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Quinta-feira, Julho 29, 2021

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“A morte nunca mais será igual”, por Pedro Marques

Quando morre alguém que nos é querido parece que morre uma parte de nós. E ficamos mais próximos de podermos lidar com o nosso próprio ciclo de vida. Vemos como somos frágeis, como tudo é ténue, como tudo é transitório. E depois de negarmos uma e outra vez, acabamos por admitir que um dia será a nossa vez. Só não sabemos quando e, regra geral, desejamos que seja o mais tarde possível.

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E entendo como alguém que me possa ser querido um elemento da família mais chegada, um amigo, uma pessoa por quem nutra afetos de amor ou amizade, um ídolo político, cultural, religioso, social, alguém inspirador que crie faça de nós seus seguidores e seus admiradores.

A morte de David Bowie criou-me imensa consternação. Não só por ele, não só por mim, mas porque tenho na minha vida alguns casos de doença oncológica e trabalho para um laboratório de investigação de vanguarda que até possui produtos inovadores para lançar no campo oncológico, com resultados para já muito promissores.

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Cresci a ouvir David Bowie. Um dos hinos da minha vida afetiva é de David Bowie e será sempre o mítico Life on Mars, música fundacional da relação afetiva mais duradoura da minha vida. Bowie foi sempre um inovador, um inspirador, um homem de vanguarda, de rotura, de fibra.

Até para morrer fez questão de deixar uma marca. Compôs músicas, lançou um álbum com o soturno nome de Blackstar, no dia em que completou 69 anos de idade, precisamente dois dias antes de desaparecer. E todo o álbum é belo e mórbido, um convite à beleza que pode haver no processo da morte, um paradoxo incrivelmente aceitável e bem vindo. O tema Lazarus é gritantemente duro e o vídeo clip que o acompanha é um valente murro no estômago. A própria morte de David Bowie é, assim, um trabalho de arte e de elevada sensibilidade.

David Bowie quis ainda deixar-nos uma mensagem, quis não ser esquecido, quis alertar para a luta incessante contra a doença oncológica, quis sensibilizar-nos para a precariedade da vida, quis deixar um legado de beleza na morte e de que a beleza do que fazemos é o que não morre e será eterno, e quis ainda deixar-nos um exemplo de lucidez e consciência de que a morte é uma inevitabilidade da vida e que, com mais medo ou com menos medo, não a poderemos nunca evitar, não poderemos nunca fintar a morte. Haverá apenas que enfrentar, passar por isso e esperar que depois haja paz. Sou dos que acreditam que não haverá vida depois desta forma de vida que conhecemos. Nem para o corpo, nem para a alma. Para nada. E que, só por isso, haverá sempre paz, haverá o nada, deixar de haver qualquer coisa. Custa que assim seja mas é assim que eu acredito que seja.

E é por isso que Bowie nos deu mais uma lição: se conseguirmos, devemos deixar ficar depois de nós algo que faça com que sejamos recordados, pela positiva, pelas boas ações, pelo legado, pela dádiva. O que deixamos é responsabilidade individual mas estará influenciado por todas as pessoas, realidades, experiências, vivências, afetos e emoções. E é nessa network de relações interpessoais que criamos a ressonância que fará com que a nossa vida seja prolongada mesmo para além da vida biológica que marca a nossa cronologia.

E é também por isso que recebo esta lição como um exemplo de liderança, de inspiração, de desapego, de humildade, de exibição da fragilidade, de saber lidar com a intensa dor, de absoluta lucidez de que o seu fim estava muito próximo.

Apetece recordar os versos de Lazarus, o seu trabalho mais marcante de despedida: «Olhem para mim, eu estou no céu. Eu tenho cicatrizes, que não podem ser vistas / Olhem para mim, eu estou em perigo. Nada tenho a perder / De uma forma ou de outra, sabem que serei livre. Tal como aquele pássaro azul, Não é tal e qual como eu?»

Obrigado Senhor Jones. Obrigado Ziggy Stardust. Obrigado Camaleão. Quem me dera um dia ser capaz de lidar com a morte e com a dor da morte da mesma forma.

Pedro Marques, 47 anos, é gestor, gosta de ler, de exercício físico e de viajar

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