Domingo, Fevereiro 28, 2021
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“A Quinta da Lameira”, por Fernando Freire

“A história é testemunha dos séculos, luz da verdade, vida da memória, mestra da vida, mensageira do passado”. Cícero

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Após deixar o vale de Tancos, na margem direita e esquerda do Tejo, começa a lezíria e as casas afastam-se naturalmente do leito para fugir às cheias recorrentes e sazonais. Os locais mais afastados do leito e com maior altitude, possibilitam uma maior segurança aos povoamentos instalados, como acontece no Pedregoso e na Quinta da Lameira.

Em que ano foi fundada a Quinta?

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Em 1504, foi efetuada uma visitação às comendas da Ordem de Cristo e do Médio Tejo. Daqui resultou a elaboração de tombos das suas propriedades. Esta visitação ou inventariação fora ordenada pelo Capítulo Geral da Ordem de Cristo, iniciou-se em 1503 e acabou em 1510. Compulsando os Tombos da Ordem de Cristo, vol. II, Comendas do Médio Tejo, 1504 a 1510,1 verificamos que nos respetivos tombos vislumbramos os topónimos de Pedregoso a escassos 100 metros da Quinta da Lameira. Todavia, o topónimo Lameira não aparece antes de 1510. Assim, a quinta da Lameira será de data posterior porque a prova documental, nos deixa esta conclusão.

De referir, ainda, que o Pedregoso foi referenciado em 1992, quando o arranque das oliveiras antiquíssimas que ocupavam uma propriedade e pôs a descoberto diversos achados e materiais cerâmicos (Pereira, 2001). O sítio constitui uma zona ampla de aluviões (à cota de 20 metros) que engloba:

– uma estação arqueológica romana, onde foram recolhidos materiais de construção e detetadas estruturas (DGPC, 2014; Ana Cruz, 2014), nomeadamente, uma divisão ou tanque revestida com opus signinum e materiais cerâmicos (tégulas, ímbrices, elementos de coluna, fundos de ânforas, pesos de tear, etc.), uma mó, elementos de adorno (fragmentos de contas de pasta vítrea), uma moeda do Imperador Constantino (Pereira, 2001);

– área escavada em 1996 (monte Pedregoso, sítio LV) onde foram encontrados materiais líticos e cerâmica com decoração e punção que aponta para a existência de uma ocupação campaniforme com elevado grau de revolvimento. Da visita da equipa da DGPC, no intuito de relocalizar/identificar o sítio em 2001, constata-se que a mancha de dispersão dos materiais é extensa […] (DGPC, 2014; Ana Cruz, 2014).

A área do olival, com a presença de árvores que se destacam pela sua idade multissecular, muito provavelmente milenárias, com o seu porte invulgar, de tronco com desenho retorcido, têm relevância histórico-cultural, indiciando a presença de um local de ocupação romana, conforme investigações referenciadas.

Foto de Alexandra Carvalho

No Numeramento ou Cadastro Geral do Reino, de D. João III, feito entre 1527-1532, encontramos o número do corpo da vila da Atalaia, ou seja, no núcleo que originaria um povoado. E encontramos os denominados casais, unidades rurais de exploração de terra desagregadas da vila para efeitos fiscais. Na área do então antigo concelho da Atalaia, onde se situava o Pedregoso e a Lameira, haviam vinte e três casais. Na área de Paio de Pele, atual Praia do Ribatejo, existiam 15 casais agrícolas dispersos.

 

Quinta da Lameira – vista aérea

Segundo o Prof. José Alves Dias, cada casal tinha, em regra, uma casa e um celeiro. Alguns possuíam também palheiros e, mais raramente, adegas. As casas eram feitas de pedra e barro, madeiradas de castanho, sendo uma parte coberta de cortiça e outras de telhas. Os palheiros eram quase sempre cobertos de palha. Todos os casais produziam cereais: trigo (66%) e centeio (34%). Dos quinze casais, dez cultivavam vinhas e oliveiras e oito continham pomares: entre as árvores plantadas havia ameixoeiras, pereiras, laranjeiras, figueiras e romaneiras.

Pelas fichas do PDM de Vila Nova da Barquinha identificamos a Quinta da Lameira como quinta agrícola com solar e capela do séc. XVIII, desconhecendo qual a data precisa da sua construção.

Os cursos de água, vindos “dos ribeiros d’Aldeinha, Portos, e fonte da Moita”2, permitiram a irrigação de terrenos fecundos para a agricultura e pastagens nos terrenos da Quinta do Lagarito e da Lameira.

