“A minha quarentena”, por Vasco Damas

Ourém soma mais três casos e Médio Tejo tem 6 casos ativos por cada 10 mil habitantes. Foto: Daniele Mascolo - Reuters

Apesar de vivermos num estado de emergência que obriga a um maior confinamento, a cuidados redobrados e a uma reaprendizagem do nosso comportamento social, a minha quarentena está longe de ser tão monótona como a maioria das quarentenas que vou observando através das janelas das redes sociais.

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Escrevo isto porque, ao contrário daqueles que já não sabem o que fazer no percurso entre o quarto, a sala e a cozinha, como a minha atividade profissional faz parte do anexo II que acompanhou o decreto-lei que definiu as regras do atual estado de emergência, as minhas rotinas profissionais pouco ou nada se alteraram.

No entanto, todos os dias de manhã quando saio de casa questiono-me se será hoje e ao final de cada um desses dias, quando regresso a casa, tenho invariavelmente a sensação que pode ter sido hoje. Esta espécie de histeria coletiva em que vivemos começa a deixar-nos paranóicos, de tal forma que, qualquer sintoma que rapidamente se associa a outros sintomas, parece transformar-se num dos sintomas provocado por este inimigo invisível e cruel.

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Não sou hipocondríaco, mas uma pequena impressão na garganta dá normalmente origem a uma ligeira cefaleia que provoca tonturas e uma falta de força nos músculos. Esta paranóia termina invariavelmente com uma pressão no peito e com falta de ar, situação que, todos os dias, me faz sentir infetado.

Apesar da realidade que acabei de partilhar, não estou preocupado comigo. Não estou mesmo. Estou preocupado com os meus. Essa é a minha verdadeira preocupação.

Estou preocupado com a minha mulher, as minhas filhas, a minha mãe, os pais da minha mulher, todos os meus familiares e todos os meus amigos.

Mas é a minha mãe que está no topo desta preocupação. Pela idade que a coloca num dos grupos de risco e pelos hábitos que não corrigimos, fazendo precisamente o contrário daquilo que tem sido aconselhado.

Apesar de continuar viva, a minha mãe “morreu” em 2002. Renasceu parcialmente em 2005 quando a neta mais velha nasceu e renasceu mais um pouco em 2017 quando nasceu a neta mais nova. Mas grande parte dela despediu-se em 2002, acompanhando a viagem que o meu pai fez para o “outro mundo”, e nunca mais regressou.

Apesar dos riscos associados às nossas visitas, sinto e sei, que há riscos maiores se cumprirmos o que nos dizem que devemos fazer. Ela vive sozinha, e se, nesta fase da sua vida a privarmos da convivência com “o sol da sua vida”, se por um lado, ela fica certamente mais protegida, por outro, não haverá remédio que a cure da solidão e da tristeza que a acompanha desde 2002.

Gerir a incerteza obriga-nos a uma atenção permanente e a uma redefinição frequente das verdades que são cada vez mais relativas, mas fazê-lo com base em equilíbrios instáveis, torna-se angustiante e transforma estas opções e decisões difíceis em opções e decisões que podem ser vitais. Literalmente!

Perdoem-me esta crónica num estilo mais pessoal, mas talvez ela possa ter mais pontos em comum com alguns de vós do que à primeira vista possa parecer, ou, em limite, também poderá servir de ponto de partida para uma reflexão com diferentes pontos de chegada.

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