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Sábado, Junho 19, 2021

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“A morte do bicho”, por Armando Fernandes

Os portugueses ao longo dos séculos enfrentaram bichos de toda a natureza, grandes e microscópicos, deste mundo e do outro, quem duvidar faça o favor de ler a nossa literatura fantástica. Por isso mesmo institucionalizou-se o mata-bicho, prelúdio de insanos dias de trabalho.  A matança do bicho tinha a ver com o facto dos nossos avós possuírem um bichinho no estômago a par da bicha solitária lhe roer as entranhas.

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A única forma de os portugueses dos tempos medievais conseguirem forças para ganhar o pão com o suor do seu rosto era liquidar (leiam Um Homem Liquidado, do italiano Malaparte) o bicho. Após várias experiências efectuadas de Norte a Sul os sofredores perceberem o benéfico efeito de mal se levantarem da esfarrapada enxerga colocada sobre o catre seria beber uns goles de aguardente acompanhada do que houvesse.

Por exemplo em Trás-os-Montes, na zona das figueiras, os figos secos desempenhavam esse papel. Após a Reconquista o hábito estendeu-se às terras ribatejanas, alentejanas e algarvias. Manda a verdade dizer que o mata-bicho podia fazer-se e fazia-se com as sobras (quando as havia) da ceia de véspera e do pão seco, duro, pesado sobrante.

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Para fúria do nefando bicho as queridas avós praticavam a arte de cozinhar confeccionando açordas, migas, papas, caldos grossos (pai nosso, caldo grosso), onde o alho (afugentador do Demo, vampiros e lobisomens) emprestava a esses preparados um estranho e vincado sabor. Um homem após comer uma boa malga de açorda alhada e beber duas boas goladas de aguardente, também chamada água de vida, estava em condições de enfrentar o bicho durante algumas horas.

Se no bródio entrassem os figos secos, uns grãos de nozes e um bocadinho de pão branco em cima da fatia de pão escuro ao modo de isco, o combate ficava mais fácil, o roedor entrava em transe até ao dia seguinte.

O leitor entenda a contradição, a gritada morte não era definitiva, apenas durava o tempo do efeito da comida, depois prevalecia o – eterno retorno – (o Doutor António Reis faça o favor de desculpar a ousadia), daí nova morte do bicho.

O acima enunciado relativamente aos remédios utilizados na guerra (Marcelo dixit) à tão insolente e persistente amiba foram variando ao longo dos tempos.

Na nossa costa o principal antídoto era o peixe seco, fumado, frito, conservado em azeite nos potes de barro, sem esquecer as receitas de salmoura. Os tempos mudaram, o tradicional mata-bicho entrou em desuso, vieram os flocos, as manteigas, as margarinas, os vitaminados, os suplementos e mais uma legião de criações alimentares destinadas exclusivamente à primeira refeição do dia. Estamos melhor? Estamos.

O bagaço exterminador passou à condição de raridade, passamos a ser flausinos, o bicho ganhou virulência, estamos todos confusos, amedrontados, estamos a viver dias desgraçados. Este bicho não se vence com aguardente. Como se vence? Não sei. Sei, isso sim, que não posso sair de casa, ver a família, o neto que já gatinha. Estou farto do vírus, espero que ele não se farte em mim.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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