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Quinta-feira, Outubro 28, 2021

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Abrantes | A vida náutica de Barbisco com casa própria em Alvega

São quase 80 anos de vida, grande parte dedicada aos automatismos elétricos e à navegação. No rio ou no mar, numa reunião de memórias, vários barcos e inúmeros objetos náuticos, uma coleção que transformou em museu particular, para ser visitado por familiares e amigos. Batizou-o de Barbisco, alcunha pela qual toda a gente o conhece em Alvega, no concelho de Abrantes. Na verdade, o nome é Raimundo Moutinho Covas, filho de António Covas, fragateiro, pescador, que deixou por herança o amor marítimo e memórias de um Tejo diferente.

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O ano de 1939 – em junho nascia Raimundo Moutinho Covas – ficou assinalado por um acontecimento que marcou a história e até a consciência do mundo. Em Portugal vivia-se o Estado Novo e António Covas, fragateiro, natural de Alvega, morava na capital, no Terreiro do Trigo, mesmo ao lado de Santa Apolónia, chegando a possuir três fragatas e uma canoa para transporte de mercadorias.

Pai há dois meses, com um enteado de cinco anos, além do transporte comercial, que naquele tempo era fluvial, costumava fazer-se ao rio para trazer a terra os marinheiros e militares norte-americanos atracados em águas portuguesas, ávidos por diversão e copos de vinho, que o whisky seria mais um hábito de cowboys.

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Naquele dia 31 de agosto de 1939 recebera a proposta de emigrar para San Diego, na Califórnia, do Almirante de um dos três barcos norte-americanos ancorados na doca em frente a sua casa, com a missão de tomar conta do seu barco. E a título de pagamento inicial recebeu das mãos do estrangeiro um envelope cheio de dólares.

Fotografia de António Covas, pai de Raimundo Covas, no Museu Barbisco, em Alvega

António Rodrigues Covas estava decidido a embarcar até outro continente mas, em conversa com a mulher, Ester Benvinda Moutinho, também natural de Alvega, rapidamente foi demovido, percebendo a dificuldade que seria partir para a América com um recém nascido e uma criança pequena.

Na manhã seguinte, de 1 de setembro de 1939, como habitualmente, António assomou-se à janela e ficou de boca aberta. Chamou a mulher. Queria certificar-se não estar mal da vista, porque os três barcos norte-americanos que no dia anterior eram brancos, apresentavam-se completamente cinzentos.

Rebentara a Segunda Guerra Mundial e os marinheiros norte-americanos “tinham passado a noite a pintar os barcos” diz Raimundo Covas ao mediotejo.net. Pelo menos era assim que o pai contava a história, porque Raimundo, na época um bebé, não tem memórias de tal. Guarda, no entanto, naquela que é a sua coleção particular batizada de Museu Barbisco, garfos e colheres com o registo militar dos Estados Unidos. “Não fomos para a Califórnia. Se tivéssemos ido talvez hoje fosse Presidente”, graceja.

Com a Guerra, “os barcos não entravam nem saíam de Lisboa portanto não havia movimento para as fragatas” e o envelope de dólares do Almirante norte-americano não durou para sempre. A ausência de meios e o declínio da atividade profissional do pai, como fragateiro, levam ao regresso da família Covas a Alvega, tinha Raimundo três anos.

“Em 1942 não havia dinheiro. A minha mãe teve de vender um terreno para o meu pai comprar um barco do género do picareto, mas aberto, com vela de verga triangular”, conta.

Raimundo Moutinho Covas, de 79 anos, no seu Museu particular batizado de Barbisco. Ao fundo uma fotografia com golfinhos que o próprio tirou no Cabo Espichel.

A alcunha pela qual é conhecido por todos na terra natal dos pais, que sente como sua, ganhou-a por causa da pesca ao barbo. Aliás, poucas serão as coisas na vida de Raimundo que não tenham amarras ao mar, pois essa paixão começou até antes do berço ao ser concebido no Mar da Palha, a bordo de um barco, assegura.

Ao longo de décadas reuniu uma coleção de objetos náuticos, cujo número desconhece, que, no fundo, contam a sua história nessa atividade de embarcadiço por diversão. Uns comprados, outros achados, outros oferecidos compõem o Museu Barbisco, em Alvega, numa “vontade de eternizar a vontade do progenitor e homenageá-lo com a inauguração” da obra.

