela primeira vez, a abrantina Abrancongelados.

Esta empresa nasceu em maio de 2007 pelo arrojo de Jorge Batista e Carlos Pombo. “Começamos com um pequeno armazém” em Abrantes “e um pequeno escritório onde cabiam três pessoas. Foi aí que a Abrancongelados deu os primeiros passos; sem clientes, sem dinheiro, apenas com a ajuda do banco. Muitas dificuldades, com inexperiência de gerir o quer que fosse. Durante a nossa vida sempre fomos empregados e arriscamos um desafio novo”, contou Jorge Batista ao mediotejo.net.

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Empresa Abrancongelados, em Abrantes. Créditos: DR

O empreendedor e o sócio Carlos trabalhavam numa empresa de congelados que atravessava dificuldades. “Tínhamos duas hipóteses; ou íamos para o desemprego ou fazíamos a nossa empresa”, lembra. São primos, o que facilitou a relação empresarial. “Eu andava na rua e o Carlos no escritório. Fizemos um projeto e Bruno Bexiga – colega na mesma fábrica – abraçou o nosso projeto”, como funcionário. Estava reunida a equipa inicial.

Arriscaram “um tiro no escuro” numa altura de crise, com as entidades bancárias a não facilitarem os créditos, particularmente sendo “uma empresa sem histórico”. Começaram com carros em segunda mão, com dificuldade na compra de matéria prima. “Foi difícil. Fomos para a rua sem saber se os clientes aderiam à Abrancongelados. Na altura havia – e há – muitas empresas do ramo. Arriscámos tudo”, diz Jorge Batista.

Catorze anos depois, recorda que no mês de dezembro do primeiro ano de negócio venderam “cerca de 300 mil euros” e sentiram necessidade de recrutar um vendedor “para dar um pouco de fôlego” à empresa. No ano de 2008 já eram quatro, hoje são 70 trabalhadores na Abrancongelados.

Naquele segundo ano aumentaram as vendas para cerca de 600 mil euros, sendo que nos anos seguintes o volume de negócios foi aumentando gradualmente. Em 2011 o espaço tornou-se pequeno. “Tínhamos frio alugado em Alferrarede, Peniche e Riachos e a logística era muito complicada”, conta.

Empresa Abrancongelados, em Abrantes. Créditos: DR

Dessa forma, nasceu um novo projeto para um novo pavilhão tipo entreposto. Essa era a ideia mas um programa de incentivo levou os empresários mais além. “Se a empresa tivesse também a parte da transformação” ou seja, comprar o produto em bruto para ser transformado na fábrica, poderiam ver uma candidatura aprovada. E assim aconteceu, o que levou os empresários a comprar um terreno na zona industrial de Abrantes. Como a empresa não parou de crescer, hoje estão a concluir um outro projeto num investimento de dois milhões de euros.

O maior desafio “foi começar – não tínhamos rigorosamente nada, nem um cliente -, e partimos para a rua com um investimento de cerca de 100 mil euros. O sucesso está relacionado com o trabalho feito ao longo do tempo”, reflete Jorge Batista.

Atualmente a Abrancongelados está longe de ser uma empresa familiar, mas essa foi uma característica própria durante muitos anos. Para dar resposta ao mercado implementaram o trabalho por turnos, e o projeto cresceu e transformou-se, embora Jorge e Carlos continuem “a tratar as pessoas da mesma maneira”, ou seja de forma próxima. Porque sem a ajuda dos trabalhadores “não era possível ter chegado onde chegámos”, reconhece o empresário. Parte deles permanece desde o início do caminho, palmilhado há 14 anos.

Empresa Abrancongelados, em Abrantes. Créditos: DR

A classificação conseguida no ranking da revista Exame, na posição 873 relativamente a 2019, apresenta-se para Jorge uma surpresa. “Francamente não estava à espera. Trabalhamos dia a dia, tal e qual como sempre fizemos. Quando recebi o e-mail ficámos estupefactos com a posição em que estávamos. É um motivo de orgulho. Que nos incentiva a caminhar cada vez com mais determinação e mais foco”.

