“A língua é traiçoeira”, por Armando Fernandes

Foto: DR

Se a língua é traiçoeira, no tocante aos produtos alimentares ainda expõe com maior clareza a duplicidade pitoresca, irónica ou luxuriosa e ainda é mais aguda e penetrante. Aproxima-se a época natalícia e o tempo propício a comedorias cujas conotações lascivas ou, se formos modestos, gulosas de tudo evidenciam o trânsito linguístico entre o sagrado da efeméride ao excesso dessas mesmas conotações. Longe de esgotar as referências relativas à doçaria (o Doce Nunca Amargou, livro de Emanuel Ribeiro) limito-me a recordar algumas no desejo de leitoras e leitores poderem praticar o culto culinário executando receitas nesta crónica afloradas.

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A rapariga de Mação recebe um piropo de ser tão fofa quanto as fofas ex-libris da vila cantada por poetas amigos de um célebre vinho produzido nas vinhas outrora ali existentes. A rapariga responde desenvolta: se queres uma fofa vai à pastelaria e até podes repetir. Se o rapaz fica com cara de zambujo a moça carrega nas tintas, não a indicar-lhe um bolo de três cores, sim o bolo podre. O atingido não se fica, retruca: não te julgues ser tão boa como as broas de Abrantes, quanto muito és uma cavaca escavacada e ressequida. A conversa findou porque a moçanita cortou cerce: vai para o raio que parta. És um cocó (doce da Estremadura).

Melhor sorte atrevo-me a pensar, teve o paraquedista que casou em Vila Nova da Barquinha, no dia do enlace ele propiciou à noiva beijos de moça (amêndoas doces, açúcar pilé e ovos), esta replicou em dobro com beijos de noiva (açúcar, miolo de amêndoa e açúcar pilé).

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Agora, temos uma turista russa de cabelo cinzento a passear em Abrantes, na pastelaria falam-lhe, sugerem-lhe que coma a nossa palha. A senhora esteve a trabalhar num restaurante no Algarve, sabe o que é palha, resmunga, pede filhós da consoada, não as havia, abandona o espaço doceiro, mais adiante amacia o azedume com melindres (coco ralado açúcar e ovos) e fala em línguas de gato. Ficou-lhe na mente o facto de não poder contemplar os quadros existentes na Igreja da Misericórdia, compensando a infelicidade deliciando o palato com pastéis de feijão de Torres Novas.

E, porque todos têm direito a um doce trago à mesa doce dos anjos, olhos de sogra para as sogras, rebuçados de ovos destinados às criança, para os fanfarrões farófias, para os iconoclastas barrigas de freira, para as gulosas fatias de Tomar, para os clérigos orelhas de Abade, para mim torta de laranja e pudim de vinho tinto.

Para beber sugiro  uma colheita tardia das existentes debaixo da chancela Tejo.

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