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“A obrigação de dar mais mundo aos mais jovens”, por Hália Santos

É verdade que não consigo resistir a defender a ideia de que os jovens que hoje chegam ao ensino superior vêm cada vez mais imaturos. Não me levem a mal, mas é mesmo isto que eu penso, por comparação com os primeiros tempos em que comecei a leccionar, há já quase 15 anos. Eram tempos exigentes, porque os jovens desse tempo, sendo já supostamente tecnológicos, (man)tinham ainda interesses e competências em muitas outras áreas. Quanto mais não sejam, (mant)tinham à sua disposição um conjunto de estratégias para fazerem parte do mundo.

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Isto não é discurso de velho (ou melhor, de velha) do Restelo. É antes uma clara tomada de consciência de que a rapidez com que tudo aconteceu fez com as prioridades dos miúdos que entretanto chegaram à idade adulta sejam definidas de uma forma muito particular, fazendo com que construam a sua ideia de mundo com base em pressupostos muito diferentes.

Eu gosto muito de ter muitos ‘likes’ nas minhas coisas do facebook. Aos 45 anos, esta insignificância faz-me sorrir. Como certamente fará sorrir a maioria das pessoas que passaram pelo ensino superior há 20, 15 e 10 anos. As tecnologias e as redes sociais entraram nas nossas vidas e nós fomo-nos adaptando. Mas, espero eu, estas gerações não fazem a sua vida depender deste tipo de interacções. Provavelmente, se tivermos tido um pouco de juízo, não abdicámos de várias outras formas de comunicar e de estar informados. Digamos que foi um complemento, fazendo cada um a sua gestão destes processos.

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Os jovens de hoje serão talvez a geração que mais se distingue das anteriores por viver uma realidade pouco diversificada. O que chega a ser irónico. Por muitas plataformas e por muitos conteúdos que possam alcançar, parece-me que acabam por se confinar aos mundos dos seus interesses, com pouca abertura para ganhar outros mundos. A diversidade é tal que até se compreende que adotem uma estratégia de seleção do seu próprio mundo.

A obrigação de quem teve um pouco mais de mundo será expor estes jovens a outros conteúdos, a outras realidades, a outras vidas. Às vezes, terá que ser à força. Como à força me fizeram ver, no ensino superior, num curso de Jornalismo, cinema russo do início do século passado, como foi o caso do “Encouraçado Potemkin”, com a célebre cena do carrinho de bebé a cair por uma grande escadaria. Para que me serviu? Para eu ter mais mundo!

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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