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Sábado, Outubro 23, 2021

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“A vau”, por António Matias Coelho

 Vau é o ponto de uma corrente de água onde, por ser ela calma e pouco profunda, se pode passar a pé ou a cavalo. A passagem a vau é comum nas terras planas, onde rios e ribeiras se podem espraiar, não atingindo por isso grande fundura nem corrente muito forte. Esses sítios de fácil passagem sempre atraíram os grupos humanos, precisados de água e dispensados de construir pontes. Há mesmo localidades, algumas que viriam a ser cidades grandes no tempo de agora, que nasceram em lugares onde se passava a vau e do vau tomaram o nome, na nossa língua e noutras. 

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Em alemão, vau é Furt. Junto ao rio Main, afluente do grande Reno, na antiga Francónia, terra que foi de francos antes de ser alemã, nasceu há séculos uma povoação que nos seus começos atravessava o rio a vau. No nome que hoje usa, embora muita gente não faça a mais pequena ideia, ficou o Frank dos francos e o Furt de se passar a vau, Frankfurt portanto… 

A palavra inglesa para vau é ford. E boi é ox. Oxford, à beirinha do sítio em que o rio Cherwell se junta ao Tamisa, começou por ser, quem diria, um lugar onde se passava o gado a vau… 

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Passagem a vau, anos ‘1930. Vale Flores – Parreira (Chamusca) Foto: A. Netto

Aqui mais perto de nós há uma freguesia que se chama simplesmente Vau. Fica no concelho de Óbidos, próximo do rio Real. No nosso Ribatejo, não longe de Benavente, na margem da Vala Nova, houve até aos anos 90 uma aldeia de pescadores avieiros, entretanto abandonada, de que Alves Redol nos falou (1) e que também Vau se chamava. No Algarve, em Portimão, como muita gente sabe, há uma conhecida praia do Vau. E muitos mais haverá. 

Na imensidão da charneca ribatejana, ao longo das principais ribeiras, como a do Chouto e a de Muge, vão-se sucedendo os lugares e os casais, com cada vez menos gente neles e muitos já em ruínas, nestas terras distantes de tudo, desbravadas e postas a produzir no último século e meio. Desde que aqui há gente, sempre houve necessidade de se cruzar as ribeiras e antes de as pontes permitirem rápida e segura passagem, de que quase não damos conta, era a vau que se ia de uma margem à outra, onde a pouca água deixasse e fosse suficiente a força, a dos animais e a nossa.

Passagem a vau. Painel de azulejos, Parreira – Chamusca

Nas terras da Parreira, no concelho da Chamusca, de há meio século para trás, havendo que atravessar a ribeira, o que tinha de ser feito é o que nos mostra o painel de azulejos de um abrigo de autocarro que aqui se reproduz: deixar ao macho que puxasse o peso maior da carroça, mas dar-lhe a ajuda possível, o homem à frente segurando curta a rédea e incentivando o animal, enquanto a mulher empurrava atrás e daí a nada se estava na outra margem. 

Passar a vau é vencer uma barreira. É não desistir de uma dificuldade que se nos atravessa na frente. É sentir que se consegue passar ao lado de lá do problema. A passagem a vau aqui, nas terras desta charneca, é bem simbólica da própria forma como nelas se construiu a vida (2).

(1) Alves Redol, Os Avieiros, [1942], Mem Martins, Pub. Europa-América, 2.ª ed., s/d, col. Livros de Bolso, n.º 214, p. 83 ss.
(2) Este texto, com algumas alterações e adaptações, retoma o que publicámos a propósito da passagem a vau no livro Os Abrigos da Memória, editado pela Câmara Municipal da Chamusca em 2012, p. 133/135. 

É ribatejano. De Salvaterra, onde nasceu e cresceu. Da Chamusca onde foi professor de História durante mais de 30 anos. Da Golegã, onde vive há quase outros tantos. E de Constância, a que vem dedicando, há não menos tempo, a sua atenção e o seu trabalho, nas áreas da história, da cultura, do património, do turismo, da memória de Camões, da comunicação, da divulgação, da promoção. É o criador do epíteto Constância, Vila Poema, lançado em 1990 e que o tempo consagrou.
Escreve no mediotejo.net na primeira quarta-feira de cada mês.

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