Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Sábado, Julho 24, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Trincanela

“A sopa dos pobres dos tempos modernos”, por Vânia Grácio

Em 2012 o governo criou o Programa de Emergência Alimentar, inserido na Rede Solidária de Cantinas Sociais, que pretendia garantir às pessoas e/ou famílias que mais necessitavam, o acesso a refeições diárias gratuitas. As cantinas sociais portuguesas constituem ainda hoje, uma resposta social ao combate à pobreza extrema e à exclusão em Portugal.

- Publicidade -

Na altura foi dito que se consideravam algumas particularidades que atingiam os “novos pobres” e para acautelar alguma privacidade, em regra, a disponibilização das refeições seria para consumo no domicílio das pessoas. A permanência e uso de refeições nas Instituições apenas ocorreria, excecionalmente, em respostas abertas, como por exemplo, em centros comunitários, de convívio ou de alojamento temporário e em comunidades de inserção, entre outros.

Estive contra esta medida desde o primeiro momento. Não pelo fim concreto de apoiar as famílias que se encontravam em situação de grave carência económica, mas pela forma como foi desenhada. De grosso modo, o processo passa pela análise de técnicos (as) que avaliam a situação socioeconómica da pessoa e validam a necessidade de atribuição deste apoio, se todas as outras respostas estiverem esgotadas.

- Publicidade -

No entanto, em regra esta é a primeira resposta que se dá às pessoas, também porque é a mais “fácil” e imediata de atribuir. Seja como for, a medida consiste em que uma pessoa ou família possa deslocar-se a uma instituição com cantina social protocolada com o Estado e leve o seu almoço e/ou jantar.

Casos há em que as instituições com apoio domiciliário fazem a entrega das refeições no domicílio, de modo a facilitar a vida às pessoas que têm maior dificuldade em se deslocar. Também não me faz sentido que uma pessoa seja apoiada pela cantina social, mas depois tenha de fazer cinco ou seis quilómetros de carro ou transporte publico para ir buscar a refeição. Claro que podia ir a pé, mas há casos em que não é possível, por dificuldades da própria família, pelas condições atmosféricas ou mesmo pelo estado em que a comida chegaria a casa. Várias críticas se ouviram relativamente a esta “entrega em casa da sopa dos pobres”.

Bem, mas o que me incomoda mesmo é a humilhação a que as pessoas estão expostas. Têm de ir diariamente à instituição “X” buscar a sua caixinha de sopa e a marmita com o jantar. Pessoas que sempre trabalharam, que se encontram em idade ativa, mas que no momento passam por um período difícil em termos financeiros e não têm na família ou amigos quem possa ajuda-los.

Foi feito um estudo em 2015, que referia que o Estado (portanto todos nós) gastava cerca de 600€ mensais por família com esta medida. É normal. Por cada refeição o Estado paga às instituições 2,50€. Se pensarmos numa família de quatro pessoas, que precisem de duas refeições diárias, são vinte euros diários que ao fim de trinta dias, dá os tais 600€.

Ora, não seria mais digno dar o dinheiro às pessoas para que pudessem elas efetuar as suas compras e confecionar as suas refeições? Já sei que me vão dizer que seriam sempre os mesmo a receber, etc. Mas o apoio é dado na mesma. O dinheiro é gasto da mesma forma, só que desta forma humilhamos as pessoas. Quando quem trabalha nesta área, pretende apoiar as pessoas a desenvolver competências de gestão doméstica, do próprio orçamento familiar, de organização de rotinas diárias e confeção de refeições saudáveis, esbarramos com a resposta das cantinas sociais que fazem a “papinha” toda. E, uma medida que é supostamente provisória, por vezes arrasta-se durante meses.

Atualmente a medida foi prolongada até ao final do primeiro semestre de 2016. Espero que se repensem estas respostas sociais. Que sejam imediatas, mas que sejam dignas.

Vânia Grácio é Assistente Social e Mediadora Familiar e de Conflitos.
Licenciada em Serviço Social pelo Instituto Superior Bissaya Barreto e Mestre em Serviço Social pelo Instituto Superior Miguel Torga. Pós Graduada em Proteção de Menores pelo Centro de Direito da Família da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e em Gestão de Instituições de Ação Social pelo ISLA. Especializou-se na área da Mediação de Conflitos pelo Instituto Português de Mediação Familiar e de Conflitos.
Trabalha na área da Proteção dos Direitos da Criança e da Promoção da Parentalidade Positiva. Coloca um pouco de si em tudo o que faz e acredita que ainda é possível ver o mundo com “lentes cor-de-rosa”. Gosta de viajar e de partilhar momentos com a família e com os amigos (as). Escreve no mediotejo.net ao sábado.

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here