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Quinta-feira, Janeiro 20, 2022
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Abrantes | À descoberta dos campos de Alvega num passeio de mãos dadas com o Tejo

Para desanuviar dos tempos cinzentos e dos desconfinamentos “a conta gotas”, o mediotejo.net propõe-lhe uma caminhada na natureza, pelos campos de Alvega, numa parte do percurso pedestre sinalizado PR4, com o rio Tejo como companheiro e o verde no horizonte.

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Começamos no PR4 na Estação de Canoagem de Alvega, pequena localidade que é freguesia no território Sul do concelho de Abrantes. É um percurso de execução fácil, quase sempre plano, onde a beleza natural dos campos de Alvega sobressai no acompanhamento tranquilo do rio Tejo, talvez por apresentar águas quase rasas aquando da nossa caminhada.

Estação de Canoagem em Alvega. Créditos: mediotejo.net

Encantam os vários tons de verde, os muitos charcos, as veredas, caminhos que serpenteiam até suaves declives esculpidos pelas chuvas nas margens do rio, as aves e o seu chilrear, as preservadas Alagoas, um pequeno bosque de freixos onde a passarada celebra a vida de viva voz, as ovelhas a pastar ou as oliveiras centenárias (talvez milenares suspeitam os investigadores da UTAD – Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro), tudo integrado na paisagem de forma equilibrada.

Percurso PR4 em Alvega. Créditos: mediotejo.net
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Desde logo, nos campos agrícolas do Monte da Várzea até onde nos levam os caminhos ladeados pela vegetação e os acessos a lagoas e ribeiras. Trilhos devidamente assinalados no PR4, frequentados pelos habitantes locais, especialmente ao fim de semana, nos ditos ‘passeios higiénicos’ que o confinamento causado pela pandemia de covid-19 permite.

Sempre acompanhados por flores campestres, troncos de árvores em originais formas geométricas, cegonhas, garças, patos-reais e outros animais, arbustos, hortas, olivais, apiários, um ‘tapete’ particularmente verde nesta altura do ano, criando um cenário próprio da ruralidade.

Percurso PR4 em Alvega. Créditos: mediotejo.net
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Apontamos para um percurso circular, de 12,2 km, com inicio e fim na localidade de Alvega, no decurso do qual se podem atravessar as localidades de Ribeira de Fernando e Monte Galego. No espaço mais afastado do rio, a sul da Estrada Nacional 118, o traçado desenvolve-se por um espaço de charneca, com montado de sobro, pinhais e eucaliptais. Nas proximidades do Tejo, a norte da EN 118, o trajeto cruza planícies aluvionares e campos agrícolas particularmente férteis.

Rio Tejo em Alvega, com Ortiga, na outra margem a avistar os campos. Créditos: mediotejo.net

Na verdade os trilhos são vários, designadamente os que atravessam as terras do Monte da Várzea e batizados pela unidade de turismo rural. Desde logo o trilho do São João sai do Monte atravessando o milheiral, no qual o caminhante sente nos pés a terra fértil e arenosa até à EN 118 dando a volta por Casa Branca entrando no caminho de terra batida junto à igreja que leva o caminheiro ao local de partida.

Alagoas, ou seja um conjunto de ripícola de freixos com charcos e vegetação diversa. Créditos: mediotejo.net

Ou o trilho da lezíria pela Marambana, com sete km, que permite passar ao lado de rebanhos de ovelhas em pastagem e do rio Tejo, onde os caminhos das Alagoas nos lembram as amazónicas florestas cerradas e densas.

Um trilho algo estreito junto ao rio mas com paragem obrigatória na Praia da Pedra Rolada para observar a variedade e as cores das pedras do rio e na oliveira assinalada centenária, com pelo menos 700 anos. Foi este o trilho que fizemos desta vez.