A abertura de canais que tanto serviam para irrigação como para enxugo das terras é aqui presente quer do lado norte quer do lado nascente e sul.

O enfoque da exploração era a agropecuária, os cerais, os frutos, os legumes e o azeite.

Para aproveitamento de águas e para que esta não faltasse havia um poço e um enorme tanque, uma reserva estratégica em caso da sua escassez “… para regar algum pomar, ou horta, por falta de chuva, e causa de gelos, e ainda alguma seara de pão, cuja falta de água a possa arruinar, ou alguma terra que se não possa semear por endurecida, e que pela dita falta não produza novidade…”3

Existiu, no apogeu da Quinta da Lameira, um grande jardim de buxos, o tanque e o poço atrás mencionados bem como 2 coches que no inicio do século ainda eram persentes na quinta. O poço, que se encontra do lado poente, era circundado de frondosas árvores, complementares ao conjunto rural da quinta.

O solar, de implantação retangular, acompanha a dimensão da propriedade agrária com o seu tamanho e germinam ao seu lado grupos das casas térreas, feitas de materiais leves como a alvenaria de tijolo e o adobe, uma vez que a abundância de pedra é diminuta.

A fachada do solar é virada à estrada real que passa, ali bem perto, pela Quinta da Cardiga, que ligava Santarém a Tomar, e desde tempos arcaicos é Caminho de Santiago.

Do seu lado direito podemos visualizar, virada ao terreiro, a capela da quinta, onde existe um relógio solar.

Relógio de sol – Quinta da Lameira, Foto de Maria Esteves

A quinta e toda a área abaixo da Fonte da Moita, Horta da Fonte, a casa sede do Centro de Interpretação de Arqueologia do Alto Ribatejo, a casa que foi depois do Dr. Magalhães, e um imóvel na Rua Castilho, em Lisboa, bem como todas as propriedades até à Quinta da Torrinha, foram a grande herança atribuída ao Dr. Ribeiro da Silva. 4

Este médico prestou assistência, durante a sua vida, às donas da quinta, de apelido Rebelo. Como não tinham herdeiros legitimários (cônjuges, descendentes e ascendentes), deixaram todos os seus bens, em testamento, ao clínico que seria primo e que à data vivia em Lisboa. Outros herdeiros, da cidade de Tomar, reclamaram judicialmente o direito a essa herança, mas afigura-se nada terem conseguido.4

O Dr. Ribeiro da Silva (João Vaz Preto Nunes) casou, em 30 setembro de 1896, com Isabel Maria Stockler Sanches Soeiro Martins Ruas. Deste casamento nasceram 3 descendentes, João Manuel Ruas Ribeiro da Silva, que foi uma figura de grande importância na medicina portuguesa, nomeadamente na oftalmologia e Maria do Carmo Ribeiro da Silva (depois Passo), nascida a 24 de agosto de 1925.5

A filha Maria do Carmo viria a casar com José Manuel da Cunha Passo, nascido em 13 de setembro de 1925, em Mafra. O pai do seu cônjuge, Manuel Joaquim Baleizão do Passo, foi presidente da Câmara de Mafra e administrador naquele concelho em 1936. Outrossim, foi governador de Damão e de Diu, na India, e aqui veio a falecer em 1948.

A quinta ficou por partilha de herança entre os três irmãos para Maria do Carmo Passo. Logo, aqui começaram a viver definitivamente.

O terreno da primeira Escola do Ciclo Preparatório da Barquinha era da Quinta da Lameira.4

Paredes em pedra rolada

As quintas no Ribatejo, eram em meados do século XX, destino frequente de lazer por parte das elites urbanas. Ora, na Quinta da Lameira era frequente a presença do célebre diretor da PIDE/DGS Cunha Passo, que frequentemente, vinha repousar para a quinta da sua esposa, Maria do Carmo e que, mais tarde, aqui fixou domicílio permanente.

