Entrevista: À mesa com… Fernanda Asseiceira

A professora de Ciências e Matemática que trabalhava numa escola de Torres Novas ganhou a Câmara de Alcanena pela primeira vez há sete anos. Aprecia um bom peixe grelhado e confessa que gosta de cozinhar pratos tradicionais, sobretudo aos almoços de domingo, com a família. Come de tudo um pouco, embora procure o equilíbrio, por vezes difícil numa vida preenchida e que nem sempre lhe permite escapar à refeição rápida num restaurante. Nalguns dias da semana almoça em casa, situada perto da Câmara, noutras ocasiões com todos os vereadores. É grande apreciadora de chá, quente no Inverno, frio no Verão, e comenta que bebe apenas dois cafés por dia. Brinda à saúde. Porque sem ela vão morrendo os sonhos…

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Chegamos ao mesmo tempo. O restaurante “O Facho” passa quase despercebido no coração da vila de Alcanena. Fernanda Asseiceira vem a pé, a Câmara Municipal fica ali perto. A entrevista não foi fácil de marcar, a agenda da presidente tem estado bastante cheia. Avisa que às 15 horas tem que estar no Fundão, já passam uns 10 minutos das 12h30. Vai cumprimentando quem passa, alguns moradores metem conversa. Fernanda Asseiceira dá respostas breves, bem humoradas, comenta que este e aquele assunto estão a ser resolvidos.

foto mediotejo.net
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Quando nos sentamos à mesa alguém refere que a RTP fez uma reportagem sobre o Dia da Criança em Alcanena. Fernanda Asseiceira explica tratar-se de uma iniciativa dentro dos Centros de Ciência Viva, em que os mais novos foram convidados a andarem descalços pela relva, para descobrirem o que existe na natureza. Não toca nas entradas, mas vai comendo as azeitonas. A conversa segue fluída, à medida que “O Facho” começa a encher. Reconhece que raramente vem tão cedo, o trabalho prolonga-se e só almoça pelas 13h30.

A empregada pergunta se queremos pescada, com batata cozida e brócolos, para o almoço. A presidente aceita, satisfeita com a variedade da ementa. Com o sol finalmente a despertar, sabe bem comer um bom peixe. Mas primeiro comemos uma sopa. Para beber, água. Ali perto, o vereador Luís Pires também almoça. Finda a refeição, um semifrio recheado de fruta. A fechar, um café. Às 14 horas o carro do município já aguarda à saída pela presidente. Como evidencia ao longo da conversa, na vida de um autarca pouco tempo há para relaxar. Momentos já houve em que assinou despachos enquanto almoçava.

Como costuma ser a sua rotina? Comentava que muitas vezes vem almoçar mais tarde…

É um facto que eu não tenho rotina. Cada dia é diferente do dia anterior. O que se mantém de dia para dia é uma intensa atividade. Tenho sempre uma agenda bastante preenchida. O meu horário de almoço é normalmente às 13h, 13h30. Também tento não vir muito mais tarde porque faz parte de uma atitude de autodisciplina. Normalmente passamos muitas horas quase sem comer e neste momento estou a procurar ter um pouco mais de regra a esse nível. Os dias são preenchidos de várias maneiras. Tenho muitas solicitações de pedidos de reuniões (…) e sempre muitas saídas, reuniões com várias entidades. É realmente muito diversificada a nossa atividade, mas o que é aliciante nestas funções é precisamente esta diversidade de atividade e intervenções que temos que assumir.

Porquê a pescada? É apreciadora de peixe?

De uma forma geral eu gosto de tudo. Não sou pessoa de comer em grandes quantidades, mas aprecio muito a nossa gastronomia. Temos felizmente aqui no concelho de Alcanena bons restaurantes, com uma boa relação qualidade-preço. Neste caso também é um facto que nos estamos a aproximar-nos da altura do Verão e começamos a procurar ter mais preocupações com as nossas refeições mais light, não é? As saladas, o peixe… aliás, eu adoro peixe! Aqui não temos muitos restaurantes com essa vertente dos grelhados, mas eu pessoalmente adoro peixe grelhado. Depois tento compensar no período das férias. Aí a carne é quase a excepção. É o peixe, as sardinhas…

Costuma comer sempre assim de forma saudável, ou recorre muitas vezes a uma sandes?

