Abrantes | A linha contínua de Joaquim Lourenço

Joaquim Lourenço. Foto: medioteko.net

Será a vida feita de uma única linha ou da junção de muitas? Não sabemos a resposta correta, mas pegamos na segunda opção para contar a história de Joaquim Lourenço, o pintor que cresceu em Alferrarede e tem o sonho de expor os seus trabalhos pela primeira vez no estrangeiro. A falta de fundos levou-o a criar uma campanha de crowdfunding e espera que a linha das obras da série que chama de “linha contínua” termine em São Francisco, nos Estados Unidos.

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Quem abre a página do site ppl.com.pt depara-se com uma mensagem direta “Um Sonho – Expor no estrangeiro”. Abaixo do vídeo com a breve apresentação, justifica-se porque razão o sonho teima em não se tornar realidade. A arte de Joaquim Lourenço foi reconhecida pela galeria Try it ART, em São Francisco (Estados Unidos da América), mas as obras só poderão integrar a exposição agendada para 26 de maio se existirem fundos que assegurem o seu transporte.

Joaquim Lourenço é descrito no site como alguém que coloca paixão em tudo o que faz e foi com essa paixão que decidiu criar a campanha de crowdfunding com a qual espera levar os seus trabalhos até ao outro lado do Atlântico. Quisemos conhecer o artista plástico que não se limita a pedir dinheiro uma vez que as contribuições superiores a 10 euros são recompensadas com obras. A oferta vai aumentando consoante o valor atribuído e oscila entre pequenas reproduções dos trabalhos que vão estar em exposição e originais.

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O lado paterno da família tem raízes no Tramagal e a mãe era de Lisboa. Para Joaquim Lourenço, falar da infância e da juventude é falar de Alferrarede, em Abrantes, onde chegou quatro anos depois de nascer em Moçambique, tal como o irmão Miguel, durante uma missão do pai – militar da Força Aérea – naquele país. A irmã Laura, por seu lado, teve o primeiro berço no concelho abrantino depois da família regressar a Portugal no pós 25 de Abril de 1974.

The Black Stockings and Black Coat Lady, de Joaquim Lourenço. Foto: DR

Instalaram-se no edifício da pensão e restaurante que os avós tinham no fundo da rua da estação ferroviária e perdeu a conta ao número de vezes que percorreu a rua até à mudança para a idade adulta que lhe trouxe outras mudanças, começando pela de casa para os “saudosos Plátanos”, em Alferrarede Velha. O encontro com as artes deu-se antes, na adolescência, e surgiu numa das muitas linhas da vida que apenas parecem enviesar-lhe o sentido.

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A vocação chamava o desporto, mas o corpo pregou-lhe uma partida e os problemas de saúde associados à coluna silenciaram-na. Viu-se confinado a um quarto de hospital, onde permaneceu durante meses, e foi entre enfermeiros e operações que começou a traçar o seu percurso artístico. Primeiro com reproduções dos heróis da banda desenhada que devorava e, mais tarde, com outros temas.

Da cama, passou para a cadeira de rodas. Da cadeira de rodas para as muletas. Das muletas para os pés e voltou a tentar a sorte. Chegou a pertencer às equipas de basquetebol e voleibol, mas a esperança de um futuro profissional na área desvaneceu-se por completo quando o professor do 9º ano da Escola Industrial e Comercial de Abrantes (EICA), atual Escola Secundária Dr. Solano de Abreu, confirmou o que já sabia. Nunca poderia ser um atleta de topo.

Impedido de correr atrás daquele sonho, decidiu seguir a área das artes no ensino secundário. A falta de alunos para a turma do 12º ano levou-o até Tomar e a rua da estação de Alferrarede continuou a ser percorrida ao início e ao final dos dias de semana. Algumas dessas caminhadas terão sido feitas com o pensamento no futuro profissional a seguir e a matutar sobre a sugestão de um professor em seguir a área do ensino.

Ouviu o conselho e licenciou-se como professor de Educação Visual e Tecnológica do ensino básico em Bragança. Os traços dos alunos nas aulas passaram a acompanhar os das obras que foi criando enquanto o gosto se aprofundava e foi dando aulas pelo país fora, incluindo os Açores, até ficar efetivo em São Teotónio (concelho de Odemira) há doze anos.

A linha que começa a formar-se foi sendo suspensa com o casamento e o nascimento dos filhos Guilherme e Alice ou a fase dos brinquedos de madeira e materiais reciclados que vendia em feiras de artesanato. Mesmo assim não parou e quando o tempo lhe trouxe tempo decidiu dedicar-se de forma mais séria à técnica de eleição, o desenho, com um mestrado que está a concluir e diz ter contribuído para que definisse o seu “rumo” artístico.

Para Joaquim Lourenço, o desenho “vive de um elemento muito forte, que é a linha”, à qual se juntam o ponto, a mancha, a textura, o volume. Muitas das suas obras partem dessas linhas, tal como aquelas que deseja expor em São Francisco e integram a terceira fase de uma série que se diferencia pelo processo de criação e à qual se vai referindo durante a conversa como a “linha contínua”.

No primeiro momento, a caneta ou o pincel apenas paravam depois das muitas curvas que formam um rosto e/ou um corpo. Outras formas foram surgindo, mas a figura humana afirmou-se como o seu tema de eleição, sobretudo a feminina. Até à data, foram muitas as que surgiram de um só traço – os lábios e os olhos são a exceção – em telas ou simples pedaços de cartão, os últimos utilizados nas alturas em que o orçamento é mais reduzido, revela.

Wind/Vento. Uma das obras que poderá ser exposta em São Francisco. Foto: DR

Na segunda fase da “linha contínua”, o desenho passou à pintura e surgiram as cores vivas na pele, na roupa e nos outros elementos que destacam os trabalhos de Joaquim Lourenço. Na terceira fase, a atual, a linha passou a ser menos “abstracionista”, suspensa por opção aqui e ali, e os tons assumiram a responsabilidade de diferenciar o volume e a luz, fazendo sobressair os traços orgânicos.

Elementos caraterísticos que fazem com que não nos surpreendamos que os primeiros artistas apontados quando perguntamos pelas influências sejam os dos austríacos Egon Schiele e Gustav Klimt, ligados ao expressionismo e à art nouveau. De seguida, surgem nomes russos como o do abstracionista Wassily Kandinsky e do suprematista Kazimir Malevich e, em português, destaca Artur Bual e Nadir Afonso.

A Pop Art também marcou a forma como pega nos pincéis que transporta com o skate nas viagens de mota entre as casas do Alentejo e de Lisboa, e durante uma das quais conversámos no Enroncamento. As obras, essas, têm sido expostas por todo o país, em nome individual e integradas em mostras coletivas, e querem dar o pulo para o nível seguinte em que os folhetos das exposições não surgem (apenas) em português.

Nos últimos meses tem preparado as telas, sendo a mais pequena de 80x60cm. A primeira seguiu, enrolada, em dezembro, mas depressa percebeu que esta forma de envio tem custos acrescidos uma vez que esticar a obra por lá fica mais caro do que fazê-lo por aqui. Os próximos trabalhos seguirão prontos a colocar nas paredes e a serem apreciadas pelo público, depois de um mês em viagem.

Joaquim Lourenço, está a 1.540,00€ do sonho, que não se concretizará caso o valor estabelecido não seja atingido. Até à data, já conseguiu cerca de 700€ em contribuições. Será que o sonho se torna realidade? O artista plástico acredita que sim e nós vamos aguardar pelo dia 18 de abril para descobrir se São Francisco é o final desta linha contínua na sua vida.

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