Vejamos a biografia de José Manuel da Cunha Passo, relatada pelo próprio:

“Entrei para a PIDE em 11 de junho de 1955, como Inspetor nos Serviços Informativos. Aí permaneci até 1958. Nessa altura transitei para os Serviços de Pessoal e Fronteiras.  Em 1961, fui colocado na Direção de Serviços de Investigação. Em 1962, novembro, fui promovido a Inspetor Adjunto.  Em 1964, fui nomeado Chefe do Gabinete Nacional da Interpol e desloquei-me pela primeira vez à Assembleia Geral da Interpol (Assembleias essas que se realizavam anualmente). Nesse ano foi à Venezuela. Durante essa Assembleia, a Etiópia tentou levantar o problema da nossa presença nesta organização invocando a nossa política Africana. No entanto, vendo-se sem apoio, o delegado daquele país acabou por retirar o seu pedido. Em 1965, fui eleito membro do Comité Fiscal da Interpol, na altura eu tinha a designação de Comissário de Contas. Éramos três elementos eleitos, anualmente, entre todas as polícias do mundo. Permaneci neste cargo até 1969, altura em que fui eleito Vogal do Comité Executivo da Interpol, para um mandato, com o apoio de Países Africanos, Asiáticos e Sul Americanos, para além de Europeus. Éramos sete candidatos da Europa e o eleito fui eu, com mais do dobro de votos que o segundo classificado. Era um dos três elementos representantes da Europa do Comité Executivo e era o único Português a fazer parte de um organismo internacional, fosse de que natureza fosse. Estive lá até 1972 e não voltei a concorrer a esse posto. Entretanto, em 1967, tinha chefiado a Segurança do Papa Paulo VI quando da sua vinda a Portugal. Devido à maneira como decorreu a visita, o Governo Colombiano pediu ao Governo Português autorização para que fosse um funcionário da Polícia Portuguesa à Colômbia (de preferência eu) para organizar e chefiar a Segurança do Papa quando da sua ida aquele país. O Governo Português deu autorização e eu fui para a Colômbia, onde estive três semanas. Durante o período em que estive no Comité Executivo, tive muito boas relações com quase todas as polícias do mundo e para citar algumas, Argélia, Quénia, México, Congo, para não citar países da Europa e outros mais que nos faziam «guerra». Em 1972, fui nomeado Diretor de Serviços de Investigação. Ainda nesse ano fui indicado como candidato à presidência da Interpol, mas não fui eleito. Vamos agora ao que interessa sobre o «movimento dos capitães».

O tanque e o poço da Quinta da Lameira

Em 9 de Setembro de 1973, fui informado que o «Movimento dos Capitães» tinha passado a ser controlado pelos comunistas. A DGS tinha conhecimento do que se estava a passar com esse grupo de pessoas. No entanto, devo desde já dizer, nunca foram dadas ordens superiores, governamentais, para que tivéssemos uma atuação adequada à situação. Em 16 de Março de 1974, aquando da «revolta das Caldas», eu estava em Paris, numa reunião da NATO. Foi preciso a DGS dizer ao Governo que os chamados revoltosos já estavam a caminho de Lisboa, para que o Governo acreditasse que aquilo que estávamos e informar era verdade. … No dia 25 de Abril de 1974 estava em Bruxelas numa reunião da NATO com o Subdiretor da PIDE ou DGS (que nessa altura já havia mudado o nome). Não regressei a Portugal. Estive exilado em Espanha até Junho de 1981. Uns dias antes, a 19 de Abril, antes de irmos para Bruxelas, tivemos uma reunião, o Diretor Geral Major Silva Pais, o Subdiretor Geral Barbieri Cardoso, o Diretor dos Serviços de Informação Álvaro Pereira de Carvalho e eu. Nessa reunião ficou assente o que se deveria fazer caso houvesse alguma perturbação de ordem pública. Nessa altura, a DGS assentava fundamentalmente em nós os quatro. Sabíamos que algo estava para acontecer. Julgámos que o movimento dos capitães se desencadearia a 1 de Maio de 1974. No dia 21 de Abril, Barbieri Cardoso e eu fomos para Bruxelas, para uma reunião do Comité Especial da NATO. Talvez devido à nossa ausência e esta é uma opinião meramente pessoal, o golpe foi antecipado para 25 de Abril. Estranhamente, o Presidente do Concelho, Marcelo Caetano, foi refugiar-se no Quartel do Carmo. Não eram essas as normas a seguir. Deveria ter ido para Monsanto, de onde seria fácil uma evacuação e o controlo do movimento. Uma opinião pessoal: Marcelo Caetano sabia que cairia, baldeado pela esquerda ou pela direita: escolheu cair para o lado dos comunistas ou talvez tivesse avaliado mal a situação e acreditado que as coisas se pudessem passar de modo diferente. Havia também algumas movimentações estranhas em prol de Spínola, mesmo dentro da própria DGS. O Inspetor Superior Coelho Dias e o Inspetor Fragoso Alas estariam feitos com António de Spínola. Aliás, assim que o poder foi entregue a este general, ele nomeou Coelho Dias Diretor Geral da DGS. O golpe de 25 de Abril foi um movimento controlado pelos comunistas tendo como fim a desagregação do Estado Português com a «libertação» das Províncias Ultramarinas. … O Portugal do Estado Novo tinha fundamentos muito válidos e certos. Todavia, após a entrada de Marcelo Caetano para o cargo de Presidente do Conselho de Ministros, passou a haver desmotivações em relação a esses princípios, o que, junto com a imensa propaganda comunista e socialista, criou um estado de contestação, embora dominado.  A DGS nunca teve problemas em relação ao controlo dessas atividades. O que me parecia haver era, a nível de governo, uma grande permissividade em relação a elas e falta de vontade para um combate eficaz a este estado de coisas. Ora, a DGS não atuava por si própria, obedecia a ordens. …”6

