Quinta-feira, Dezembro 9, 2021

“A minha leitura d’A Política Melhor”, por José Rafael Nascimento

“A política está muito suja, mas eu pergunto: «Está suja porquê?». Porque é que os cristãos não se meteram nela com espírito evangélico? É uma pergunta que eu faço. É fácil dizer que a culpa é dos outros… Mas eu, o que é que eu faço? Isto é um dever! Trabalhar para o bem comum é um dever para um cristão.”
– Papa Francisco

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Na sua encíclica Fratelli Tutti, divulgada junto ao túmulo de São Francisco de Assis em 3 de Outubro de 2020, o Papa Francisco discorre sobre a fraternidade e a amizade social “independentemente da sua proximidade física, do ponto da terra onde cada uma nasceu ou habita”. Em oito capítulos de profunda sabedoria, Francisco fala-nos das “sombras de um mundo fechado” e da necessidade de “pensar e gerar um mundo aberto”, de “diálogo e amizade social” e de uma “política melhor”. A Política Melhor foi, exactamente, o capítulo que mais me interessou, por mera preferência pessoal, pois toda a carta papal é de uma profundidade e riqueza extraordinárias.

Neste capítulo, de que citarei aquelas que, para mim, são as principais passagens e ideias, o Papa aborda grandes e candentes questões da actualidade, como o populismo e o (neo)liberalismo, o poder internacional e a caridade social e política, esclarecendo conceitos, analisando práticas e recomendando novas atitudes que, mais do que produzir resultados, devem ser “capazes de desencadear processos cujos frutos serão colhidos por outros, com a esperança colocada na força secreta do bem que se semeia”.

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Defendendo uma “vida política autêntica, fundada no direito e num diálogo leal entre os sujeitos”, o Sumo Pontífice mostra-se convicto de que “cada mulher, cada homem e cada geração encerram em si uma promessa que pode irradiar novas energias relacionais, intelectuais, culturais e espirituais”. E recomenda que parte dessas energias sejam canalizadas para a “caridade política”, a que ocorre quando um indivíduo “se une a outros para gerar processos sociais de fraternidade e justiça para todos”.

Neste sentido, o Papa convida a valorizar a política enquanto “sublime vocação, uma das formas mais preciosas de caridade, porque busca o bem comum”, lembrando que o amor se expressa “não só nas relações íntimas e próximas, mas também nas macrorrelações como relacionamentos sociais, económicos e políticos”. Este “amor político” pode e deve assumir, para o Santo Padre, duas formas essenciais: a elícita, que “brota directamente da virtude da caridade, dirigida a pessoas e povos”, e a imperada, que “traduz os actos de caridade que nos impelem a criar instituições mais sadias, regulamentos mais justos, estruturas mais solidárias”.

Diz Francisco, a propósito, ilustrando com exemplos muito simples, que “é caridade acompanhar uma pessoa que sofre, mas é caridade também tudo o que se realiza – mesmo sem ter contacto directo com essa pessoa – para modificar as condições sociais que provocam o seu sofrimento. Alguém ajuda um idoso a atravessar um rio, e isto é caridade primorosa; mas o político constrói-lhe uma ponte, e isto também é caridade. É caridade se alguém ajuda outra pessoa fornecendo-lhe comida, mas o político cria-lhe um emprego, exercendo uma forma sublime de caridade que enobrece a sua acção política”.

“Fratelli Tutti é um texto imperfeito e não inteiramente sistemático, […] mas oferece uma profunda iluminação e procura inspirar como uma realidade vivida. No seu alcance, na força da sua crítica e na sua visão construtiva e aberta ao futuro, oferece uma intervenção espiritual e intelectual que não podemos ignorar.” – Anna Rowlands, em “Uma carta para tempos sombrios” (Universidade de Georgetown)

Explicada a importância da participação e intervenção política dos cidadãos e instados os fiéis (e demais cidadãos) a empenharem-se nesta dimensão da vida pública – com incontornáveis consequências na vida privada – o Papa fala do comportamento desviante de alguns políticos que, não só mancham o bom nome da política e de quem a realiza, como desmotivam e afastam muitos cidadãos das actividades políticas, incluindo as que se prendem com o exercício de direitos básicos de cidadania (como votar).

Assim, Francisco aponta o dedo ao “maior individualismo, menor integração, maior liberdade para os que são verdadeiramente poderosos e sempre encontram maneira de escapar ilesos” e critica a “maquilhagem mediática”, aconselhando os políticos a verem-se ao espelho e questionarem, não “quantos me aprovaram, quantos votaram em mim, quantos tiveram uma imagem positiva de mim?”, mas sim “quanto amor coloquei no meu trabalho? Em que fiz progredir o povo? Que marcas deixei na vida da sociedade? Que laços reais construí? Que forças positivas desencadeei? Quanta paz social semeei? Que produzi no lugar que me foi confiado?”.

Sublinhando que “nenhum indivíduo ou grupo humano se pode considerar omnipotente, autorizado a pisar a dignidade e os direitos dos outros indivíduos ou dos grupos sociais”, o Papa apela a que cada político permaneça um ser humano e “ame o mais insignificante dos seres humanos como a um irmão, como se existisse apenas ele no mundo”. Na política, diz (contrariando o mito instalado), “há lugar também para amar com ternura, o caminho que percorreram os homens e as mulheres mais corajosos e fortes”.

