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Quinta-feira, Outubro 28, 2021

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“A Quinta da Lameira, os proprietários, o azeite e a lenda”, por Fernando Freire

Como tinha referido noutro artigo publicado no mediotejo.net, pelas fichas do PDM de Vila Nova da Barquinha identifiquei a Quinta da Lameira como quinta agrícola com solar e capela do séc. XVIII, desconhecendo qual a data precisa da sua construção. 

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Por outro lado, sabia de uma herança atribuída ao Dr. Ribeiro da Silva, médico que prestou assistência, durante a sua vida, às donas da quinta, de apelido Rebelo. Estas não tendo herdeiros legitimários, cônjuges, descendentes e ascendentes, deixaram todos os seus bens, em testamento, ao clínico.

Por último, importava cotejar a lenda para apurar a realidade dos relatos.

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1.º desafio – Qual a idade da Quinta? Para a idade da quinta obtive um documento que nos indicia que a mesma será, pelo menos, de meados do século XVIII. É magnífico tal documento porque ficámos a saber que a introdução em Portugal das novas técnicas a vapor aplicadas ao lagar de azeite, como a prensa hidráulica, aconteceu precisamente no concelho de Vila Nova da Barquinha, que à data possuía na sua circunscrição administrativa quer a Quinta da Cardiga quer a Quinta da Lameira.

2.º desafio – Quem seriam estas duas personalidades, com uma grande fortuna, e quais os seus ascendentes? Socorrendo-me de alguns documentos históricos consegui ir bem longe.  

3.º desafio – Quais as menos verdades da Lenda? Aqui um enlevo total.

Como referi no artigo anterior, a quinta era circundada por enormes olivais que produziam o denominado “ouro da terra”. A palavra azeite provém do árabe “az-zait”, que significa o sumo do fruto da oliveira. Este sumo é formado por água e azeite que os nossos antepassados, desde tempos imemoriais, extraiam por processos que foram sendo melhorados no sentido de se obter uma maior eficácia na separação do mosto oleoso do fruto em água e azeite (Gouveia e Saldanha, 2002). (1)

O azeite principiou por ser obtido dos frutos por esmagamento e adição de água, com recurso ao almofariz e ao pilão de pedra. Posteriormente, aperfeiçoou-se a habilidade da sua extração. O processo de moenda (que consiste na trituração da azeitona, até formar uma pasta) que na fase primitiva era manual, passou a incorporar, mais tarde, a tração animal, a força da água, do vento e da maquinaria.(1)

Após a moenda, a pasta de azeitona é transportada para a prensa. Aqui trabalhava-se por alavanca (prensas de vara simples, vara e tambor, de vara e parafuso ou de vara e quintal), utilizando capachos ou seiras. Estas prensas de varas chegaram até ao séc. XX e ainda se encontram hoje alguns exemplares em lagares de azeite e de vinho.(1).

Com a revolução industrial e a aplicação do vapor ao lagar, surgem novas maquinarias e as prensas de varas são substituídas por prensas hidráulicas. Mais tarde, surgem os centrifugadores horizontais ou decanters, que permitindo o funcionamento dos lagares em modo contínuo, melhoraram os rendimentos e as condições higieno-sanitárias das instalações e reduziram a quantidade de mão-de-obra necessária. (1) 

Este último modelo, centrifugadores horizontais ou decanters, pode ser atualmente vislumbrado no Lagar do Casalinho, Limeiras, Praia do Ribatejo, neste concelho da Barquinha.  

O modelo de prensa hidráulica, ainda que em lagares desativados, encontram-se na Atalaia, nas Limeiras e na Quinta da Torrinha, propriedade confinante com a da Lameira, na Barquinha, por onde em tempos recuados existiram os pastores, os boieiros, os maiorais, os abegões e, tantos outros que, desde o nascer ao sol-posto, eram assíduos atores de um palco duro no trabalho do campo.  

O lagar de vara estava pois presente na Quinta da Lameira e na Quinta da Cardiga.