Declara ambições em crescendo. “Queremos ser um empresa mais sólida, mais coesa. Antes de 2019 houve muitos anos de sacrifício, muito suor, muitas horas, quase dia e noite, e que levou a este reconhecimento”.

O “muito trabalho” reflete o sucesso, mas Jorge recorda que a empresa “apanhou todas as crises. Logo quando arrancámos em 2007, depois em 2012 há outra crise enorme em que baixam o plafond de seguro, a banca volta a não financiar. Entretanto superámos, estamos a terminar este investimento de 2 milhões de euros e chega a pandemia de covid-19. Estamos a morrer do mal e estamos a morrer da cura” afirma lembrando a aposta no ramo alimentar “e queremos manter os postos de trabalho. O que vem aí não vai ser fácil para ninguém”, vaticina.

Em 2014, quando a empresa mudou de instalações para a zona Industrial de Abrantes, Jorge e Carlos pensaram que “seria o armazém da nossa vida”. Mas com o aumento das vendas e das encomendas, voltaram a ter produto “espalhado um pouco por todo o País, desde Peniche até Riachos” e sentiram necessidade de reforçar o investimento nas instalações, quer ao nível do frio quer ao nível de maquinaria.

Construiu-se “uma câmara para conseguir armazenar todo o produto e fizemos um investimento na maquinaria de corte, de congelação, de embalamento, tudo de última geração para conseguirmos satisfazer as encomendas”, relata.

Jorge Batista e Carlos Pombo, fundadores da empresa Abrancongelados, em Abrantes. Créditos: DR

Apesar da pandemia, em 2020 a Abrancongelados superou as expectativas da dupla de empresários. No ano passado faturou cerca de 13 milhões de euros. “Superámos, aumentámos mais 9% o volume de faturação, mais um milhão de euros. Temos clientes diversos: de retalho – hotelaria, restauração, minimercados, lares; distribuição moderna, grandes superfícies – hipermercados; e exportação. Na distribuição moderna aumentámos bastante as vendas, na restauração e hotelaria, cantinas, escolas e concursos aos quais concorremos no inicio do ano foi uma catástrofe; a exportação também parou. As grandes superfícies deram um impulso para conseguirmos superar o ano anterior”, atesta.

A pandemia também obrigou a aumentar o investimento em recursos humanos. “Tivemos de alterar, contratar mais pessoas, separar turnos, desfasamento de horários, para evitar trabalhadores juntos. Cumprimos o plano de contingência, a empresa está encerrada a pessoas estranhas ao serviço para evitar contágios, mas não é fácil”. Jorge dá conta de, no início da pandemia, a empresa ter tido “16 pessoas em casa devido à covid-19. Com as encomendas a saírem todos os dias tornou-se difícil, tivemos de contratar e adaptar-nos a esta realidade”.

Neste momento Espanha é o país para onde a Abrancongelados mais exporta, algumas parcerias com o Brasil, México, China e, apesar da pandemia, quer continuar a apostar na internacionalização. Aliás, neste momento, não fosse a covid-19, e já estariam em África.

“Temos uma série de feiras nos CPLP onde está Guiné, Angola, Moçambique e passava um bocadinho por aqui. O foco este ano seria apostar na internacionalização com algumas feiras e com algumas parcerias para aumentar a exportação”, contudo o futuro permanece uma incógnita.

Empresa Abrancongelados, em Abrantes. Créditos: DR

Numa economia global cada vez mais controlada pela China, a Abrancongelados ainda tem “alguma venda” no antigo Império do Meio, mas em menor quantidade.

