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Domingo, Outubro 24, 2021

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“A pressão dos media na intervenção social”, por Vânia Grácio

Como alguns saberão, até porque em baixo da crónica está uma breve nota curricular, sou Assistente Social de profissão (e coração). Gosto muito do que faço e com quem faço. É uma profissão desafiante, que nos leva muitas vezes ao limite da emoção e da exaustão. Apaixonante mas que poucos reconhecem. Muitos acham que fazemos caridade, outros acham que só tratamos de reformas e subsídios. Tenho o prazer de trabalhar em equipas multidisciplinares, portanto com profissionais de várias áreas e de estar inserida numa comunidade com uma rede social forte e coesa. Podia ser melhor, podia, mas a nota é positiva, sendo que não existem casos perfeitos.

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Para a maioria das pessoas é fácil especular, dizer que nada se faz, ou que só se ajudam uns em detrimento de outros. Por questões de ética profissional e no respeito pelos princípios deontológicos estamos impedidos de sequer nos defendermos quando somos acusados de nada fazer.

Se cada um de nós parasse para pensar dois segundos, compreenderia que se fosse a sua situação, não gostaria que o profissional que o está a acompanhar/tentar ajudar, falasse da sua vida a terceiros. Não é novidade mas, mais recentemente, tem havido um boom de notícias sobre casos sociais. Acusam-se pessoas na praça pública, fazem-se julgamentos, criticam-se os serviços, criticam-se as pessoas que não aceitam a ajuda dos serviços, enfim…

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A comunicação social/os media têm uma grande responsabilidade quando estas situações acontecem. Esmiuçam a vida privada das pessoas, fazem diretos, fazem reportagens expondo as fragilidades daqueles que têm pouca capacidade para se protegerem desta exposição. Mais, fazem-se rubricas em horário nobre na televisão, com pseudo especialistas em coisa nenhuma, que emitem pareceres e decisões sobre casos sem qualquer conhecimento de causa, que de nada têm de conhecimento cientifico ou do cumprimento da legislação em vigor. São baseados portanto na mera opinião individual proveniente de juízos de valor sem fundamento.

Com isto constrói-se a opinião pública e tenta-se interferir na decisão dos profissionais da ação social e dos tribunais. Triste sina a de quem não pode defender-se por não ter essa possibilidade ou capacidade. Triste desígnio de quem a troco de uns euros no final do programa, achincalha a vida alheia como se não houvesse amanhã.

Não, não fazemos futurismo, não conseguimos prever ou antecipar situações de perigo, mas temos ferramentas para trabalharmos na prevenção e quando necessário na reparação dos danos, até mesmo os causados por terceiros instigados pelos fazedores de opinião. Mas é importante que se tenha noção que nem todos cedem a estas pressões, que não é a televisão que arranja soluções, que nem todos mudam pareceres ou não fazem o que têm de fazer para proteger quem precisa, por receio da exposição na comunicação social.

Tendo consciência de que fizemos tudo, que demos tudo, estando convictos de que demos o melhor de nós … resta-nos agendar cabeleireiro e aguardar que as câmaras cheguem.

Vânia Grácio é Assistente Social e Mediadora Familiar e de Conflitos.
Licenciada em Serviço Social pelo Instituto Superior Bissaya Barreto e Mestre em Serviço Social pelo Instituto Superior Miguel Torga. Pós Graduada em Proteção de Menores pelo Centro de Direito da Família da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e em Gestão de Instituições de Ação Social pelo ISLA. Especializou-se na área da Mediação de Conflitos pelo Instituto Português de Mediação Familiar e de Conflitos.
Trabalha na área da Proteção dos Direitos da Criança e da Promoção da Parentalidade Positiva. Coloca um pouco de si em tudo o que faz e acredita que ainda é possível ver o mundo com “lentes cor-de-rosa”. Gosta de viajar e de partilhar momentos com a família e com os amigos (as). Escreve no mediotejo.net ao sábado.

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