Para acionar o moinho da Quinta da Lagarito, ali ao lado da Quinta da Lameira, em 1837, eram utilizadas “…as águas dos ribeiros da Aldeinha, Portos, e fonte da Moita, e tendo em atenção à antiga postura feita em Câmara de 28 de Maio de 1808 …continuará a água da fonte da Moita a ser distribuída na conformidade da sobredita Postura … ficando no resto do tempo, pertencendo a mesma água para trabalhar o engenho d’azeite, chamado o Lagarito …” cfr. art.º 53.º da Postura de 1837 da Câmara da Barquinha. 

Para o lagar de vara da Quinta da Lameira seria utilizada a água do Ribeiro de Vale Marques e cursos de água adjacentes.  

No lagar da Ponte da Pedra, do Sr. Trigoso, era célebre o seu engenho com a roda principal movida por água, da ribeira da Atalaia, com 3 galgas, 4 varas e com movimento rápido que permitia fazer uma moedura numa hora.

Todos estes lagares de varas entraram em desuso com o aparecimento da prensa hidráulica, cujo “projeto piloto” em Portugal ocorre em fevereiro de 1843.(2)

“Há na Quinta da Cardiga um novo lagar de azeite, que já fez a safra passada, e promete grandes lucros aos lavradores da vizinhança, que dele se servirem, assim como ao seu animoso proprietário, o Sr. Lima, que bem merece a gratidão pública, por ser o primeiro introdutor deste grande melhoramento para entre nós; o seu exemplo temos que há-de ser seguido por outros proprietários ilustrados, com imenso proveito da agricultura, que só carece para prosperar, destes novos métodos racionais e aprovados, e de muitos e bons caminhos e outras vias de fácil e barato trânsito, em vez de teatros agriões e monumentos estéreis. São as galgas deste novo lagar movidas por uma pequena máquina de vapor, de alta pressão, e da potência de 2 cavalos apenas, feita por Mr. Chapelle de Paris.”

Sabíamos da grandiosidade da Quinta da Cardiga que englobava as construções anexas de apoio agrícola, dispostas ao redor da torre construída por Gualdim Pais, que demonstram, inequivocamente, a importância do domínio e da capacidade da sua exploração agrícola desde os primórdios da nacionalidade.  Para além do palácio existiam os celeiros, o armazém de azeite, a adega de vinhos, as casas dos trabalhadores, etc. Por este relato ficamos a saber que há um novo lagar de azeite que vai receber o último grito da modernização, vulgo revolução industrial, a introdução da máquina a vapor nos mecanismos do lagar.

Voltando à narrativa de 1843: “O azeite é espremido do bagaço por uma prensa hidráulica, que mal ocupa cinco palmos quadrados, em lugar da antiga, volumosa, e empachadora vara. O resultado deste engenho e novo processo, é o mais satisfatório: 1.º Moe e espreme completamente, um lanço de 12 cestos em pouco mais de 1 hora. Nos lagares à antiga, até nos que se reputam mais perfeitos, mal se pode executar este mesmo trabalho em 12 horas. 2.º O combustível necessário para alimentar estas máquinas não excede ao preciso na antiga prática para a caldeação do azeite: a água para esta calda, por este novo modo, é aquecida pelo mesmo vapor da Caldeira, que vem à tarefa por um tubo com sua torneira.”

“Experiências comprovativas da excelência deste novo método: 1.º O Sr. Vasconcelos, feitor da Cardiga, mandou preparar um lanço no novo lagar, e outro igual e da mesma tulha no antigo lagar da Lameira do Sr. Rebello Farinha. O lanço preparado no lagar de vapor e com a prensa hidráulica, produziu 8 alqueires e meio de azeite – o preparado no lagar da Lameira apenas produziu 7 alqueires; e isto estando o bagaço debaixo da vara 48 horas, quando de ordinário só está de 6 a 8 horas! – Ainda mais: este mesmo bagaço, depois de estar as ditas 48 horas debaixo da vara, mandou-o o Sr. Vasconcelos meter na prensa hidráulica, e deu mais, um alqueire de azeite. 2.-Não contente o Sr. Rafael José da Cunha com esta demonstração, quis verificar ainda com mais exatidão a superioridade do novo método. Fez apartar dois lanços da mesma tulha, do mesmo peso e em tudo iguais: sistema antigo, produziu 10 alqueires de azeite o outro, preparado na Cardiga deu 13 alqueires! Tal é a grande utilidade da nova prática imensa quantidade de azeite não tem perdido os nossos lavradores.” 