No meio da atividade política, acrescenta, “os mais pequeninos, frágeis e pobres devem enternecer-nos: eles têm o «direito» de arrebatar a nossa alma, o nosso coração. Sim, eles são nossos irmãos e, como tais, devemos amá-los e tratá-los. Independentemente da aparência, cada um é imensamente sagrado e merece o nosso afeto e a nossa dedicação. Por isso, se consigo ajudar uma só pessoa a viver melhor, isso já justifica o dom da minha vida”.

Neste sentido, o Sumo Pontífice realça que “a caridade política expressa-se também na abertura a todos. Sobretudo, o governante é chamado a renúncias que tornem possível o encontro, procurando a convergência pelo menos nalguns temas. Sabe escutar o ponto de vista do outro, facilitando um espaço a todos. […] Enquanto os fanatismos, as lógicas fechadas e a fragmentação social e cultural proliferam na sociedade atual, um bom político dá o primeiro passo para que se ouçam as diferentes vozes. É verdade que as diferenças geram conflitos, mas a uniformidade gera asfixia e neutraliza-nos culturalmente. Não nos resignemos a viver fechados num fragmento da realidade”.

“Hannah Arendt escreveu um pequeno livro sobre figuras da vida pública que ela considerava merecedoras de atenção crítica. O título do livro era Homens em Tempos Sombrios. Arendt escolheu o título, não porque pretendia ser profundamente pessimista ou mesmo apocalíptica, mas porque acreditava que conhecemos as trevas dos tempos e combatemos a escuridão através da vida daqueles que resistem ao desespero e ao cinismo, encontrando uma maneira de traçar um caminho diferente. Esses são os homens e as mulheres que vêm oferecer-nos iluminação e, afirma Arendt, em tempos sombrios temos o direito de exigir alguma iluminação.” – Anna Rowlands, fonte já citada.

O Sumo Pontífice pede aos políticos uma “política salutar” e um “compromisso com a verdade”, dizendo que “quando está em jogo o bem dos outros, não bastam as boas intenções, é preciso conseguir efectivamente aquilo de que eles necessitam para se realizar”. A má noção que muitos cidadãos possuem da política, diz, “deve-se aos erros, à corrupção e à ineficiência de alguns políticos, a que se juntam as estratégias que visam enfraquecê-la, substituí-la pela economia ou dominá-la por alguma ideologia”.

O Papa denuncia a “tentação de fazer apelo mais ao direito da força que à força do direito”, reclamando que “se garanta o domínio incontestável do direito e o recurso incansável às negociações, aos mediadores e à arbitragem”. E critica as “tantas formas de política mesquinhas e fixadas no interesse imediato”, defendendo que se trabalhe “com base em grandes princípios e tendo presente o bem comum a longo prazo”, pensando nos que hão-de vir, mesmo que isso não tenha utilidade para fins eleitorais. Hoje, diz, “pretende-se reduzir as pessoas a indivíduos facilmente manipuláveis por poderes que visam interesses ilegítimos”.

Reconhecendo “a fragilidade humana, a tendência humana constante para o egoísmo, que faz parte daquilo a que a tradição cristã chama «concupiscência»: a inclinação do ser humano a fechar-se na imanência do próprio eu, do seu grupo, dos seus interesses mesquinhos” – a qual “pode ser dominada, com a ajuda de Deus” – o Santo Padre aponta “a tarefa educativa, o desenvolvimento de hábitos solidários, a capacidade de pensar a vida humana de forma mais integral, a profundidade espiritual” como realidades necessárias para dar qualidade às relações humanas.

Mas o Papa vai mais longe, incentivando “a pensar a participação social, política e económica segundo modalidades tais que incluam os movimentos populares e animem as estruturas de governo locais, nacionais e internacionais com aquela torrente de energia moral que nasce da integração dos excluídos na construção do destino comum e, por sua vez, a incentivar estes movimentos, estas experiências de solidariedade que crescem de baixo, do subsolo do planeta, para que confluam, sejam mais coordenados e se encontrem”.

No entanto, Francisco alerta para a necessidade de o “fazer sem trair o seu estilo característico porque são semeadores de mudanças, promotores de um processo para o qual convergem milhões de pequenas e grandes acções interligadas de modo criativo, como numa poesia. Neste sentido, são «poetas sociais» que à sua maneira trabalham, propõem, promovem e libertam. Com eles, será possível um desenvolvimento humano integral; sem eles, a democracia atrofia-se, torna-se um nominalismo, uma formalidade, perde representatividade, vai-se desencarnando porque deixa fora o povo na sua luta diária pela dignidade, na construção do seu destino”.

Vale a pena ler este capítulo na íntegra, bem como toda a encíclica Fratelli Tutti. E também Laudato Si, sobre o cuidado da casa comum, o nosso planeta azul e verde. São leituras que fazem bem à alma, que nos tornam pessoas melhores. Poderia eu não escrever mais crónicas que, ao escrever esta (baseada em citações do Papa Francisco), teria escrito tudo. Obrigado por lerem e reflectirem.

*O autor não segue as regras do novo acordo ortográfico.

José Rafael Nascimento tem 64 anos de idade e reside na aldeia de Vale de Zebrinho (São Facundo), na casa que foi dos seus avós maternos. É bacharel em Economia, licenciado em Organização e Gestão de Empresas e mestre em Psicologia Social e Organizacional, com pós-graduação em Marketing Político e Social. Tem desenvolvido atividade docente no ensino superior, assim como formação e consultoria empresarial, depois de uma carreira de gestor em organizações multinacionais e públicas. Tem dedicado a sua vida cívica à atividade associativa e autárquica, interessando-se pelos processos de participação e decisão democráticos.

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