Após décadas de navegação, no rio Tejo, no rio Douro, no mar, Raimundo Covas, um homem de trato afável, continua a seguir a sabedoria da água: “ela nunca discute com um obstáculo, simplesmente o contorna”.

Ao sair da sua cidade natal, quis o destino que a mudança geográfica não o afastasse do Tejo. A morar numa casa à beira rio, por Alvega faz a instrução primária e começa a trabalhar como eletricista na Barragem de Belver, concluída em 1952. Ainda recorda como os barcos de água acima acabaram abandonados pelas terras ribeirinhas ao serem substituídos por camiões na realização do transporte de mercadorias.

A sua família “transportou até Lisboa a mobília de Ramiro Leão, de Gavião” lembra Raimundo, que esteve acompanhado no frete pelo pai, pela mãe, pelo irmão Acácio e pela cadela Charri. Ramiro Leão tinha um pronto-a-vestir “de alta categoria” na Rua Garrett, observa.

No rio Tejo, em Alvega, com o pai, Raimundo Covas tinha três anos. Museu Barbisco, Alvega

Regressa à capital com 15 anos para trabalhar com o eletricista por 15 escudos por dia, ao mesmo tempo que se inscreve na Escola Industrial Afonso Domingues, obtendo no final do curso a melhor nota de montador-eletricista o que lhe merece um convite para que fique na escola como professor.

Mais tarde na empresa Telhado & Pereira estreia-se na carreira de desenhador. Enquanto estudava, Raimundo chegou a ter dois empregos, mas o cansaço e a velocidade do elétrico não ajudavam a chegar a horas às aulas. Acabou por ficar com o emprego de desenhador-projetista de sistemas de automatismos, assumindo naquela época o apelo do mar, o gosto pelos barcos, a opção pela pesca desportiva. No ano de 1965 é admitido na empresa Telemac para ganhar três contos, ou seja, o equivalente a 15 euros, um “ordenadão” para os dias que corriam.

“O engenheiro Manuel Domingues convidou-me para almoçar e propôs-me um ordenado de três contos. Eu ganhava 1500 escudos. E disse-me que ganhava 9 contos, o mesmo salário de Salazar, portanto eu ficaria com um ordenado de ministro”, revela.

Ao fim de um ano conseguiu juntar 24 contos, dinheiro que deu para casar, mais tarde comprar um barco (batizado de Patrícia I, em 1970) e o primeiro motor para o barco do pai. A partir daí foi sempre a navegar. Cinco anos depois ajudou a construir o barco Patrícia II no Seixal, “ia para lá ao sábado fazer o barco. Comecei a conhecer malta na doca e comprei o Patrícia III em 1979, nessa época já sabia navegar e subia os rios”.

No Museu, onde não guarda a sua coleção de moedas apesar de ser também numismata, em frente a uma enorme fotografia de golfinhos, tirada pelo próprio, no Cabo Espichel, mostra os vários objetos ao mediotejo.net ao mesmo tempo que tece a explicação e percebe-se que conhece todos os truques do Tejo e sabe que a navegar “os rápidos e as pedras” representam perigo, particularmente com baixos caudais.

Paralelamente à atividade náutica, Raimundo era atleta do Sporting Clube de Portugal, onde fez pesca submarina, chegou mesmo a ser “campeão da marcha atlética” em Portugal. As taças estão expostas no Museu juntamente com as taças e medalhas de pesca desportiva.

Entre os feitos profissionais, Raimundo orgulha-se de ter concebido, pelos anos 1970, o projeto de automatização da fábrica de enchidos e charcutaria Izidoro, no Montijo. Era preciso que entrasse porco e saísse chouriço. A ideia acabou por gerar alguma polémica obrigando o inventor a ir de Sarilhos (a povoação) para a fábrica acompanhado, no sentido de evitar sarilhos (a situação).

Sem escolta, os funcionários não o deixavam entrar: “achavam que estava a dar início a um processo que haveria de levar ao despedimento de muitos trabalhadores. Queriam mesmo fazer-me a folha”, assegura. Mas a história acabou por ter um final feliz quando Izidoro (dono da fábrica) “deu a cada empregado despedido 4 porcos e 2 sacas de ração. Comprava-lhes depois os porcos criados. Um negócio bom para ambas as partes”, recorda.