Ou seja, vemos os resultados da aplicação das novas técnicas aos lagares, mais alqueires de azeite recolhido bem como uma diminuição, abissal, de horas de trabalho. Por outro lado, ficamos a saber, com especial interesse para a presente crónica, que havia um “antigo lagar da Lameira do Sr. Rebello Farinha”. Ora, em 1843, ao fazer-se referência à sua antiguidade a mesma não deveria ser inferior a 100 anos, pelo que computamos a existência de um lagar Lameira de vara por volta de 1740.    

O narrador estava maravilhado com os resultados obtidos da máquina a vapor, à data novidade em Portugal: “Estas máquinas sendo estabelecidas em sítios, onde haja, ou para onde facilmente se possa conduzir, suficiente combustível, hão-de ser de grande proveito para os seus possuidores; e de máxima utilidade para a lavoura em geral: pois que então, armando no mesmo lagar os engenhos próprios, poderá a máquina motriz trabalhar todo o ano sucessiva, e variamente, debulhando o trigo e outros grãos e legumes, moendo os cereais os ossos para adubo das terras, traçando as palhas quando preciso, moendo casca para os curtimentos de coiros, serrando madeiras, principalmente por sítios onde se faz a buana para as caixas de laranja, e extraindo das várias sementes e bagas os muitos óleos vegetais tão uteis às artes e indústria etc. Oxalá que os homens abastados, inteligentes, e amigos da sua terra, se convençam bem da incomparável utilidade destes novos métodos; e que, ou per si ou associando-se, espalhem pelo reino estabelecimentos análogos ao da Cardiga. Honra ao Sr. Lima que primeiro encetou nisto o Caminho do progresso, da riqueza e prosperidade agrícola nacional. Este método aperfeiçoado e expedito, de fazer o azeite, dispensa o uso do sal nas tulhas para obstar à fermentação da azeitona; que assim, não tem tempo de se desenvolver. Ora, a azeitona salgada dá muito pior azeite, e o emprego do sal, principalmente nos silos distantes das marinhas, é causa de não pequena despesa; a qual, desaparece pelo novo sistema de lagares.”

Perante os resultados obtidos na experiência e os fundamentos invocados pelo escritor, qual bom vendedor dos tempos atuais, não restam dúvidas ao signatário que se vivesse naqueles tempos teria feito, também ele, negócio.

As Posturas municipais dizem-nos muito da vida dos nossos antepassados. Elas regulam o funcionamento e licenciamento de atividades, hábitos de utilização do espaço e coisa pública, das vias de comunicação, comércio, saúde pública, ordem pública, etc. Compulsando a Postura de 1837 de Vila Nova da Barquinha, vemos que muitas das suas normas estão direcionadas para as relações marítimas (com o Tejo) e também para as atividades ligadas deste a apanha da azeitona até à saída do azeite do lagar. O azeite, como as atividades do rio, eram fundamentais para a criação de riqueza no nosso concelho. Curioso é saber a oposição do Ilustre Delegado, que ao art.º 12.º, (furtos da azeitona) invoca que temos não uma, mas muitas Leis, que castigam os roubos, e o apanhar azeitona em olivais alheios sem licença de seus donos.