Não, não… Só mesmo se não tiver tempo, às vezes acontece. Mas normalmente é mais quando estou fora. No dia a dia procuro ter mais cuidado com o que como. E se numa primeira fase, durante o meu primeiro mandato, até era a prática andar sempre muito em restaurantes, agora no meu segundo mandato procurei mais disciplinar-me a esse ponto. De maneira que ao almoço procuro até, para ser mais saudável e não haver estas tentações das entradas, ir almoçar a casa. Durante a semana há um momento em que almoçamos sempre com os vereadores. No dia a dia é uma média de dois, três dias em que almoço fora. Ou dois, três dias, almoço dentro, é um equilíbrio que tenho procurado fazer.

Gosta de cozinhar?

Gosto, gosto. Não tenho muito tempo para cozinhar, mas quando cozinho sai bem. O que significa que se tivesse mais tempo para cozinhar então era mesmo uma extraordinária cozinheira (risos).

O que prefere cozinhar? Refeições ou é uma pessoa mais dada a bolos?

Não, pelo contrário! Não sou nada de perder tempo a fazer bolos. A parte da cozinha é mesmo o prato principal. É um facto também que normalmente não vou por pratos muito complicados, que demoram muito tempo a confeccionar. É a gestão do tempo. Opto por pratos que normalmente se fazem com maior celeridade, cozidos, grelhados, gosto muito de coisas no forno também, mas não coisas de grande complexidade. Não tenho mesmo muito tempo.

Costuma cozinhar para a família?

Exactamente, o almoço do domingo, normalmente, é com a família. Tenho três irmãs, tenho os meus sobrinhos, os meus pais felizmente ainda estão vivos, embora com problemas de saúde. E eu como tenho as semanas muito ocupadas também procuro que aquilo seja um ato sagrado. O eu ter durante a semana um momento, que normalmente é efetivamente ao domingo, normalmente ao almoço, em que possa estar com eles.

A sua mãe cozinhava? Quais os sabores que mais lhe recordam a infância?

A minha mãe é um grande cozinheira. Eu acho que saio a ela. Ainda no domingo houve esse comentário. O prato que confeccionei ficou muito idêntico ao que ela fazia. E ela, como atualmente, com os problemas que tem de saúde, não pode cozinhar, também fez essa observação, o que me deixou feliz. Eu sou uma pessoa que não tenho assim um prato propriamente preferido. Gosto de comer bem, de forma diversificada. (…) Desde que esteja bem confeccionado, gosto de tudo.

De onde surgiu esta ideia do Festival do Azeite e das Ervas Aromáticas? É algo que usa muito à mesa?

O primeiro Festival que nós realmente promovemos é o da Morcela e da Cachola. Numa segunda fase veio a ideia do Azeite e das Ervas Aromáticas. Não tínhamos nenhum evento com estas características de tentar promover a área da restauração e foi ver no concelho alguns produtos que podiam ser considerados com características do nosso território (…). Depois também, dado as características de termos aqui bom azeite, mais na zona da Serra de Santo António, esta característica de inserção no Parque Natural da Serra d’ Aire e Candeeiros, a ligação às ervas aromáticas, também nos pareceu ser uma boa temática. Não ser só o azeite, que já existe até em vários concelhos, mas também as ervas aromáticas. Neste objetivo de contribuir para a dinâmica da área da restauração e incentivar assim a economia local.

Que ervas aromáticas se encontram mais no concelho?

O alecrim, coentros, rosmaninho…

Como cozinheira… tem alguma preferência?

Gosta muito de utilizar coentros. Alecrim não tenho muito o hábito de utilizar, às vezes também pela questão de estar acessível. Nós temos no âmbito do Festival um restaurante que faz um pudim de alecrim, o “Mal Cozinhado” (Monsanto), também leva a estas inovações.

E o Festival dos caracóis? Também é apreciadora?

Eu como. Não é dos pratos… (hesita) Mas vale a pena até a oportunidade de passar pelo Festival do Caracol. Porque eles têm formas diferentes de confeccionar o caracol, que até eu me surpreendo (risos). Lá está, não é tanto pelo sabor, mas pela forma como é confeccionado. (…) Quando lá vou procuro provar um bocadinho de cada e acaba por me saber bem e até fico a pensar como comi aquilo (risos).

Com uma vida tão preenchida, consegue ter tempo para si enquanto mulher, enquanto pessoa?

Essa é a parte mais frustrante. A percepção que nós temos é que não temos tempo livre. E às vezes algum tempo que temos é para procurar descansar um bocadinho. É uma das partes que sinto realmente pena. Tenho pena de não ter mais tempo para ler, para ir ao cinema, para ir passear. O tempo é muito ocupado aqui nas nossas funções. Durante a semana temos responsabilidades a um nível, aos fins-de-semana temos também responsabilidades de presenças em eventos.

