Abrantes | A Escola dos Sorrisos do CAI e as atividades que conquistam utentes de Rio de Moinhos

Os utentes do CAI numa aula de música e canto. Créditos: mediotejo.net

Até há poucos anos os Centros de Dia funcionavam como uma espécie de ponte para o Lar. Mas a tendência alterou: os séniores permanecem autónomos numa idade mais avançada e essa resposta social atrai cada vez menos idosos. Se até 2015, respostas como Centro de Dia, Apoio Domiciliário ou mesmo Lar cresceram acima dos 50%, certo é que esse crescimento estabilizou, tal como revela a Carta Social, um relatório anual sobre os serviços sociais existentes no País. No Centro de Apoio a Idosos (CAI) da Freguesia de Rio de Moinhos, em Abrantes, o cenário não é diferente. A instituição procura desde 2017 ser formalizada como Centro de Convívio, mais uma resposta social que poderia ajudar à sustentabilidade financeira, mas a Segurança Social recusa. Criou a Escola dos Sorrisos, que o mediotejo.net foi conhecer ao CAI. Este domingo, inaugura um jardim sensorial, uma candidatura ao Prémio BPI Seniores que a instituição ganhou em 2018.

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Celebra 20 anos em 2020. O Centro de Apoio a Idosos (CAI) da Freguesia de Rio de Moinhos nasceu em 2000, mas não era mais do que “um serviço de transporte dos utentes até à Santa Casa de Misericórdia de Abrantes”, explica ao mediotejo.net Susana Gil, diretora técnica do CAI.

O objetivo da IPSS (Instituição Particular de Solidariedade Social) passava por proteção dos cidadãos na velhice e invalidez e em todas as situações de falta ou diminuição dos meios de subsistência ou de capacidade para o trabalho e todos os fins prosseguidos pela Segurança Social. Em resumo; apoio a idosos particularmente aqueles com reformas baixas e sem suporte familiar.

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Na verdade a instituição, que atualmente tem 9 utentes em Centro de Dia e 18 em Apoio Domiciliário, começou a ter alguma atividade através de um Projeto de Luta Contra a Pobreza (PLCP) por causa dos incêndios de 2003. A população de Rio de Moinhos sofreu com o flagelo dos fogos desse ano fatídico e “foi criado um gabinete de psicologia e apoio social” do qual resultou, muitos anos mais tarde, o Centro de Dia, que abriu apenas em 2014.

Os utentes do CAI numa aula de música e canto. Créditos: mediotejo.net

Isto porque o edifício, propriedade da Junta de Freguesia de Rio de Moinhos, foi doado por um benemérito daquela aldeia do concelho de Abrantes, precisamente para assumir a função de Lar, destinado a 12 pessoas do sexo masculino residentes na freguesia.

Esse desejo, na prática, “era incomportável e foi necessário solicitar a alteração junto da família”, referiu Susana. Com o PLCP “apoiou-se várias famílias, fez-se obras até que em setembro 2006 iniciou-se o Apoio Domiciliário”.

Para a valência de Centro de Dia, a Segurança Social exigia a construção de um outro edifício, onde funcionaria a cozinha e a lavandaria, no sentido de alargar a capacidade de ocupação de utentes em Centro de Dia e Serviço de Apoio Domiciliário (SAD). Tal nunca aconteceu. A Segurança Social permitiu outra solução atribuído licença de utilização aos edifícios anexos ao campo de jogos para funcionamento da lavandaria, e as refeições são até hoje confecionadas e entregues por uma empresa de catering.

Em 2014, o Centro de Dia abriu com quatro utentes, com acordos de cooperação, “o mesmo número que mantém atualmente e 18 em Apoio Domiciliário sendo que a Segurança Social paga 117,11 euros por cada utente em Cento de Dia e 269,63 euros por SAD. Os custos são obviamente muito superiores” por isso os utentes assumem o complemento em falta com as reformas, explica Susana.

