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Quinta-feira, Setembro 23, 2021

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“A perda de biodiversidade e a pandemia”, por José Trincão Marques

“A ética da Terra apenas alarga os limites da comunidade por forma a incluir nela os solos, as águas, as plantas e os animais, ou, coletivamente: a Terra. (…) Em resumo, uma ética da Terra altera a função do Homo Sapiens, tornando-o de conquistador da comunidade da Terra em membro e cidadão pleno dela. Implica respeito pelos outros membros seus companheiros, e também respeito pela comunidade enquanto tal.” – Aldo Leopold, in A Sand County Almanac, 1949

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1-      A pandemia Covid-19 que nos afeta desde finais do ano de 2019 – doença respiratória aguda causada pelo coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2 (SARS-CoV-2) – merece uma análise e uma abordagem poucas vezes realizada e ainda menos divulgada, que consiste na relação direta que esta pandemia tem com a perda de biodiversidade e com as alterações climáticas.

Com efeito, desde há alguns anos vários cientistas têm alertado que cada vez mais as doenças infeciosas humanas que surgiram primeiro em animais estão relacionadas com a desflorestação, com a perda de biodiversidade e com as alterações climáticas.

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A pandemia Covid-19 que vivemos é mais uma consequência das alterações globais que ocorrem no planeta Terra provocadas pela ação humana.

Vejamos de que forma…

2-      Biodiversidade é um termo científico relativamente recente, criado em 1986, pela combinação das palavras diversidade e biológica, pelo entomologista norte-americano Edward Osborne Wilson, no 1º Fórum Americano sobre Diversidade Biológica, organizado pelo Conselho Nacional de Pesquisa dos EUA (National Research Council, NRC), passando a ser usada em substituição da expressão diversidade biológica, utilizada até então e estudada pioneiramente pelo ambientalista e biólogo também norte-americano Thomas Lovejoy.

A biodiversidade é o conjunto das diferentes formas de vida existentes na Terra, a variedade de seres vivos dos ecossistemas do meio terrestre, marinho e de outros ecossistemas aquáticos, desde micro-organismos até grandes plantas e animais. O conceito de biodiversidade inclui a diversidade genética, a diversidade de espécies e a diversidade de ecossistemas numa determinada área.

A biodiversidade é essencial para a vida na terra, sendo o suporte do ambiente em que vivemos e do qual dependem as vidas de todos os seres vivos (incluindo a do ser humano).

A biodiversidade tem importância ambiental, económica, social e cultural.

Ambientalmente a biodiversidade é fundamental para o funcionamento e equilíbrio de todos os ecossistemas da terra, dado que todos os seres vivos participam de alguma forma em cadeias alimentares e em sistemas de reprodução de espécies (por exemplo alguns animais na polinização das plantas).

Assim, o desaparecimento de um organismo de determinado ecossistema desencadeia de imediato vários desequilíbrios ecológicos.

Mas a biodiversidade tem também uma importância direta e relevante para o ser humano como fonte alimentar, energética, de recolha de matéria-prima para variados usos industriais (incluindo medicamentos) e de lazer e turismo.

Vivemos atualmente tempos sem precedentes em termos de ameaça à biodiversidade, com enormes reduções e perdas de muitas espécies e habitats.

Mais de 25.000 espécies de plantas e animais correm o risco de extinção iminente num futuro próximo.

De acordo com a WWF (World Wide Fund for Nature), a perda da biodiversidade verificada entre os anos de 1970 e 2000, cerca de 35%, só é comparável a eventos de extinção em massa ocorridos apenas quatro ou cinco vezes durante milhões de anos de história da Terra.

Os atuais padrões de produção e consumo humano constituem as principais ameaças à biodiversidade, nomeadamente a utilização crescente e sobre-exploração de recursos naturais, a destruição e a degradação de habitats naturais, a poluição, a introdução de espécies exóticas, a seleção artificial de plantas e animais e as alterações climáticas.

