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Quarta-feira, Julho 28, 2021

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“A passagem do ano”, por Armando Fernandes

A fim de não estabelecer confusões omito a palavra réveillon para aludir às festividades de finitude do ano, também conhecidas debaixo da égide de S. Silvestre. É que o milenar réveillon principia dia 23 ou na noite de Natal, e agracia opiparamente os participantes nos longos trabalhos litúrgicos consagrados ao nascimento do Menino.

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A festa do salto de ano pode ter perdido significação simbólica e ganho alacridade festiva, de festança ou funçanata, mas não perdeu, antes pelo contrário, ganhou notações fundadas de pretexto de satisfação de prazeres. Da mesa também.

Não é facécia o secundarizar os prazeres da mastigação de comeres inchados de sapidez palatal, lustrosos de e em gulodice.

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Há meia dúzia de anos uma rapariga americana, casada, lastimava o facto de as obrigações familiares a impedirem de vitoriar intensamente a recepção ao vindouro ano. No queixume empregou expansivo e gestual cuidado no sublinhar a dispensa de alimentos, que não das bebidas. Acrescentou exemplos de perda na noite destinada à folia.

Ao ouvi-la mais aplausos concedi aos romanos, da Antiguidade, sábios diziam; em matéria de gostos nada está escrito.

Embora sejam faiscantes as alteridades no respeitante aos referidos gostos, embora os NBU – novos bimbos urbanos – concedam triplicada atenção aos beberes, brindar a seco, molhando os lábios em conteúdos líquidos-secos, brutos, agres e doces, depositados em taças, flütes, copos grosseiros, de boca estreita, de boca larga, em garrafas e garrafões, desfeiam os brindes, amputam-nos. Comida é comida!

Os bimbos urbanos estão a ganhar terreno em todos o recantos do rectângulo península e ilhas, se o leitor não acredita faça o favor de estar atento a quem o circunda nos restaurantes e casas de comeres, se vir uma ou um tirar fotografias às vitualhas, mormente as líquidas, pousadas nas mesas está perante exibição bimbalhada. Se não conseguir fechar os ouvidos terá de suportar os diálogos resultantes da remessa das fotos via Internet, trepidantes de contentamento as bimbas incentivam os bimbos a prosseguirem a cruzada gritada e fotografada em contínuo por ser sinal de integração na moda das fotos de armação a armar. Segundo fontes fiáveis até o Presidente Obama imita as filhas.

Fora dos carretos dos ditames dos réveillons centrados na tradição, o leitor arrisque a esperar a meia-noite divertindo-se em segredo, enfrente as monocórdicas palavras dos leitores e fazedores de mensagens na maquineta recheada de sons, as cascatas de palavras dos circunstantes. As mãos espanadas passam a dobradas, arrebanham, grãos de nozes, encha o colo da mão esquerda com pinhões e passas, dissipe o sobrolho, mastigue, aguarde o som das badaladas.

Se a espera significar mais de dez minutos esconda os pinhões, mastigue as passas à razão de duas a duas, beberique o espumante (na terra de Astérix o champanhe é obrigatório) e, afivele a cara de anjo de outrora, sim a do início do namoro, ouça a enésima repetição do por si dito quando prometia o Mundo à sua mulher.

Finja atenção prevenindo fuga aos despiques, vá marcando o estacionamento das comidas de maior apreço para si, procure saber onde vão ocorrer os actos de reboliço musical a fim de os evitar. E beba, volte a beber, apregoe estar dispensado de conduzir na noite da despedida e do desmame.

Alguém sobe o som da televisão, voltam a surgir imagens da multidão em Nova Iorque, em Toronto, homens e mulheres, garrafas nas mãos, gorros nas cabeças, pingos a luzirem nas narinas, deve estar muito frio solta a comadre pouco atreita a negas – «crê, ou morres!». Acredita.

O carrilhão televisivo marca a hora da chegada do neófito, lambuzam-lhe as faces, replica mexendo o pé direito, conta as passas, reconta o ano passado, baixinho, solta fálico palavrão porque o defunto ano foi um grande filho das trevas. Despeja o flüte, talvez o nasciturno seja melhor. Nunca se sabe! Pensa em voz alta: vou dormir. Vozes de fúria sustêm-lhe o desejo. Porra, ainda o Novo ano não abriu os olhos e já está a azucriná-lo. Esperava o quê?

Votos de bom Ano.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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