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Quinta-feira, Agosto 5, 2021

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“Abateu-se o caça russo, mas quem perde é Ancara”…por Tiago Ferreira Lopes

Do Leste para o Este

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O mundo diplomático ainda não se refez completamente da desagradável surpresa do dia 24 de Novembro. A Turquia anunciava que abatera um avião russo da classe Su-24 por alegada violação do espaço aéreo. Dizia Ancara que o avião russo violara o seu espaço aéreo por mais de cinco minutos e que teria sido avisado dez vezes, antes de ser abatido pelos F-16 turcos.

Moscovo não perdeu tempo a dizer que o avião fora abatido quando ainda estava em espaço aéreo sírio, a 1km da fronteira com a Turquia. Washington, que cedo entrou na “conversa”, confirma que o Su-24 terá violado espaço aéreo turco, mas por uma questão de meros segundos. Temeu-se uma resposta por igual de Moscovo a Ancara, mas a dupla Putin-Lavrov sabe quem que pode vencer este duelo de outra forma.

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Enquanto Moscovo ponderava o próximo passo, a OTAN reuniu-se de emergência. Afinal a suposta violação, mesmo que por segundos, do espaço aéreo turco poderia ser entendida como uma violação do artigo 5. Da reunião da aliança militar atlanticista saiu uma mensagem de solidariedade para com Ancara (e um puxão de orelhas a Erdoğan, feito na pausa para o café), bem como um pedido a Moscovo para se manter serena.

Moscovo replicou com o anuncio de que não irá tomar acções militares, apesar de ter decidido aumentar o controlo e patrulhamento das suas fronteiras a Sul. Anunciado, por Lavrov, ficou também o congelamento do programa de isenção de vistos entre a Rússia e a Turquia. Ora só o ano passado quase 4.50 milhões de russos visitaram a Turquia, gerando receita próximas dos quatro mil milhões de dólares. Dinheiro com que Ancara deixará de poder contar…

A Rússia, afinal, não precisa de derrubar caças para atingir a Turquia.  Além do congelamento dos vistos, Putin anunciou também um programa de sanções económicas. A Rússia que enfrenta as sanções económicas da União, impõe agora sanções ao vizinho a Sul. Ora sendo a Rússia o sexto parceiro comercial mais importante da Turquia, e estando a Turquia numa fase de abrandamento económico pode dizer-se: “L-5. Um tiro num porta-aviões afundado”!

Como se a acção despropositada de Ancara não fosse suficientemente má (falamos afinal do mesmo país que todos os dias, ou quase todos, viola o espaço aéreo da Arménia e da Grécia, sem problemas de maior), fomos forçados a assistir ao esplendor do nacionalismo parolo e arrogante exacerbado à sua máxima potência, quando Çavuşoğlu, Ministro dos Negócios Estrangeiros, declarou que não emitiria qualquer pedido de desculpas a Moscovo.

E se é verdade que o Presidente Erdoğan tentou minimizar o incidente dizendo que o abate do avião feito pelos F-16 turcos não teve em conta a origem do avião abatido; também é verdade que logo em seguida o mesmo Presidente Erdoğan estragou tudo, ao declarar de peito inchado que a Rússia estava a brincar com o fogo. Putin pode até estar a brincar com o fogo, mas parece-me que é Erdoğan quem corre o risco de se queimar…

O que o incidente também revela é uma Turquia parada, quase comatosa, no que toca a combater o Daesh (vulgo Estado Islâmico), mas activa em abater, os que combatem o mesmo Daesh. Revela uma Turquia mais preocupada em bombardear curdos, do que em combater os fundamentalistas islâmicos. Uma Turquia, de resto, incapaz de dialogar com as suas minorias internas sejam os curdos, os alevis ou mesmo os cristãos.

O que o incidente revela, é um Presidente (com manias de Sultão) que fechado no seu palácio com mais de 1100 quartos parece não perceber que a sua estratégia de reemergência da Turquia como potência regional falhou. O que Erdoğan parece não entender é que não existe nenhuma coligação internacional contra a Turquia, porque os males da Turquia são internos e não externos.  E atacar Su-24 russos, num acto de bravata oca, não muda esse facto.

 

Professor Auxiliar no IBA (Paquistão), licenciou-se em Comunicação Social na Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA-IPT), cidade onde cresceu e viveu até aos 22 anos. Doutorado em Relações Internacionais (ISCSP-UL), colabora com vários centros de investigação internacionais. É autor da coluna “Cadernos do Tiaguistão” publicada na revista PACTA (ISCSP-UL, Lisboa), autor-residente da revista MindThis (Canadá), editor de opinião para a revista think.act.lead (Eslováquia) e editor-chefe do SOJRS (Turquia).
Escreve no mediotejo.net ao domingo, quinzenalmente.

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