3-      Vários cientistas e investigadores estimam que três quartos das novas doenças que infetam humanos surgiram em animais, como o Ébola, o SARS, a gripe das aves, a MERS, o Zika, o vírus do Nilo Ocidental, o vírus de Marburgo, a febre de Lassa, a Nipah e agora a Covid-19.

O aparecimento destas doenças em seres humanos tem vindo a aumentar por vários motivos, nomeadamente o elevado número de viagens que se fazem pelo mundo, o crescimento do comércio internacional, a concentração de pessoas em áreas densamente povoadas, mas sobretudo a perda vertiginosa da biodiversidade.

A desflorestação tem aumentado constantemente nas últimas duas décadas e contribui para o aumento de surtos de doenças infectocontagiosas, dado que afasta os animais selvagens dos seus habitats naturais e aproxima-os dos locais onde se concentram as populações humanas, criando uma oportunidade para a ocorrência de doenças zoonoses (que se transmitem dos animais para os seres humanos).

A maioria das doenças infecciosas que apareceram recentemente são zoonoses, tendo como principais causas antropogénicas a desflorestação e as consequentes perdas da biodiversidade.

4-      Fazem parte da biodiversidade (da microbiodiversidade) muitos seres microscópicos, ainda pouco conhecidos, nomeadamente as bactérias, as arqueas (Archaea), as leveduras, as amebas, os vírus e os mixomicetos, protistas microscópicos, plasmodiais, que se alimentam de microrganismos, como leveduras, fungos, bactérias e, provavelmente, também de vírus.

Os mixomicetos reproduzem-se por esporos e constituem um subfilo, os Mycetozoa, com cerca de 1000 espécies. As florestas são dos ecossistemas onde são mais abundantes, quer na manta morta, quer na superfície das plantas e nas cascas das árvores.

Cada árvore tem na sua casca milhares de mixomicetes. Quando se abate uma árvore das florestas tropicais, estamos a matar ao mesmo tempo também milhares de predadores microscópicos de outros microrganismos.

Simultaneamente, quando destruímos o ecossistema florestal, contribuímos para a libertação de milhões de bactérias e vírus que podem provocar novas doenças, multiplicados por falta dos seus predadores (mixomicetes), que despareceram com o derrube da floresta.

Atualmente, existem apenas 20% das florestas que existiam quando o Homo Sapiens apareceu na Terra. Com a desflorestação eliminamos predadores de microrganismos que podem vir a ser agentes de novas doenças transmissíveis ao ser humano.

5-      Cada vez mais se torna evidente a necessidade de respeitar os valores intrínsecos dos ecossistemas naturais, de apreciar e valorizar a natureza, de promover uma economia ecológica e de executar verdadeiras políticas públicas de conservação da natureza.

E de agir com urgência e emergência.

Como escreveu Aldo Leopold, em 1949, no seu clássico livro A Sand County Almanac, “a conservação da natureza é um estado de harmonia entre os homens e a Terra. Apesar de quase um século de propaganda, a conservação ainda avança a passo de caracol; o avanço continua quase sempre a consistir no envio de cartas timbradas bem intencionadas e na oratória dos congressos.

Na realidade do terreno, continuamos a recuar dois passos a cada passo em frente. (…) Uma ética da terra reflete, pois, a existência de uma consciência ecológica, e esta por sua vez reflete a convicção de que somos individualmente responsáveis pela saúde da Terra.

A saúde é a auto-renovação da Terra. A conservação é o nosso esforço para compreender e preservar essa capacidade. (…) É para mim inconcebível que uma relação ética com a Terra possa existir sem amor, respeito e admiração por ela, e uma elevada consideração pelo seu valor. Por valor, quero obviamente dizer algo muito mais amplo do que o mero valor económico; quero dizer valor no sentido filosófico.”

Presidente da Assembleia da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo e da Assembleia Municipal de Torres Novas. Mestre em Gestão e Conservação da Natureza e Doutorando em Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Lisboa. Foi assessor jurídico do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros e da Reserva Natural do Paul do Boquilobo durante cerca de quinze anos. Advogado há mais de 25 anos, participa ativamente em vários
órgãos e institutos da Ordem dos Advogados Portugueses.

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