“A política local não devia ser política pequena”, por Helena Pinto

As eleições autárquicas aproximam-se. Daqui por um ano estaremos em campanha eleitoral. E esta aproximação causa, em muitas situações, um nervosismo e uma hiper-actividade que contrasta com os outros anos do mandato, sobretudo em quem está no poder. Poder-se-ia pensar o contrário, mas se verificarmos é assim mesmo que acontece. Parece que se concentra neste último ano a conclusão de obras, os anúncios de mais obras, as boas notícias sobre o desempenho do município, as características únicas dos presidentes de câmara….

PUB

Também é verdade que existe um esforço das oposições para retirar conclusões sobre a actividade das maiorias. Não direi o contrário. É assim mesmo a luta política e a democracia.

O que me preocupa e desgosta é outra coisa, é mesmo a substância da coisa, o conteúdo, a argumentação utilizada. Em Torres Novas, o caso que conheço melhor, também devido à ameaça do anterior presidente da Câmara se candidatar como independente, existem exemplos de sobra. Tomemos como ponto de partida o dia da Cidade (8 de Julho) e os discursos do Presidente da Câmara e do Presidente da Assembleia Municipal. No essencial tratou-se de comparar estatísticas para se concluir que no “nosso tempo é que é bom”, agora é que os números são bons. Como se fosse possível comparar apenas números, alguns com décadas de diferença, ignorando completamente o seu contexto.

PUB

Depois veio o mais grave: a satisfação face aos rendimentos médios dos habitantes do concelho – “estamos no pelotão da frente” a nível nacional e a nível regional. Um dirigente do PS afirma mesmo na sua página de facebook “mais uma vez Torres Novas destaca-se entre os melhores”…. Já tínhamos sido “a cidade mais segura de Portugal”, já tínhamos tido a maior qualidade de vida e por isso recebemos muito dinheiro do Orçamento de Estado enquanto comparticipação do IVA, estamos na vanguarda porque a FNAC vai abrir uma loja, e por aí fora…

Em Torres Novas o rendimento médio mensal livre de impostos são 660 euros!! A satisfação com os baixos salários, embora não seja novidade, continua a chocar-me. Assim como quando se fica muito satisfeito com a abertura da FNAC, que contratou e despediu logo a seguir, mas pouco importa. Torres Novas está na moda…

PUB

E agora chegaram os números dos edifícios construídos e mais um ranking e mais um lugar no pódio.

Se limitarmos as nossas analises aos números dos rankings e pelo lugar em que cada município fica na tabela estamos a contentar-nos com muito pouco e a enviesar a análise. Seremos felizes porque somos o n.º 1 dos baixos salários, sendo que o problema reside mesmo é nos baixos salários.

Aquilo que se exige a quem quer governar não é que seja o n.º 1 das tabelas, é que consiga encontrar os caminhos para que o concelho se desenvolva e a qualidade de vida seja uma realidade – e com 660 euros não é, com toda a certeza.

Toda esta narrativa, que surge mais ou menos articulada leva ainda a outro discurso muito perigoso. Outro dirigente do PS na sua coluna de opinião num jornal local afirmava que “Torres Novas assumiu um crescimento inigualável na região do Médio Tejo, consolidando a sua posição de liderança e influência numa área territorial que se expande para além dos seus limites concelhios”. Para além de ser necessário compaginar esta afirmação com a realidade, ela abre porta à competição dentro, não de uma região porque o não é, mas dentro de uma comunidade de municípios. É esse o caminho? Os municípios não necessitam de se liderar uns aos outros, precisam de colaborar e aproveitar as suas potencialidades para servir as populações, a política local tem um papel único a desempenhar para a saída da actual crise.

A escolha é nossa, pelos vistos há quem não tenha aprendido nada com o passado e se contente com a política pequenina.

PUB

Ah, e já agora, vale a pena lutar para conseguir empregos dignos e sem precariedade e salários justos.

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).

pub

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here