A que horas costuma chegar a casa?

Entre as 20/21 horas. E às vezes ainda levo trabalho para casa.

Que livros gosta de ler? 

Neste momento leio pouco, mas continuo a comprar muitos livros (risos). Não consigo estar numa livraria ou ir a uma Feira do Livro sem comprar um livro. Há-de chegar a altura de os ler. Leituras de autor, política, sobre economia, ou sobre gestão, pronto, é a diversidade…

Gosta de Jazz?

Sim, vamos ter o Jazz Minde este fim-de-semana. Há vários estilos. Gosto do mais tranquilo, não do mais barulhento. (…) Não sei se é da evolução da idade, se é a evolução dos contextos profissionais que vamos vivendo, mas o que é certo é que os nossos gostos e as nossas atitudes perante as situações acabam por se ir adaptando.

Há umas semanas, quando se celebrou o aniversário do concelho, disse que por vezes vinha um pouco frustrada das reuniões de turismo, porque em Alcanena não há Santuários, Mosteiros ou Castelos, mas tem oferta natural. Sente que o património natural é desvalorizado?

(ri-se com a referência)… Acho que sim. No entanto também tenho que dizer que me estou a aperceber de alguma viragem em termos das estruturas centrais do turismo… aliás, vemos pela nossa região de turismo, quando havia aqui em Santarém, que vivia para o Festival de Gastronomia de Santarém, que acontecia uma vez por ano (…) Eu ainda ontem dizia que uma das coisas que gostava de ter mais em Alcanena era turistas. Nunca se pode nem se pretende competir com os outros, que são Monumentos. Mas há um património natural, associado a algum património construído, que podem fazer percursos de grande interesse, mas para isso também tem que haver aqui essa visão intermunicipal, do todo. E é um facto que não tem sido notada essa valorização por parte quer do turismo ao nível regional, quer do turismo ao nível nacional, em complementaridade com os respectivos municípios.

Perguntava-lhe se gosta de percursos pedestres, mas parece-me que também não terá muito tempo…

Não, mas gosto. Nós temos todos os meses uma caminhada. O tempo não tem permitido e também não sou uma adepta das caminhadas ao ponto de fazê-las debaixo de chuva. Mas gosto do contacto com a natureza. A parte do exercício físico também tenho descurado, mas nunca fui adepta de ir para uma sala, um ginásio, gosto do contacto com a natureza. Convidem-me para andar e de preferência que não sejam os mesmo sítios. Estou ansiosa que o tempo levante para ir fazer também estes percursos que temos aqui no concelho e que promovemos neste projeto e que eu ainda não os fiz.

A presidente já disse que se vai recandidatar. Se ganhar será o seu terceiro mandato e atingirá o limite de eleições. Nestas circunstâncias, o que pensa fazer daqui a cinco, seis anos?

Ainda não penso nisso. Ainda só penso naquilo que ainda posso fazer como presidente de Câmara. Apresentámos candidaturas ao Plano de Ação de Regeneração Urbana (PARU), que ainda está na fase de apresentação de candidaturas, termina no final do mês de junho, e depois ainda há a fase de aprovação. (…) Esta é a minha grande preocupação neste momento.

Que projetos estão previstos no PARU, pode adiantar?

Nós temos uma verba reduzida, isto é terrível. Há uma previsão de um milhão e cem mil euros para Alcanena. Eu quero reabilitar o Mercado, a área envolvente, alguns privados podem concorrer também. A ideia era procurarmos ter aqui alguma reabilitação urbana da parte mais central, porque o PARU destina-se à reabilitação urbana na sede do concelho. Nós estamos a ver ao nível da sede do concelho o que é que temos, dentro deste valor disponível, que não é muito.

Era Professora de Ciências e Matemática na Escola Manuel de Figueiredo, em Torres Novas. Sente falta de ensinar?

Sinto. Mas eu de vez em quando ainda procuro dar umas orientações (risos).

Terminamos com um brinde. Gostava de brindar a quê?

À nossa saúde. Não é por ser registo comum brindar à saúde, mas é mesmo aquilo que eu acho que nós temos de mais precioso. A partir daí, tendo saúde, temos força para lutarmos pelas nossas concretizações. Quando ela falta, tudo é mais complicado. Nunca fez tanto sentido dizer-se que devemos brindar à nossa saúde.

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Cláudia Gameiro
Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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