“A China é mais para vender do que comprar. Antigamente não era assim mas agora detém o monopólio da compra nos mercados tradicionais onde comprávamos. Quando lá chegamos não há produto porque os chineses já compraram tudo e depois temos de comprar à China. A pouco e pouco vai tomando conta do mundo”, afirma.

No pescado, por exemplo, “gostamos de ter o melhor, que é camarão selvagem de Moçambique. A China conseguiu comprar todos os barcos em Moçambique e neste momento domina o mercado. Toda a pesca é feita por barcos chineses que pescam, congelam, levam para a China e aquilo que não querem, vendem. Cada vez há mais dificuldade”, nota.

A falta de matéria prima apresenta-se como mais um desafio a ultrapassar. “O consumo de peixe aumentou mas as reservas estão-se a esgotar e estamos a entrar na aquacultura. É o resultado de disparates feitos ao longo dos anos, destrói-se tudo e mais alguma coisa”, lamenta.

Contudo, aquilo que mais preocupa Jorge Batista passa por manter os 70 postos de trabalho. “É muita gente. Antigamente éramos três, não tinha essa preocupação”. Agora são 70 famílias que dependem da empresa e “se falta o trabalho, é um problema”.

O produto rei, como o próprio nome indica, “é congelado. Compramos diretamente a barcos, a armadores, e depois é transformado na fábrica” em Abrantes. “Tudo o que seja pescado, desde a pescada, passando pelo bacalhau até à sardinha” leva a marca Abrancongelados, explica Jorge. Aliás, é a única empresa do distrito de Santarém e também do vizinho distrito de Castelo Branco “a comprar em bruto e a transformar, podendo “colocar a marca do cliente, se este assim o entender”. No entanto, trabalham diariamente “para defender a marca Abrancongelados, para ser reconhecida nacional e internacionalmente pela sua qualidade”.

Além do pescado têm ainda outros produtos como “legumes, pré-cozinhados, que compramos a outras empresas” mas igualmente com a marca abrantina. “O mercado como o Brasil tem algumas tradições portuguesas, tal como África. Gostaríamos de colocar lá pasteis de bacalhau, pasteis de nata, bacalhau, sardinha, produtos típicos nossos e com muita qualidade. Dar a conhecer aquilo que Portugal tem de bom”, sublinha.

Para colocar o concelho de Abrantes líder de exportações no Médio Tejo, a Abrancongelados “contribuiu com uma fatia significativa. Ficamos contentes com isso. Além de ser bom para nós, levamos o nome de Abrantes além fronteiras”, refere, com orgulho.

A Abrancongelados não vende diretamente ao público, ainda que fosse pensada uma loja na fábrica, mas “temos muitos clientes em Abrantes e arredores, não era justo fazer concorrência aos nossos clientes, que nos compram desde o primeiro dia”, justifica Jorge.

Os produtos da Abrancongelados podem ser encontrados em todo o País, em grandes superfícies comerciais. Além disso vendem no distrito de Santarém, Castelo Branco, Évora, Portalegre, Leiria e Coimbra e parte da área metropolitana de Lisboa.

No ramo do pescado a concorrência “é fortíssima”, portanto a estratégia da empresa passa pela qualidade, vinca Jorge. “Escolhemos matéria prima da melhor. E na empresa é feita uma seleção dos produtos para chegar ao cliente o melhor e nas melhores condições. Para chegar ao cliente um produto premium. Queremos a nossa marca cada vez mais forte, que o cliente veja a marca e queira comprar porque sabe ter qualidade. É o nosso desafio diário. Por isso temos três pessoas a trabalhar na qualidade”, detalha.

Quanto ao futuro, além da aposta na internacionalização tendo em vista a exportação, Jorge tem como objetivo principal “manter a estabilidade da empresa. Se possível aumentar os postos de trabalho. Que a empresa consiga dar condições aos colaboradores e ir cumprindo com os compromissos que tem. Irmos fazendo o nosso trabalho como temos feito ao longo destes 14 anos”.

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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