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Sábado, Janeiro 22, 2022
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“A Paixão segundo… Josué”, por Aurélio Lopes

Com o aproximar da Páscoa, a tensão recrudesce, sucedendo-se os actos de guerrilha, rotulados de terrorismo pela potência ocupante. Um tal Josué da Galileia, chefe político e religioso de formação essênia, aproveitando o grande fluxo de visitantes, lidera um comando num raid temerário e ocupa, durante alguns instantes, o átrio do Grande Templo!

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Instantes suficientes, contudo, para repudiar o mercantilismo aí dominante e proclamar publicamente, no centro nevrálgico do país, os ideais de libertação.

E por entre a confusão resultante, a escassa dezena de nacionalistas nazarenos (com ligações conhecidas aos extremistas zelotas), logrará escapulir-se, enquanto os legionários, apanhados de surpresa,  encontrarão inesperadas dificuldades para progredir por entre a densa e pouco colaborante multidão.

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Mas o êxito irá ser de curta duração. Durante a tarde, uma decúria escoltará até às prisões imperiais Judas bar Abbas, filho dilecto de Josué e seu delfim no desígnio nacionalista, capturado após emboscada frustada a uma patrulha romana, em Séforis, na Galileia.

O significado desta detenção abate-se sobre Josué; aquele que alguns dos seus homens veem já como um novo Messias. O desalento perpassa o grupo. Uma expressão tensa, pétrea dir-se-ia, envolve o rosto do líder rebelde.

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Contudo, gradualmente, uma firme determinação vai aí tomando forma.

Nessa noite entrarão novamente em Jerusalém para uma reunião clandestina em casa de um seu apoiante, curiosamente, um proeminente membro do Sinédrio! Aí, o líder, após concisa revisão dos factos, irá transmitir a sua difícil mas inabalável decisão: entregar-se-á em troca do filho!

Um coro de protestos acolhe tal revelação. Contudo, com um gesto ríspido, o mestre rapidamente impõe silêncio. O Sinédrio não recusará, explica. Eles querem-no a si. Querem calar a sua voz intransigente, tão pouco conforme a letra da lei de Fariseus e Saduceus. Só eles, (por um preço conveniente), podem conseguir a libertação de Bar Abbas cuja verdadeira importância Pilatos, felizmente, ainda não conhece!

Será o fim imediato do Movimento, mas poderá permitir a preservação da esperança. Bar Abas será a garantia de futuro!

Está decidido: um dos seus irá negociar com o Sinédrio.  Para isso, no breve jantar que se segue, escolhe então um dos de maior confiança; Judas, conhecido como “Iscariotes” ou “Sicário” (pela “sica” que nunca o abandona), um antigo militante zelota (à semelhança do seu companheiro Simão), puro e duro e que, caso raro, sabe até ler e contar. Escolhe-o, simplesmente entregando-lhe um pedaço de pão. Para, seguidamente, lhe ordenar numa voz que, a todo o custo, tenta mostrar impassível: vai e faz o que tens a fazer!

E Judas parte para a sua missão!

Negoceia com o sumo sacerdote Caifás a libertação de Bar Abbas.

Este, contudo, está relutante; sabe que a sua margem de manobra face à autoridade ocupante é limitada. Judas insiste, uma bolsa de moedas muda disfarçadamente de mão.

Finalmente o contrato é estabelecido. Os guardas do templo são enviados para o Monte das Oliveiras onde o grupo se refugiou. Conforme combinado, Josué é detido. É, naturalmente, um momento tenso,…. emotivo. Pedro, o impulsivo lugar-tenente, não se contém e agride até um dos guardas, mas é rapidamente repreendido pelo chefe que, inclusive, tem ainda oportunidade para aplicar os famosos conhecimentos terapêuticos essênios, tratando a ferida, felizmente superficial.

Os ânimos acabam por amainar. Finalmente Josué é posto a ferros e levado até ao Sinédrio. É interrogado conforme a lei e, naturalmente, condenado. O sacrifício parece seguir os seus trâmites previstos.

Mas eis que inesperadamente (sem se fazer anunciar) irrompe na sala Flávio Tibúrcio, adjunto de Pilatos, acompanhado de uma coorte e exigindo a entrega do prisioneiro na sua qualidade de criminoso político. De alguma forma os romanos tinham sido alertados e vinham agora deitar a mão ao inimigo Asmoneu tão encarniçadamente procurado.

O Sinédrio fica de mãos atadas. A sua competência delegada abrange apenas os crimes religiosos. Não tem força nem argumentos para protestar. Resta-lhe apenas, agora, aproveitar a permissividade pascal (conforme combinado) e exigir a libertação de Bar Abbas.

E é assim que, Josué “O Nazareno”, irá ser levado à presença do Governador Romano da Judeia. Este começa por exigir a sua confissão (como condição de uma morte rápida) pelo que se iniciam as inevitáveis supliciações. O rabi, contudo, mantêm-se em silêncio. Entre outras coisas, sabe que nenhum poder humano o pode agora salvar! Não irá dar a Pilatos o prazer de o ver suplicar!

Furioso, este esbofeteia-o! E, enquanto pede uma bacia para levar as mãos ensanguentadas da agressão, transmite ao oficial de serviço a  ordem seca e peremptória da execução: crucifiquem-no!

Deste modo, Josué o Galileu, profeta e líder político asmoneu, virá a ser executado da forma apenas reservada a homicidas e criminosos políticos. A seu lado dois criminosos de delito comum. Acima da sua cabeça o motivo explícito da condenação: I.N.R.I, Jesus (versão grega do aramaico Josué), Nazareno, Rei dos Judeus.

Apenas a alguns familiares e amigos (nessa altura em Jerusalém para a celebração da Páscoa), será permitido assistir de perto à execução. Mulheres, essencialmente, entre elas Maria, sua devotada mãe e, Maria Madalena, sua dilecta esposa. Dos seus homens, apenas João, o mais novo e menos conhecido das autoridades, arrisca estar presente.

Mas nem tudo se há-de perder. Trinta e três anos depois um grupo de zelotas desencadeará aquela que ficará conhecida como a Grande Revolta Judaica, que durante meia dúzia de anos há-de corresponder ao último estertor de independência durante quase dois milénios! Antes de se afundar num mar de sangue, em Massada!

Pouco mais tarde, comunidades da diáspora, hão-de espiritualizar a memória do rabi Josué e transformar o sacrifício de um dos últimos Messias judaicos em missão redentora da humanidade.

Após o necessário branqueamento do papel de Roma (função que caberá especialmente a Paulo de Tarso), e a inevitável universalização doutrinária, transformá-lo-ão em Cristo (o ungido) cujos seguidores, três séculos depois, hão-de finalmente dominar a “grande besta” e, através dela, grande parte do mundo!

Investigador universitário na área da cultura tradicional, especialmente no que respeita à Antropologia do Simbólico e à problemática do Sagrado e suas representações festivas, tem-se debruçado especialmente sobre práticas tradicionais comunitárias culturais e cultuais, nomeadamente no que concerne à religiosidade popular e suas relações sincréticas com raízes ancestrais e influências mutacionais modernas. É Licenciado em Antropologia Social, Mestre em Sociologia da Educação e Doutorado em Antropologia Cultural pelo ISCSP da Universidade Técnica de Lisboa.

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