 

Estudo prévio – Quinta da Lameira

Deste relato do ex-director da PIDE Cunha Passo e dirigente do gabinete nacional da Interpol, que passava os seus tempos de lazer na Quinta da Lameira, ficamos a saber factos relevantes sobre o 25 de abril, inclusive que a PIDE/DGS sabia da possibilidade da realização de um golpe de estado, agendado para o 1.º de maio. O general Garcia dos Santos, que frequentemente visita a unidade de Engenharia, em Tancos, também afirma que a polícia politica sabia, antes do 25 de Abril, que se estava a preparar um golpe, lembrando mesmo uma conversa com um seu subdiretor-geral, Barbieri Cardoso.

Quanto ao resto, porque não é tema para esta crónica, quero só aqui memorar os atos praticados pela polícia política PIDE/DGS, onde relevo os maus tratos físicos, espancamentos ferozes, e as mortes. Quantos morreram por, tão só, quererem um estado de direito democrático e a liberdade de pensamento?

Teto em madeira do baixo-coro da capela da Quinta da Lameira que ostentava o Paracleto (Espírito Santo) pintado dentro de cercadura encimada por coroa imperial. Foto de Teresa Gil

A Barquinha tinha muitos olivais e, por isso, havia abundância em azeite. João Ribeiro da Silva, da Quinta da Lameira, António da Silva, da Quinta do Serrado, e José Marques Agostinhos & Filhos & C.ª, da Quinta do Lagarito, entre outros, estavam referenciados em meados do Séc. XX como grandes produtores. O azeite aqui produzido era exportado para África e Brasil.

A quinta na atualidade está em ruínas, restando como testemunhas do seu apogeu a beleza das suas milenares oliveiras de troncos estorcidos pelo tempo bem como o imponente tanque todo revestido a pedra.

Recentemente, foi adquirida por novo proprietário que tem a intenção de requalificar, tendo facultado ao signatário um interessante estudo prévio.

Por último, no longínquo ano de 1977, eu e bastantes jovens, do género masculino, e feminino, sobre o comando de Álvaro Ferreira de Matos, abraçámos ser bombeiros voluntários em Oleiros, a minha terra natal. Quis o destino que tivéssemos como instrutor Júlio Marques da Silva, Comandante dos Bombeiros da Barquinha entre 1981 e 1992. Dois homens com um coração do tamanho do mundo que quero aqui recordar e que me deixaram grandes lições de vida como a humanidade e a solidariedade.

Júlio Marques da Silva, com o pseudónimo “Zé Barquinhense”, publicou várias crónicas sob o tema “Sementes da Minha Lavra” bem como lendas e “Gazetilhas”, no Jornal Novo Almourol.

Aqui fica a lenda da Quinta da Lameira, pelo seu verbo e pela sua distinta pena.

Capela da Quinta da Lameira – Santo António, padroeiro da Barquinha – Foto de Maria Esteves

“Vão longe os anos em que, as quintas e os casais, faziam parte do nosso quotidiano. Ressalta-nos os nomes pomposos, imbuídos em tarefas que, o tempo fez perder. Os Maiorais, os Abegões, os Boieiros e tantos outros que, fazem parte de um passado, cuja memória tende em desaparecer. Numa altura que se aproxima a chegada do Euro, faz bem recordar, o salário que estes trabalhadores, aonde entravam as comédias, compostas por produtos produzidos na quinta. Desde o cavador das marradas, até ao limpador das oliveiras, são marcos imorredoiros que fazem parte da história local, e que em consciência, temos o dever de conhecer. Mas a Lenda da Quinta da Lameira, obriga-nos a olhar o Rio Tejo, que em tempos que vão distantes, avança sobre o Vale. Os grandes lameiros, resultado das diferenças de nível do próprio rio, teriam obrigado o povo, a dar-lhe aquele bonito nome. Situada junto à Vila da Barquinha e no caminho para a povoação do Pedregoso, diz a Lenda, que teria sido o Patriarca D. José que, mandou construir aquela edificação, fazendo dela, a sua casa de repouso.