Os campos agrícolas de Alvega, no PR4. Créditos: mediotejo.net

Nesta região, o Tejo promove o encontro do Alentejo com a Beira Baixa e o Ribatejo. Além dos terrenos agrícolas – Alvega está integrada na Reserva Agrícola Nacional –  a paisagem é marcada pela presença de espécies ripícolas como salgueiros, amieiros e choupos.

É um espaço privilegiado para a observação de aves como o abelharuco – durante a nossa caminhada passamos ao lado de uma colónia – o mergulhão-de-crista, a águia-pesqueira, a cegonha branca e a garça-real.

Capela da Nossa Senhora da Guia, Alvega. Créditos: CMA

Um dos pontos de interesse junto ao rio Tejo, a jusante da Estação de Canoagem, é a Capela de Nossa Senhora da Guia, pitoresca ermida de forma circular fundada em 1626, consagrada à santa por ali ter sido encontrada uma imagem dentro de um poço, completamente seca e sem sinal de desgaste. Padroeira dos pescadores da região que faziam a sua invocação, pedindo-lhe proteção em dias de cheias e tempestades. A romaria anual tem lugar na segunda-feira a seguir à Páscoa.

Recorda-se que o património natural da bacia hidrográfica do Tejo continha espécies de peixes que atualmente são uma miragem como achigã, a lampreia, a enguia, o sável, a saboga, o robalo, o lúcio, o peixe-rei, o barbo ou a tainha também conhecido por muge ou fataça, espécies piscícolas em decréscimo no rio devido, segundo os ativistas ambientais e os pescadores, a vários episódios de poluição e também dos baixos caudais.

Pela região passava a importante via militar romana XV, que ligava Lisboa (Olisipo) a Alvega, seguindo para Mérida (Emerita). Esta via seria servida por uma ponte-represa, situada no Casal da Várzea, entre Abrantes e o Gavião, da qual restam ainda algumas ruínas, a par de troços da calçada romana e de outros vestígios da ocupação. Créditos: mediotejo.net

Outra curiosidade que encontramos no caminho já em terras do Casal da Várzea são os pegões de ponte romana ou pilares do Tejo, estruturas de pedra sobre o rio, do que se supõe ter sido uma ponte localizada numa cidade romana que poderá ter sido ‘Aritium Vetus’.

Perímetro de rega de Alvega. Conduta principal. Créditos: João Pereira

É também no mesmo Casal que podemos observar a estação elevatória do Tejo que abastece uma rede de rega por gravidade constituída por canais e regadeiras, imagens de marca na paisagem agrícola desta freguesia.

Nos declives que surgem nessa zona, talvez por estar na fronteira com o Alentejo, desponta o montado de sobro, com giestas, estevas, rosmaninho, proporcionando uma vista espetacular do vale do Tejo e dos campos agrícolas.

O baloiço panorâmico do Monte da Várzea permite uma vista espetacular sobre o vale e a lezíria do Tejo, em Alvega. Créditos: mediotejo.net

Agora, é possível até baloiçar sobre aquela imensidão, graças a um baloiço panorâmico instalado com o objetivo de entreter os hospedes do alojamento rural do Monte da Várzea, mas na verdade aquela propriedade privada está aberta a toda a gente que queira por ali caminhar, embora com a possibilidade de se cruzar com os pacíficos cães ou com a bonita égua branca que ali habitam, portanto a palavra é; tranquilidade.

Alagoas, ou seja um conjunto de ripícola de freixos com charcos e vegetação diversa. Créditos: mediotejo.net

O percurso inicia-se num troço ribeirinho para caminhar dois quilómetros até à oliveira centenária, atravessando a ponte da ribeira que percorre quilómetros desde o Carregal, onde no passado fez girar azenhas, para agora apenas desaguar no rio. Depois entramos no vale do Tejo rumo à descoberta.

Seguimos por caminhos de terra batida, passamos ao lado dos primeiros campos agrícolas e rapidamente chegamos aos charcos onde começa o verdadeiro festim visual e auditivo, devido à harmonia campestre e aos sons da bicharada que nos rodeia.

