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Sábado, Outubro 23, 2021

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“A minha professora primária”, por Hália Santos

Se bem me lembro, no meu tempo entrava-se na escola no dia 6 de outubro. Tenho esta ideia. Com tenho a ideia do meu primeiro dia de escola primária. Aquela escola era novidade, mas ir para a escola não era novo. Para mim. Para todos os outros meninos era mesmo o primeiro dia de escola. Eu era a única criança daquela turma, que deveria ter uns 30 alunos, que tinha andado na pré-primária. Por isso, eu sabia ler e escrever.

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Eu não sabia, mas tudo indicava que me esperariam tempos aborrecidos. O que se imaginaria era que a professora, D. Maria José, teria que ensinar os outros meninos enquanto eu faria um compasso de espera. Irrequieta e curiosa, talvez não fosse fácil manter uma miúda assim na sala de aula, a ouvir ensinar o que já sabia.

A professora que, imagino eu, não teria qualquer preparação para lidar com situações diferentes, foi excecional: criou um cantinho da leitura, com prateleiras mal amanhadas que alguém deve ter dado, com umas almofadas coloridas e com alguns livros que imagino que fossem dela. E foi nesse cantinho que eu me deliciei com aqueles livros enquanto os outros davam os primeiros passos nas leituras e nas contas.

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A D. Maria José já tinha idade para se reformar. Mas foi ficando enquanto não levou a minha turma até ao final da 4ª classe. Apesar da idade, percebi depois que era ela quem aceitava todos os desafios. Teve estagiários na sala de aula quando mal se sabia o que isso era. Recebeu, por poucas semanas, um aluno que era de uma família de um circo e dedicou-se a ele com toda as suas capacidades para lhe dar muito em pouco tempo.

Era uma mulher sem marido nem filhos, que se dedicava aos seus meninos e meninas. Preocupava-se com tudo: desde a forma como nos sentávamos até aos cuidados de higiene. Sim, inspecionava as nossas orelhas. Queria tudo impecável. Já nessa altura, era muito mais do que uma professora. Mas tinha tranquilidade.

Em cada regresso das férias grandes contava-nos as suas viagens. Um dia falou-nos sobre Brasília, uma cidade nova, construída do zero. E eu ficava deliciada com a paixão com que ela falava dessas coisas. Sabia ensinar, sabia cativar. O Estado pagava-lhe e confiava-lhe um bando de miúdos de todo tipo de proveniências. E ela conseguia responder às necessidades de cada um, percebendo as dificuldades e os anseios de cada um. Mas fazia-o porque não estava pressionada por outras guerras, por outras chatices ou por outras preocupações.

São estas as principais memórias que guardo da minha professora primária, assim como dois livros que me ofereceu: o ‘Principezinho’ e ‘Rosa, minha irmã Rosa’. São preciosidades. A leitura entre as crianças era coisa rara naquele meio que, apesar de ser urbano, ainda tinha muitas marcas do atraso. Basta dizer que a minha irmã, dois anos mais velha do que eu, estava numa turma só de raparigas. A minha já era mista. Se não foi a primeira daquela escola, foi a segunda. E os rapazes é que eram os meus principais companheiros de brincadeiras, para além da minha melhor amiga. Na verdade, fazer parte de uma turma mista foi natural. Também porque a professora para isso contribuiu.

Parece coisa de velho de Restelo, mas, naquele tempo, era tudo muito diferente. Não era só o crucifixo em cima do quadro negro nem as carteiras de tampo de madeira que se levantavam que faziam a diferença. Parece chover no molhado quando se diz que os miúdos traziam educação de casa. Na verdade, nem todos. Lembro-me de uma miúda, muito mais velha do que nós, que mal falava: grunhia. E a minha professora, que certamente não teve formação para lidar com estes casos especiais, começou por fazer com que ela cuidasse da sua higiene, ensinou-a a comportar-se e só depois passou para as competências formais. Mas podia fazê-lo porque ao fim do dia sabia que o lugar que ocupava naquela escola ao pé de casa era seu e que nenhuma alteração significativa vinda do além perturbaria o seu trabalho.

Tive uma extraordinária professora da escola primária. Pelo que fez por mim, mas pelo que a vi fazer pelos outros. Sempre serena, sempre segura. Nada a abalava. Não era de grandes sorrisos, mas sabíamos que ficava feliz com as nossas conquistas, que eram dela também. A minha professora primária tinha uma única função: dar formação primária a cerca de 30 míudos. E, com limitações de equipamentos e de meios, fez um trabalho excelente. Porque essa era também a sua única preocupação.

A D. Maria José não ouvia notícias sobre dificuldades nem sobre protestos no arranque do ano letivo. Talvez o povo fosse demasiado sereno, até porque aceitava, por exemplo, que as casas de banho das crianças fossem apenas um buraco no chão com umas peças de cerâmica mal amanhadas. A verdade é que a D. Maria José, para além de saber muito bem o que fazia, tinha as condições essenciais para ensinar. Não sei se hoje ela conseguiria ser excelente como foi. Talvez lhe faltasse tranquilidade.

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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