Responde a Câmara que esta Postura de 1837 é de muita necessidade, porque havendo neste Concelho mais de 800 cidadãos, (tanto deste Concelho, como fora dele) que possuem olivais no mesmo concelho, seria necessário que cada um dos ditos cidadãos pusessem um guarda nos seus olivais, para guardarem a azeitona; o que fica providenciado pela dita Postura, que há mais de três seculos se tem observado nos referidos suprimidos Concelhos de Atalaia, Tancos, e Paio de Pelle, sem que nunca fosse reprovada, antes sempre recomendada pelas autoridades superiores. Esta Postura se acha observada por todos os concelhos vizinhos, e sendo suprimida, será de muito prejuízo aos proprietários. Para além das sanções para o furto e roubo da azeitona nos olivais, previstas no art.º 12.º; o art.º 49.º sanciona quem cortar oliveiras ou as danificar; o art.º 60.º regula o licenciamento para o lagar poder trabalhar; o art.º 61.º fixa ao lagareiro os títulos e termos que este deve possuir para exercer esta atividade; o art.º 62.º determina que não podem existir relações de parentesco entre o mestre, o moedor e o dono do lagar; o art.º 63.º determina que deve haver fiança perante a Câmara para em caso de perda ou dano aos donos da azeitona ou aplicação de multas por violação de normas;  o art.º 64.º limita as medidas do azeite e os cuidados a ter com as seiras e da sua substituição, bem como a obrigatoriedade de uso de candeeiro aceso à noite; o art.º 65.º regula a vigilância, o asseio e o arranjo dos lagares. 

Se no concelho da Barquinha existiam 800 olivicultores, não há dúvida que figuravam entre os maiores os donos da Quinta da Lameira. E na sequência de tantos olivicultores e da abundância de azeitona, haveria um número significativo de lagares e de homens habilitados a trabalhar nesta atividade. 

Muito usado na alimentação, não nos podemos esquecer que o azeite era o mais importante combustível para iluminação doméstica e pública, daí a sua importância no normativo das posturas municipais. 

Mas quem era aquela família Rebello Farinha para ser tão abastada e até poder ter (?) um nome de um largo no centro da Vila, o Largo do Rebello, onde se situa o chafariz?

Quando existe riqueza a distribuir é sempre mais fácil investigar pois, tendencionalmente, há mais conflitos entre herdeiros. Não menosprezemos que naquele tempo surgiam muitos filhos ilegítimos que aquando da morte do(s) progenitor (es) se posicionavam na partilha da herança. 

A solução para evitar potencias demandas supervenientes passava pelo recurso dos herdeiros junto das entidades oficiais para que estas publiquem éditos citando todas as pessoas incertas, para deduzirem qualquer impugnação à habilitação da herança.   

Compulsando os vários éditos publicados, ao tempo, ficamos a saber:

Que a herança do Dr. Ribeiro da Silva, da família Rebelo, era pertença da D. Maria Efigénia da Silva Rebello e D. Benedita Emília da Silva Rebello (irmãs), que falecerem sem herdeiros e que por testamento o confirmaram como universal herdeiro. 

A mãe da D. Maria Efigénia e da D. Benedita Emília era Mariana Emília da Silva Rebello, que também se assinava por D. Mariana Emília de Carvalho e Silva Rebello. Seu pai era o proprietário, João Rebello Farinha, que nasceu em 1830, e faleceu em 11 de janeiro de 1904, com 74 anos de idade.

João Rebello Farinha era filho de José António Rebelo Farinha e de Maria Silvestre, ambos naturais da Barquinha, cfr. assento de óbito.  

A sua família abastada vivia de negócios marítimos, arrais do tejo, da exploração agrícola, dos terrenos no Entroncamento, na Atalaia, na Quinta da Lameira e dos cargos públicos exercidos, magistratura e autárquicos. 

178 (?) – nasce o Dr. João Rebello Farinha – causídico, tem o mesmo nome, do grande proprietário, que foi o João Rebelo Farinha, pai da Efigénia e da Benedita. 

Era filho de José António Rebello, natural da Lameira, termo da Atalaia, comarca de Tomar. 

