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Segunda-feira, Outubro 18, 2021

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A odisseia de Bruno e Muxima teve o seu final feliz (atualizada)

Foram mais de 24 horas de viagem, com longas escalas e mudanças de avião, mas não há cansaço que esmoreça o sorriso de Bruno Neto. Com 40 anos acabados de fazer, o trabalhador humanitário que nasceu no Tramagal, em Abrantes, mas viveu já metade da sua vida ao serviço dos outros (em África, na Ásia e no Médio Oriente), chegou na madrugada deste domingo da Mongólia, onde trabalhou no último ano como chefe de uma missão da Caritas Internacional, trazendo pela mão a cadela que ali adoptou.

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Bruno Neto e a sua Muxima, na chegada ao aeroporto de Lisboa. Foto: DR

Muxima, assim lhe chamou, em honra de outro animal que lhe roubou o coração em Angola. Encontrou-a (ou ela encontrou-o a ele) numa lixeira, e foi amor à primeira vista. Começou por contrariar o seu impulso de a resgatar, pensando nas complicações que viriam depois, quando regressasse a Portugal. Mas a cadela não o largava e ele não conseguia parar de pensar no que lhe poderia acontecer se continuasse na rua. É que o pelo deste cão tradicional mongol é muito usado para fazer casacos e botas, por isso Muxima muito provavelmente seria caçada para depois ser estripada viva. Na Mongólia considera-se que o pelo do animal tem de ser retirado assim para que a pele fique macia e não se estrague. Essas imagens de terror perseguiam Bruno, tal como aquela bola de pelo de rabo a abanar. Levou-a para casa.

O pelo deste cão tradicional mongol é muito usado para fazer casacos e botas

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A partir daí, milhares de amigos de Bruno adoptaram também Muxima, acompanhando o desenrolar daquela improvável amizade através do que ele ia partilhando nas redes sociais. “Tens de trazê-la para Portugal”, escreviam no Facebook. Bruno ia resistindo, explicando que seria um processo muito complicado (muitos meses, muitas centenas de euros), afiançando contudo que nunca a deixaria sem a garantia de que ficava bem entregue. Mas, quando chegou a hora de Bruno terminar a sua missão na Caritas, percebeu que não ia conseguir despedir-se de Muxima. Começou a tratar das burocracias para trazer um animal de fora da União Europeia, que incluem vacinas especiais, quarentenas e autorização do Ministério da Agricultura.

Bruno Neto e a sua cadela Muxima, no último dia que passaram na Mongólia. Foto: DR

O processo iria levar mais de dois meses e Bruno tinha de ir embora. Por isso pediu ajuda a uma amiga que trabalhava com ele, para que tratasse da Muxima até todos os papéis estarem prontos. Depois, essa amiga viria a Portugal trazer a cadela, com todas as despesas assumidas por Bruno, ficava duas semanas de férias e regressaria a casa.

Iniciou-se aí outra saga burocrática. Para conseguir visto para a amiga Anuka teve de tratar do processo na Alemanha (e em alemão), envolvendo ainda a embaixada de Portugal na China. Teve de provar que iria tratar dela durante as suas duas semanas de estadia, que tinha casa própria, que tinha meios financeiros para a alimentar. Até os extratos bancários dos últimos seis meses lhe pediram. Ele, com a sua pontinha de ironia, não resistiu a enviar também a condecoração de Cavaleiro da Ordem da Liberdade, que recebeu da Presidência da República em 2015, pelo seu trabalho humanitário.

Bruno foi condecorado Cavaleiro da Ordem da Liberdade pela Presidência da República em 2015, pelo seu trabalho humanitário

De nada serviu provar que era uma “pessoa de bem”. O visto de Anuka foi recusado. Bruno ainda escreveu novamente para a embaixada da Alemanha, apelou ao nosso Ministério dos Negócios Estrangeiros, mas só encontrou portas fechadas. Os dias passavam e era preciso resolver a situação. Só restava mesmo ir à Mongólia buscar a Muxima.

Os amigos iam comentando e partilhando os detalhes da odisseia, o que chamou também a atenção da comunicação social. O Diário de Notícias contou a sua história (A cadela mongol e o português que atravessa o mundo para a salvar) e o artigo tornou-se viral.

No aeroporto da capital da Mongólia, a iniciar a viagem para Portugal, com a amiga Anuka, que cuidou de Muxima nos últimos dois meses. Foto: DR

Bruno e Muxima estão de novo juntos e chegaram a Lisboa prontos para iniciar uma nova vida. A cadela terá de passar por um período de quarentena, o que não lhes deixa margem para grandes aventuras. E depois? Partir para outras paragens é um cenário afastado por Bruno, por agora. Já viveu na Jordânia, Honduras, Angola, Congo, Serra Leoa e Mongólia, sente-se cansado de tanta mudança e gostaria de poder ficar no nosso país. Durante uns meses, tentará perceber se o país também o quer.

Bruno está desempregado desde setembro e as propostas de trabalho que surgiram eram para missões na República Centro Africana, na Somália e no Iraque. A todos respondeu da mesma forma: “Desculpem, agora não posso, tenho uma cadela.”

Sou diretora do jornal mediotejo.net e da revista Ponto, e diretora editorial da Médio Tejo Edições / Origami Livros. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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