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Sábado, Julho 31, 2021

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“A suposta falta de tempo que nos atrapalha a vida”, por Hália Santos

O anúncio de um supermercado alemão que tem circulado por todo o lado, que mostra um velhinho a receber mensagens dos filhos e netos a dizer que não passariam o Natal com ele, terá feito muita gente pensar na vida. Ao anunciar a sua própria (falsa) morte, o velhinho conseguiu com que todos os familiares próximos reorganizassem as suas agendas e marcassem viagens para irem até à casa onde ele os esperava para celebrar o Natal em família.

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Não sendo o Natal um tema que me toque particularmente, o essencial da mensagem (bem conseguida) do supermercado alemão é que nunca temos tempo para o que deve importar. Há sempre outras coisas que nos parecem mais importantes do que parar por um bocado. E este parar pode ser apenas 1% do nosso tempo. Se o criador do facebook vai conseguir ficar com apenas 1% desta poderosa rede social, talvez valha a pena pensarmos que 1% pode ser muito, mesmo para quem tem incomparavelmente menos. Porque temos um bem precioso, que é o tempo, se nos organizarmos.

Esta questão da falta de tempo (para fazer o que importa) dos mais novos e do excesso de tempo (sem que nada aconteça) dos mais velhos, levanta uma questão com a qual, regra geral, lidamos mal: a solidão. Por muito que os lares que acolhem quem já não pode estar sozinho façam o seu papel, ver um rosto familiar faz toda a diferença. E não é preciso ser Natal para se falar destas coisas. Meia hora na vida de quem não recebe visitas durante semanas seguidas faz mais efeito do que qualquer remédio. Porque anima, porque reconforta.

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Esta suposta falta de tempo acontece porque a vida parece que passa agora muito mais depressa do que noutros tempos. Mesmo quando estamos frequentemente com as pessoas que nos são mais próximas, acabamos por raramente fazer coisas que nos enchem a alma. Pode ser só conversar. Pode ser só ver como as pessoas que nos rodeiam vão mudando sem que nos apercebamos. Pode ser combinar um café com alguém que já fez parte da nossa vida. Pode até ser não fazer nada, simplesmente estar com quem nos apetecer.

Parar para estar começa a ser o melhor presente que podemos dar a alguém. E a nós próprios. Quem gosta de pessoas, só pode concordar. Por muitas redes sociais, por muitos contactos, por muitos encontros obrigatórios que tenhamos, estar com alguém sem uma razão específica continua a ser do melhor que há.

Desde visitar um velhote até beber um café com um amigo. Se não o fazemos, andamos sempre com esta sensação de que estamos a adiar, sem uma verdadeira razão, coisas que nos fazem bem. E depois, às vezes, é mesmo tarde demais. Que não seja preciso simular a morte de alguém para estarmos com as pessoas de quem gostamos.

E que estejamos com muitas pessoas, simplesmente porque sim, ao longo do ano.

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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