Ribeira em Alvega. Créditos: mediotejo.net

Antes da curva do Tejo, com Ortiga (aldeia do concelho de Mação) lá do cimo a observar-nos, atravessamos um caminho ladeado de pequenas oliveiras que vão recortando a paisagem, criando quadros naturais, qual deles o melhor ângulo para a observar a beleza de um rio que entardece oferecendo tons azuis, verdes, amarelos e laranja.

Para trás deixámos um pastor e as suas ovelhas no remanso de uma ideia bucólica. Vencemos um desnível e alcançamos uma área de campo cultivado onde as cegonhas esvoaçam e bicam a terra em busca de alimento.

A visão de um pastor e o seu rebanho de ovelhas é um encontro provável no PR 4 de Alvega. Créditos: mediotejo.net

Seguindo na direção contrária ao leito do rio encontramos a oliveira centenária, ao longe avistamos uma pequena casa de rega, um ponto branco no verde que pode servir de referência aos caminheiros.

Mais a baixo, de novo junto ao rio, apesar do estreito curso de água não arriscámos passar para a outra margem, embora nesse momento os pés já estivessem molhados por insistirem pisar terras alagadas. Então, secos dos tornozelos para cima, ficámos a observar a beleza e a repensar a opção, algo contrariados pelo verão tardar em chegar.

Oliveira centenária no PR 4 em Alvega que a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro acredita ser milenar, à semelhança da oliveira do Mouchão em Mouriscas. Créditos: mediotejo.net

Retomamos o percurso e bastam 10 minutos para chegarmos à Marambana. Junto à estação elevatória, o Tejo apresenta-se em forma de baía antes dos rápidos. No verão é comum ver por ali canoas a colorir as águas e convidando os mais afoitos a dar um mergulho. Mas se quisermos avançar até ao baloiço panorâmico é preciso tomar fôlego, ter coragem e subir.

Vista sobre os campos agrícolas de Alvega com o Monte da Várzea ao fundo. Créditos: mediotejo.net

Siga pelo montado de sobreiro até ao miradouro, e do alto, desfrute do vale do Tejo e da lezíria, com o rio a serpentear lá em baixo. No máximo em 15 minutos (dependendo do tal fôlego) alcançamos o ponto mais alto do Monte. Um lugar imperdível para observar o pôr do sol. A vista é inigualável.

É o momento para parar e respirar fundo, sem pressas nem exigências perante a natureza em todo o seu esplendor. No miradouro tem duas opções: ou volta para trás pelo mesmo caminho, com entrada também do lado de Casa Branca, na estrada que leva à Barragem de Belver, ou segue em frente contando com uma descida muito íngreme consciente que na sequência à esquerda o piso é problemático. Esse trilho da Crista do Cabeço conta com 2,4 km.

Rio Tejo, na chamada Marambana. Créditos: mediotejo.net

No trilho à volta do Cabeço, caminhada para 2,2 km, na época apropriada, a flora permite observar vários tipos de cogumelos e outras plantas aromáticas silvestres como o alecrim, o poejo, a alfazema, as perpétuas amarelas ou a carqueja. Na fauna é possível ver perdizes e as suas crias ou avistar um javali. À direita encontra uma acentuada ravina (perigosa) onde ao fundo se observa a Foz da Ribeira da Lampreia. Esse trilho faz também limite à esquerda com o distrito de Santarém e à direita com o Alto Alentejo.

Optámos pelo passeio pedestre (igualmente realizável em BTT ou veículos todo o terreno) que vai da Estação de Canoagem à Marambana e depois subir até ao miradouro do Monte da Várzea mas podíamos ter virado para a esquerda e encontrávamos outro percurso – a GR12 E7 Caminho do Tejo.

Nesse teríamos 45 quilómetros para palmilhar, um percurso que também se inicia na Estação de Canoagem de Alvega e chega ao concelho de Constância. Terá de ficar para um próxima descoberta.

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A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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