Em 1820, é magistrado, o bacharel, João Rebello Farinha, sendo nomeado provedor da comarca de Vila Nova de Portimão.(3) 

Também nascido na Lameira era o Dr. António Rebello Farinha de Sousa. Era filho de José António Rebello Farinha e da D.  Maria Silvestre de Sousa, e cursava direito na Universidade de Coimbra, em 1855/1856, pelo que seria irmão do Dr. João.(4)  

Este, em 21 de junho de 1834, é nomeado Provedor da Santa Casa da Misericórdia da Atalaia, então concelho. (5) 

Em 1836, é exonerado cargo de Administrador do concelho da Atalaia

Em 1868, depois de ter sido juiz de fora em Ourém, “vive ainda na sua Quinta da Lameira”.(6)

O seu pai tinha vários olivais e alguns arrendados.(7) 

O Dr. José António Rebello Farinha, foi juiz da paróquia de Santo António da Barquinha, de Nossa Senhora da Assunção da Atalaia, Nossa Senhora da Conceição de Paio de Pelle e de Nossa Senhora da Conceição de Tancos.

Ou seja, a família detinha magistrados judiciais o que naquele tempo só era acessível a famílias abastadas ou com elevados rendimentos. 

João Rebello Farinha, proprietário, foi nomeado, em 1865, para o lugar de administrador do concelho de Vila Nova da Barquinha.(8)  

Por Édito de 13 de janeiro de 1880, aquando da expropriação amigável dos terrenos para a feitura da estrada que ligava Torres Novas à Barquinha (estrada distrital n.º 75, lanço do Entroncamento à Barquinha), temos vários terrenos que vão ser ocupados pelas estrada: 230 metros quadrados de terreno de olival e sete oliveiras, no sítio de Vale de Marques, … pertencente ao Dr. António José Rebello Farinha, da Quinta da Lameira, o qual os cedeu pela quantia… ; 200 metros  …no sítio da Lameira, .. pertencente ao mesmo Dr. António José Rebello Farinha, o qual os cedeu pela quantia… ; parte da propriedade denominada Vaginhas, pertencentes a João Rebello Farinha e a sua  mulher, da  Barquinha, os quais os  cederam …, etc.

Numa análise superficial ao Édito de 1880, verificamos que a família Rebello era proprietária de muitas propriedades, quer na Barquinha quer no Entroncamento. 

Curiosa é a redação do Édito que fala em ações e títulos do Banco de Portugal, omitindo todos os outros bens patrimoniais, que eram muitos na herança, entre os quais imóveis no centro da vila.  

Assim, o Dr. Ribeiro da Silva viu incorporados na herança, entre outros, os bens do Dr. António José Rebello Farinha, morador, que foi, na quinta da Lameira, freguesia da Atalaia, concelho da Barquinha, tio de João Rebello Farinha, ainda sobrevivo em 1901, e sua esposa D.  Mariana Emília de Carvalho Silva, e de D.  Maria Benedita Rebello de Sousa, solteira.

Por último, feitas estas singelas investigações, confrontar os factos apurados com a Lenda da Quinta da Lameira que publiquei recentemente em crónica (I parte).

As lendas e os mitos fazem parte intrínseca da história da humanidade. O passa palavra, a vulgar comunicação é feita através do contato social, do diálogo que passa de geração em geração. Esses conhecimentos empíricos são criados pela imaginação humana, mas têm sempre uma base de verdade. Diz a lenda, em síntese: 

– Que foi o Patriarca D. José que construiu a Quinta da Lameira. É menos verdade. O Patriarca D. José tinha de facto uma quinta, mas era a do Vale Seixo cuja propriedade mandou tombar em 1744.

O Tombo abre assim: A primeira folha com desenho, com o lema VALOR, VITÓRIA E IMPÉRIO, um escudo com as armas a vermelho, ouro, verde, amarelo, castanho e creme, pintado à mão e com a data de 1744, insígnia cardinalícia onde se encontram as armas dos Condes da Atalaia.