Na freguesia de Rio de Moinhos “não há resposta de Lar suficiente e os utentes em Centro de Dia e Apoio Domiciliário são cada vez em menor número, porque os idosos estão autónomos e preferem estar nas suas casas, passando em caso de necessidade, diretamente para Lar. Já não é um ciclo” como acontecia há alguns anos, refere.

João Paulo Rosado presidente da direção do CAI e  a diretora técnica, Susana Gil. Créditos: mediotejo.net

Para a grande maioria dos utentes, o Centro de Dia não representa aquela resposta desenvolvida em equipamento, com prestação de serviços para quem não tem autonomia suficiente para estar sozinho em casa. Atualmente funciona mais como Centro de Convívio onde os próprios desenvolvem atividades.

Foi essa perceção que levou o CAI a apostar em 2015 na Escola dos Sorrisos. Desde 2016, que conta com o apoio do programa FinAbrantes, na área social. Os técnicos da instituição conseguiram implementar um programa de atividades que entretém neste momento 69 utentes. Sendo certo que esse número inclui os utentes do Centro de Dia e 3 pessoas do SAD.

É também por isso que o CAI tenta há anos ser formalizado como Centro de Convívio pela Segurança Social. Susana Gil considera que “faz todo o sentido, e essa resposta social existe” mas a verdade é que a Segurança Social “não tem formalizado novos acordos, mantendo apenas os antigos” negando até ao momento essa valência à instituição de Rio de Moinhos.

Trajes e trabalhos de para as marchas populares dos utentes do CAI, em Rio de Moinhos. Créditos: mediotejo.net

No projeto Escola de Sorrisos desenvolve-se há dois anos as Marchas Populares. “Trabalha-se agora para as marchas de 2020, por altura do São Pedro. Estabelecemos uma parceria com a Filarmónica Riomoinhense que nos ajuda nos arranjos musicais e os utentes terão esta ano aulas de canto. Das coreografias e dos trajes trato eu, a letra para as músicas escolhidas é das responsabilidade da utente Fátima Pinto”, revela Susana.

A Escola de Sorrisos proporciona também trabalhos manuais, dança sénior, yoga sénior, aulas de pintura, expressão musical e vocal, informática, ginástica de manutenção e ainda hidrosénior nas piscinas municipais.

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Destina-se a pessoas com mais de 55 anos, mas pode ser frequentada por pessoas mais jovens se desempregados, pertencentes a minorias étnicas e pessoas em situação de pobreza ou exclusão social quando encaminhadas pelo gabinete da Junta de Freguesia, explica a diretora técnica. Um trabalho que se faz também com alguns professores voluntários.

Centro de Apoio a Idosos da Freguesia de Rio de Moinhos. com Susana Gil. Créditos: mediotejo.net

Duas (ou três) vezes ao ano a IPSS, que conta com cinco funcionários, realiza sessões de cinema na sala multiusos da freguesia ou na instituição, ações de sensibilização em parceria com a Unidade de Cuidados na Comunidade de Abrantes e dois passeios por ano.

As sessões de cinema “decorrem durante o dia, normalmente com filmes portugueses que alguns utentes não sabem ler as legendas. Também já tentámos filmes em português do Brasil mas não apreciam e até as versões modernas dos clássicos filmes portugueses mas também não gostam” conta.

Surana aponta a Junta de Freguesia como “o parceiro” da instituição no que toca ao transporte dos utentes que vivem nas aldeias de Pucariça ou Amoreira, por exemplo. “Vai buscar e lavar os utentes a casa e partilha com o CAI o transporte dos utentes para as piscinas municipais”.

Para a diretora técnica, apesar das dificuldades, “da difícil sustentabilidade, este tipo de instituição representa uma mais valia para as pessoas. Os eventos surgem também como uma forma de angariar dinheiro, como o arraial nos Santos Populares ou as noites de fados. E ainda estabelecemos uma parceria com um laboratório de análises clínicas, feitas na instituição, ao invés das pessoas se deslocarem a Abrantes”, dá conta.

