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À MESA com Armando Fernandes: Figos Secos

As mulheres passavam as noites frígidas a fazerem carvão e brasas para aquecerem as famílias de Bragança. De madrugada desciam da Lombada, paravam na aldeia de Gimonde e entre risonhas imprecações gritavam: Beatriz abre a porta, vende-nos uma cro’a ou duas de aguardente para aquecermos. A Beatriz mulher do antigo almocreve Alberto satisfazia a vontade das friorentas que munidas de figos secos os adicionavam a gole da aquecedora água de vida.

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Se nos dermos ao trabalho de ler memórias sobre a vida dos camponeses e operários, no respeitante à primeira refeição doa dia, o denominado mata-bicho ficamos impressionados pela constância desses dois elementos na dita refeição. Noutro patamar todos conhecemos o quão queridos são os deliciosos figos secos, mesmo quando ganham bichinhos castanhos. As senhoras burguesas além de os empregarem na confecção de toda a sorte de doces e lambiscos, não os dispensavam caso bebessem jeropiga e outros licorosos. Sim, também é de referir a aguardente de figos secos. Os chefes e cozinheiros empregavam-nos e empregam-nos nas criações culinárias de grande apuro, seja no acolitamento ou enriquecimento de pratos de peixe e todo o género de carnes, poderosos em açúcares conferem esquisito e adoçado gosto aos restantes elementos. Há anos durante uma investigação sobre comeres nos meios rurais perguntei a uma senhora como era possível os seus pais fazerem mexuda dada a extrema penosidade do seu viver. Deliciada ante a minha falta de saber respondeu-me: a minha mãe cozia os figos secos, a água ficava doce, logo o problema da falta estava resolvido.

Neste Ribatejo úbere, nos terrenos sem quatro efes (fortes, fundos, frescos e férteis) florescem figueiras, mulheres e homens não prestam grande atenção às mesmas, já no referente aos figos o caso muda de figura. Nos Opúsculos Geográficos Orlando Ribeiro explica a causa da existência de tantas figueiras em boa parte do terrunho Ribatejano e adjacências. A árvore carrega a afronta de numa delas Judas a ter escolhido a fim de a utilizar no acto do seu enforcamento após ter acontecido o que tinha de acontecer. A Bíblia dedica-lhe diversas passagens. A figueira é atreita a esgaçar-se quando a obrigam a suportar demasiado peso, mas na versão popular é traiçoeira numa alusão ao Iscariotes. No domínio do simbólico é apresentada debaixo de vários ângulos, a precaridade do espaço não me concede possibilidades de enunciar doutrinas porquanto aprofundá-las não é possível de todo. Limito-me a lembrar, tal como no referente a outras saliências relativas a este fruto que além de ser tão doce, os diabéticos devem abster-se de os degustar lampeiramente, ajudava economicamente os seus donos a retirarem algum lucro da venda dos excedentes, porque além da provisão para consumo das famílias, os porcos e as aves de capoeira também os apreciam. Os Romanos engordavam os patos obrigando-os a engorgitarem figos até atingirem o peso previsto. Pois: o foie-gras…

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Para verificarem o impacto da figueira em Portugal desafio o leitor a consultar um Dicionário Corográfico. Não se esqueça de passar da letra F de Figueira, Figueiras e até da Foz, também existe Vale de Figueira, no concelho de Santarém!

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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