A segunda folha, com uma cercadura artisticamente desenhada, figurando folhas, frutos, flores e laços e, no centro: “Tombo da Quinta do Vale do Seixo, que mandou fazer o Exm.º e Rev.º Principal D. José Manoel, do concelho de Sua Magestade, e Deão do Collegio da Santa Igreja de Lisboa” A vermelho e preto.

A folhas 3 surge a seguinte inscrição: “Juiz Doctor Manoel de Faria Soutto – Anno de 1744. Ano de nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo … aos 15 dias do mês do Junho … a instancia de D. José Manoel, do concelho de Sua Magestade, e Deão do Collegio da Santa Igreja de Lisboa … para que tombasse medida e demarcasse a sua quinta … As folhas seguintes, todas enumeradas e rubricadas, estão escritas em português arcaico. O tombo conta que esta Quinta do Vale do Seixo está situada no termo do concelho de Atalaya e Torres Novas, tem casa de brasão, casas térreas, moinho, lagar de azeite, terras de pão, olivais, vinha, pomar, matos e pinhais”.

Procede à sua demarcação, identifica os terrenos confinantes, (para este ato são chamados os seus representantes legais e colocados éditos) aplicados marcos na divisão, procede à identificação dos seus proprietários e mede toda a sua extensão. O Tombo acaba com vários dizeres, duas assinaturas do mesmo Juiz. Antes das assinaturas tem como que um selo desenhado à mão e termina com uma cruz e quatro pontos no alto, certamente o selo de D. José Manoel. No final da última página, em baixo, está escrito que todas as páginas vão numeradas e rubricadas pelo proprietário. Segue-se a data: Atalaya 21 de Junho de 1744. Este tombo da Quinta do Vale-do-Seixo, com 80 folhas de pergaminho, já amareladas pelo tempo, é um testemunho de que aqui existiu, no século XVIII, uma quinta que foi posse do Patriarca D. José Manoel.(9) 

– A lenda diz que tinha um conjunto de foros que chegavam à zona da Meia Via. Que os Foreiros vinham à Vila para dar o Foral à Quinta da Lameira. Confirmado.

– Que a área militar do Entroncamento foi pertença da quinta, sendo vendida, para ali ser construído um apoio ao campo de manobras, que funcionava no Polígono de Tancos. Confirmado. De facto, as herdeiras D. Maria Efigénia e da D. Benedita Emília venderam propriedades, no início do século XX, para as instalações militares (a venda do terreno para o depósito de materiais, ocorreu em 1916), à companhia dos caminhos de ferro, em frente aos quartéis, e à Câmara para a criação do mercado diário, bem como venderam algumas das propriedades a Luís Sommer, proprietário da Quinta da Cardiga, e filhos, em 3 de junho de 1921. (10)

– A fertilidade da Quinta, dependia em grande parte, da água que transbordava dos tanques e, que vinha de uma mina, que existia junto à estrada da Aldeinha, muito próximo da Fonte da Moita. Confirmado, em parte, quanto à origem da água cfr. postura municipal de 1837. (11)

– Que tinha um primitivo lagar de azeite, de grandes varas, tal como eram os lagares da época, e dotado de um célebre de moinho de moer a azeitona, cuja força dos bois, acionava todo o mecanismo. Confirmado por documento.(2) 

Por último relevar o peso social de João Rebello Farinha no concelho da Barquinha, pois em 1874 é-lhe oferecido uma cópia do mapa desenhado em 1783, com a reconstituição da zona da Cardiga, antes da mudança do Tejo nos meados do séc. XVI.(12)

A memória da quinta, durante muito tempo, permaneceu oral e coube-me a mim passá-la a manuscrita, através destas duas crónicas. 

Tomara que o privado que recentemente tomou posse da propriedade faça a requalificação desta rústica preciosidade para trazer, novamente, vida a esta Quinta da Lameira que tem tanta história para contar. 

Com imaginação e arte seria possível renovar as construções pré-existentes, bem como requalificar os terrenos que a rodeiam, transformando o lugar num lindo local de sossego e de lazer.

Fernando Freire é Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha e investigador da História Local

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