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Sábado, Junho 19, 2021

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“A Páscoa deslavada”, por Armando Fernandes

O benquisto Padre Carção (por ser natural da freguesia de Carção, no concelho de Vimioso) oficiava a missa na humilde igreja de Lagarelhos (concelho de Vinhais) quando o Senhor São Pedro abriu as torneiras do céu e começou a chover desalmadamente levando a água a bater fragorosamente nas vidraças do tempo apinhado de gente pois era dia de Páscoa. O sacerdote ante o continuado martelar da água virou-se para os fiéis e disse: cagai nas nozes!

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A aldeia era conhecida pelos nogueirais e dizia a tradição que se chovesse no dia de Páscoa as nozes saíam furadas privando os habitantes de saboroso alimento e de alguns créditos resultantes da venda do fruto sobrante.

Nos últimos dias a benfazeja chuva tem-nos visitado mansa e pendularmente alegrando os campos, renques de árvores a rebentarem em flores e frutos persistindo os aromas a cítricos. E, no entanto, a atmosfera reinante prenuncia a continuidade deslavada da quarentena para lá dos quarenta dias quaresmais, seja a nível sanitário, seja a nível alimentar.

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Seja no contexto da religião judaica, seja no seio das religiões cristãs, seja ainda no universo dos indiferentes religiosos, a quadra pascal adquiria para o nosso prazer palatal o ser sinónimo de excelsas pitanças dos vários naipes culinários com o predomínio da carne, especialmente da de cordeiro e de cabrito. Não vale a pena nesta crónica dissertar sobre o simbólico do manso cordeiro e do luciforniano cabrito, sabemos, isso sim, das qualidades sápidas da carne mimosa, suculenta e atreita a várias preparações na cozinha e nos fornos, especialmente dos de lenha seca de azinho, carvalho, castanheiro, freixo, e urze entre outras, Mas, a melhor de todas é a de vides vindas das vinhas no ano anterior.

A epidemia ataranta-nos o cérebro, os noticiários televisivos azucrinam-nos os ouvidos, nem os poentes luminosos quando surgem nos alegram porque a forçada reclusão deslava a comida cozinhada pelas nossas mulheres e filhas, já que as avós e tias-avós sofrem em dobro as consequências do malfadado vírus, perdem o viço físico e o viço espiritual.

Dizem-me que rareia a carne de cordeiro nos supermercados, os produtores queixam-se da quebra da cadeia alimentar, nós temos de nos conformar, não ouso dissertar acerca do que acontecer de mal para lá do impedimento de fruirmos os comeres usuais no fim da Quaresma, da quarentena, do jejum, da penitência, manda a prudência coibir-me de tal propósito. Assim nos tivéssemos coibido na altura do anúncio do aparecimento dos malvados micróbios.

Boa Páscoa.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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