Pelo movimento de muitos eclesiásticos, dizia-se que aquele vasto edifício, teria tido funções conventuais. Tal não teria acontecido, mas muitos religiosos teriam passado por ali, ajudando e desenvolvendo todo um potencial agrícola, como era timbre naquela época.

A Quinta da Lameira, além da vasta área que dominava, tinha um conjunto de Foros que passando pelo Bonito, chegavam à zona da Meia Via. E em dia aprazado, os Foreiros vinham à Vila para dar o Foral à Quinta da Lameira.

Além do mais, é de referir que toda a área militar do Entroncamento foi pertença da quinta, sendo vendida, para ali ser construído um apoio ao campo de manobras, que funcionava no Polígono de Tancos.

Teriam sido 14 contos, bastante para pagar aquela imensidão de terreno. A fertilidade da Quinta, dependia em grande parte, da água que transbordava dos tanques e, que vinha de uma mina, que existia junto à estrada da Aldeinha, muito próximo da Fonte da Moita. A água, assentando em técnicas muito recuadas, percorria uma longa distância, correndo quase sempre por caleiras. Instaladas nos topos dos muros, deixavam toda a graça e, mostravam todo o engenho do homem, ao conceber aquele sistema. A caleira, feita de telha portuguesa, lá foi metendo inveja a técnicas mais evoluídas. Mas um dia, o camartelo do progresso fez perder aquela beleza e nem um bocadinho ficou, para mostrarmos aos nossos netos.

Também, já mora no outro lado do tempo, o primitivo lagar de azeite, de grandes varas, tal como eram os lagares da época, e dotado de um célebre de moinho de moer a azeitona, cuja força dos bois, acionava todo o mecanismo. Quinta que foi de um espólio riquíssimo, encobre nas suas paredes, uma história longa de sucessão até aos nossos dias. O ornado carro de bois, que transportava os noivos em dia de casamento, a bonita Capela muito ao gosto do Patriarca D. José, a sineta junto à porta principal, onde se transmitia ordens à criadagem e se anunciavam os visitantes, são marcas palpáveis que nos levam à meditação.

É de referir, que pela complexidade da Quinta, os alunos das escolas primárias da vila, ali iam de visita de estudo uma vez por ano. Assim, se inteiravam das muitas fases que englobavam a sementeira até à colheita. Acabava a visita, não faltavam umas iguarias que tinham por base, frutos cristalizados, oriundos da própria quinta. Mas foram os grandes Lameiros, deixados pelo Rio Tejo, que obrigavam o povo, farto de pisar tanta lama a chamar-lhe QUINTA DA LAMEIRA.”7

Ninguém ama o que ignora pelo que importa dar a conhecer a história desta quinta de modo a catalisar o debate quanto à possibilidade de revitalizar este espaço privado, rural e monumental de Vila Nova da Barquinha.

1 Tombos da Ordem de Cristo: 1504-1510. Comendas do Médio Tejo. II, Iria Gonçalves, Manuel Sílvio   Alves Conde, Editora: Centro de Estudos Históricos, Universidade Nova de Lisboa, 2005

2 Postura da Camara da Barquinha de 28 de Maio de 1808

3 Postura da Camara da Barquinha de 27 de dezembro de 1837

4 Testemunho de Teresa Gil Pardal

5 Fonte Geneall.net

6 Internet: http://www.oocities.org/heartland/garden/4462/dgspasso.htm

7 Silva, Júlio Marques da Silva. Lenda da Quinta da Lameira. Jornal Novo Almourol, n.º 243, 2001

 

Fernando Freire é Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha e investigador da História Local

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2 COMENTÁRIOS

  1. Maia um interessante trabalho de história local. Ainda conheci a Quinta a funcionar e com o Sr Passo a viver lá. Numa visita que fiz ao interior da Quinta, quando era vereador da Câmara, fiquei admirado com o interessante acervo de que ainda dispunha e indignadíssimo com o facto de os varais do citado carro de noivos, de tracção animal, todo ornamentado, ter visto os seus varais serrados para arranjar espaço para uma coelheira. Agora é uma ruína sob a qual talvez se situe parte habitacional de uma villa romana, já que a parte rústica se situaria junto ao Pedregoso, aspecto a acautelar no futuro projecto de recuperação. Um abraço amigo

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