Certo é que sem o CAI “estas pessoas estavam em casa em frente à televisão. Aqui encontram uma forma de convívio, um momento de partilha, de estar com os outros, com serviços, com profissionais, com melhor qualidade de vida”, defende.

Centro de Apoio a Idosos da Freguesia de Rio de Moinhos. Jardim. Créditos: mediotejo.net

Este domingo, 15 de dezembro, é então inaugurado o ‘Jardim dos Sentidos’ do CAI. Trata-se de “um jardim sensorial, com plantas, alargando o circuito de manutenção, com máquinas mais adaptadas aos utentes, com rampas para pessoas com mobilidade reduzida” explica Susana. Tratou-se de uma candidatura ao Prémio BPI Seniores que a instituição ganhou, a nível nacional, em 2018, no valor de 20 mil e 800 euros. O jardim contou com o apoio da Junta de Freguesia em materiais, como tintas, bem como em trabalho, dos funcionários da autarquia.

No mesmo ano, o CAI também venceu o Orçamento Participativo Municipal para melhoramento dos arruamentos e acessos à instituição. “Ainda sem execução. Estamos a aguardar” lembra a diretora.

Francisco Costa Bento, tem 64 anos e é utente do Centro de Dia do CAI há ano e meio. Grande parte da vida passou-a a trabalhar, “desde os 9 anos. Andava na escola e nas férias grandes ia para a serração empilhar madeira,” recorda ao mediotejo.net.

Descontou para a Segurança Social durante 44 anos por isso lamenta a “reforma de miséria”. Foi camionista, tratorista na Herdade de Vale de Zebro até que as pernas deixaram de o manter em pé. Hoje só anda apoiado em dois cajados, se cair não consegue levantar-se sozinho e por isso recorreu ao CAI.

Centro de Apoio a Idosos da Freguesia de Rio de Moinhos. com Francisco Bento. Créditos: mediotejo.net

Francisco vive sozinho em Pucariça e diz gostar de estar no Centro, particularmente das aulas de música e pintura. “As de ginástica também não são más” diz embora tenha de se exercitar sentado. O CAI “é muito importante para as pessoas idosas com mais dificuldades”, opina. Só é pior ao sábado e ao domingo quando tem de cozinhar, “senão não como” garante. Vale-lhe as poupanças de uma vida de trabalho, caso contrário teria uma velhice “bastante complicada”.

Também Maria da Conceição Luís, de 73 anos residente em Aldeinha, admite uma vida mais complicada se não tivesse esta resposta social. Gosta de estar no CAI, muito por causa das atividades. “De todas, da pintura à ginástica” diz. Sendo doente e sozinha sentiu a necessidade “de ter apoio. Ao fim de semana vou para casa da minha irmã” uma vez que as portas do Centro encerram ao sábado e ao domingo.

Centro de Apoio a Idosos da Freguesia de Rio de Moinhos. com Francisco Bento, Idalina Roldão e Maria da Conceição Luís. Créditos: mediotejo.net

Idalina Roldão tem 69 anos e está em Centro de Dia há cerca de um ano. Nasceu nas Sentieiras de São Vicente mas vive sozinha em Rio de Moinhos. Tem dois filhos e cinco netos que até residem no concelho de Abrantes, mas após uma cirurgia ao cérebro precisou da “recuperação certa, um local para estar durante o dia. Já vinha ao CAI para várias atividades, como ginástica e piscina, há muitos anos, e depois de ser operada, para aliviar os filhos” decidiu recorrer ao Centro de Dia.

Gosta particularmente “do convívio, do ambiente”. Sente-se, no ar e observa-se, que as pessoas precisam deste apoio. Para alguns como um substituto da família, para a maioria, como um complemento à família.

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