Em 1980, quando subiu o rio Tejo pela primeira vez desde Lisboa até Alvega. Com a mulher e a filha e o barco Patrícia III. Museu Barbisco, Alvega

Raimundo, que chegou a ser presidente da extinta Associação Portuguesa de Motocruzeiros, subiu o Tejo, desde Lisboa até Alvega, pela primeira vez em 1980, com a filha e com a mulher no barco Patrícia III. A viagem, que durou cerca de uma semana, voltou a repeti-la catorze anos depois com o objetivo de “valorizar o Tejo” já no Patrícia IV.

Dessa vez não subiu sozinho mas juntamente com uma dúzia de embarcações a motor, num percurso de 180 quilómetros rio acima “para incentivar manifestações em defesa do rio e a valorização da sua riqueza natural”. O grupo fez escala em Valada, Santarém, Almourol, Constância, e Rossio ao Sul do Tejo para terminar em Alvega.

Mas não é íntimo apenas do maior rio da Península Ibérica. Em 1988 foi pioneiro na subida do Douro, quando Mário Soares, então Presidente da República, inaugura a sua navegabilidade, realizando uma Presidência Aberta descendo o rio, desde o Douro Internacional até à foz.

“Subi e desci o Douro a acompanhar o Presidente, onde também estava Francisco Balsemão”, graças à proximidade ao engenheiro Pinto da Silva que “durante 27 anos foi chefe do Gabinete de Estudos da Telemac” em Portugal.

Raimundo Covas segura uma lanterna, de um navio chinês, com mais de 300 anos. Possui um sistema de rodagem de vidros com cores para indicar a viragem dos barcos: vermelho (bombordo), verde (estibordo) e branco (em frente). Museu Barbisco, Alvega

Nestas e noutras viagens, pois conhece mais de 30 países, recolheu os mais variados objetos náuticos. Por exemplo: um telescópio chinês por certo com 100 anos de idade; uma roda de leme do veleiro São Jorge afundado em Portimão em 1910; o radar do último bacalhoeiro de três mastros; bússolas; lanternas; inclinómetros; sextantes; um relógio de sol; vários barcos incluindo o último picareto feito pelo último calafate de Ortiga, o Ti’Fontes tinha ele 90 anos; medalhas; taças de competição de pesca; um barco que trouxe do Brasil na cabine do comandante por não caber na zona de bagagens e por ser arriscado trazer no porão; um Rasca, modelo de embarcação veleira, de pesca segura e comércio, usada no século XVIII até do século XIX; hélices e outros ferros; fotografias; mapas; cartas de navegação; muitas memórias e a estátua de Santo António que, por ter o nome do pai, foi acolhido como ‘padroeiro’ da coleção.

Diz-se um homem feliz e realizado, com desejos de novas viagens e vontade de descobertas, com umas casitas e um barco, haveres que conquistou com o seu trabalho, com muitos amigos, 20 deles fazem-lhe companhia ao jantar das quartas-feiras, e uma família que sempre o acompanhou nas suas aventuras à volta do mundo.

O Museu Barbisco inaugurou-se no dia 10 de junho de 2016, com pompa e circunstância. Uma festa para a qual Raimundo Covas convidou 300 pessoas, contando com a presença da secretária de Estado do Turismo, Ana Mendes Godinho, e da presidente da Câmara Municipal de Abrantes, Maria do Céu Albuquerque.

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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4 COMENTÁRIOS

  1. Bom amigo, comunicador e com uma capacidade única de agregar e motivar grupos de pessoas, muito particularmente ligadas ao mar.
    João Almeida

  2. Os amigos do almoço da sexta feira, sabem que muita coisa ficou por relatar…. incluindo algumas passagens… durante as navegações no Tejo; no Douro; no Sado ou no Mar, e que, dificilmente serão esquecidas.
    Através de uma simplicidade permanente, o Comandante Covas, tem transmitido momentos de alegria e até de alguma felicidade aos seus acompanhantes e amigos.
    Como disse a “contadora de histórias”, Paula Mourato: Raimundo Covas continua “com desejos de novas viagens e vontade de descobertas”.
    Não pares Raimundo…. e conta connosco !!!
    Hermínio (Tintoretto)

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