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Segunda-feira, Julho 26, 2021

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A mulher que descobriu a sua luz própria após ter ficado cega

Marylu Gerard, invisual há 14 anos, lança obra autobiográfica no sábado, 10 de outubro, em Tomar. Uma história de vida que vale a pena conhecer e partilhar.

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Não há como o escrever de outra forma: Marylu Gerard é uma força da natureza.  Aos 51 anos prepara-se para lançar o seu primeiro livro. Uma obra que escreveu nos últimos dois anos e que revela a história de alguém que agarrou numa partida que a vida lhe pregou – ter ficado irreversivelmente cega aos 38 anos – e dela retirou proveitos para crescer a nível espiritual.

Marylu perdeu a visão na sequência de medicação que tomou para combater uma depressão, apesar de já ter problemas de visão desde criança. A garra que mostra ter pela vida é surpreendente. Porque quem nasce invisual não conhece a cores do arco-íris mas Marylu não só conheceu como viveu, durante muitos anos, uma vida repleta de lantejoulas. Juntamente com o marido, dedicou-se a ensinar danças de salão em Lisboa, cidade onde viveu durante sete anos.

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“A Lua que conquistou o sol” – obra que vai ser lançada no sábado, 10 outubro, pelas 16h30, na Biblioteca Municipal de Tomar – conta em detalhe como é que descobriu que tinha luz própria após ter que “reaprender a viver na versão escuridão total”. “Este livro não é dirigido às pessoas invisuais mas para dar a perceber às pessoas que não têm este tipo de problema qual a nossa visão da vida, quais as nossas lutas e vitórias”, explica Marylu ao mediotejo.net.

Na sua opinião, a deficiência visual é a menos entendida pela sociedade. “Dizem que os olhos são o espelho da alma. Como as pessoas têm esse tipo de contacto acham que, neste corpo, não vive ninguém. Ninguém sabe o que é ser cego. Só quem é cego entende o que nós sentimos.”

MARYLU GERARD

Marylu descreve que cegou no decorrer de uma depressão tratada com uma medicação que não lhe devia ter sido administrada. Já tinha problemas de visão, no caso um glaucoma, que tinha especificado ao psiquiatra. “Depois de ter começado a tomar essa medicação notei uma neblina a adensar-se na vista e acabei por deixar de ver totalmente no espaço de quatro meses. Foi uma perda gradual mas muito rápida”, recorda. Quando lhe disseram que estava irreversivelmente cega – aos 38 anos – nem reagiu porque estava sob o efeito de muita medicação. “Não me deu para chorar nem para ficar desesperada. Pensei apenas: e agora o que vou fazer à minha vida?”

Depois de ter passado um ano em casa, Marylu – natural de Caracas mas filha de emigrantes com residência em Tomar – foi para o Centro de Terapia e Reabilitação de Nossa Senhora dos Anjos, em Lisboa. Foi ali que aprendeu a andar sozinha com a bengala e a ler em braille, entre outras coisas.

O título do livro, “A Lua que conquistou o Sol” (da Chiado Editora), com cerca de 200 páginas, tem um grande significado para si. “Enquanto eu via e dava aulas de dança com o meu marido, estava à sombra dele. Era como um satélite, até porque era muito tímida”, confessa. “Quando ceguei e tive que ir para Lisboa tratar da minha vida descobri, a pouco e pouco, que afinal tinha luz própria. Que conseguia ser autónoma, independente. Eu, que era a Lua, depois de cegar encontrei a luz, a minha essência.”

A primeira invisual a ter um cão-guia em Tomar

Marylu Martins foi a quinta pessoa da região, e a primeira da cidade de Tomar, a ter um cão-guia. Neste caso, uma cadela fornecida pela Escola de Cães Guias para cegos, dinamizada pela Associação Beira Aguieira de Apoio ao Deficiente Visual, com sede em Mortágua. Esta experiência de adaptação ao cão-guia, a sua grande companhia nos dias de hoje, também é relatada no livro.

E como é que uma invisual escreve um livro? Marylu explica que começou a escrever esta obra em fevereiro de 2014 num computador absolutamente normal, com um teclado regular, dado que aprendeu informática. “Eu não falo para o computador e ele escreve, como muita gente pensa. Isso era muito fácil (risos). Eu escrevi num computador normalíssimo e até quis respeitar o novo acordo ortográfico”.

Tem um programa de leitura de ecrã, com uma voz sintetizada, que lhe vai ditando o que está escrito no computador. É assim que também lê os seus e-mails ou escreve na página social de facebook que decidiu reativar recentemente.

E não é o facto de não ver os raios de luz do sol a entrar pela janela que lhe retira a vontade de aproveitar ao máximo tudo o que a vida tem para lhe dar. “Para mim, o ficar cega foi um renascimento. Tive que reaprender a viver na versão escuridão total e nunca me revoltei porque acredito que todos vimos ao mundo para aprender algo”, salienta. Ter escrito um livro é apenas a concretização de um dos muitos sonhos que ainda acalenta realizar.

Aos 12 anos já queria ser jornalista e todo o seu percurso académico foi percorrido com esse objetivo no horizonte. Licenciada em Jornalismo, exerce desde 2005, sempre no jornalismo de proximidade. Mãe de uma menina, assume que tem nas viagens a sua grande paixão. Gosta de aventura e de superar um bom desafio. Em maio de 2018, lançou o seu primeiro livro de ficção intitulado "Singularidades de uma mulher de 40", que marca a sua estreia na escrita literária, sob a chancela da Origami Livros.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Adorei o livro e li-o em dois dias durante as viagens para o meu emprego.
    Foi um presente de uma cunhada que adoro.a Carlinha. Uma mulher com uma grande sensibilidade.
    Para mim este livro foi uma lição de vida. De facto A Lua que conquistou o Sol à descoberta da própria Luz, pode ser a história de qualquer mulher. No entanto é preciso muita força para conseguir ser Luz.
    Parabéns Marylu. Fico à espera de um novo livro

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