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Quinta-feira, Janeiro 20, 2022
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“A Mafia e os limões”, por Armando Fernandes

A história das espécies alimentares e o seu papel no apaziguamento de fomes, doenças e convulsões nunca está completa, há sempre um pormenor a escapar, há sempre um ângulo difuso encoberto, há sempre o ácido, o doce, o amargo, o doce, o salgado e o unami, os cinco sentidos do paladar, a num tapa/destapa a consumirem, a agrilhoarem quem investiga e escreve sobre os hábitos alimentares do Homem desde o paleolítico.

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Alguns leitores sabem da minha dedicação ao tema, por isso mesmo fiquei surpreso ao ler a notícia de os limões estarem associados ao aparecimento da Mafia, tal como nos conta e elucida Helena Attlee, no livro El país donde florece el limonero.

País mediterrânico, a Itália acolhe e favorece o crescimento de cítricos, caso em apreço o limão originário da Índia e da Malásia, após ter frutificado na Assíria, a «maçã meda» chegou à Grécia e a Roma onde foi aplicado na cozinha como tempero e na botica como medicamento. Os cruzados trouxeram-no da Palestina, tendo irradiado por toda a Europa, por cá perfumam jardins e quintais, além de entrarem em numerosas composições culinárias.

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Voltando ao livro de Attlee, fica-se a saber que na sequência da descoberta pelo médico da Armada Britânica, James Lind das virtudes do sumo de limão no combate ao escorbuto provocado nas gengivas dos marinheiros dado passarem temporadas nos navios em consumirem frutas e verduras em bom estado, passou a ser imprescindível nas armadas inglesas e daí a compra massiva de limões e o sumo deles na costa italiana. Após ao Nelson ter conquistado Malta, o Almirantado confiou aquela ilha e à Sicília o abastecimento de cítricos aos seus navios.

Tratava-se de um negócio fabuloso a atrair bandidos, ladrões de gado, políticos e advogados, os quais lograram criar uma organização mafiosa a controlar as operações de compra e venda. A autora escreve “Nesta terra maravilhosa siciliana nasceu este sistema de intimidação. A paisagem ajudava, com essas paredes altas que protegiam dos ventos os limoeiros, e aos mafiosos ocultarem-se.”

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Caro leitor: os substanciosos e refrescantes limões têm de arcar com a culpa de ter dado cobertura ao aparecimento da Mafia, fixemo-nos nas suas virtudes ácidas e excitantes das papilas gustativas, nas gotas de sumo a conferirem sápidos sabores a saladas, sopas, pratos de peixe e carne, a bolos, a doces, gelados, guloseimas, bebidas esfusiantes, requintadas e populares, relativamente à História, a mesma tal como Jano tem duas faces.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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