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Sexta-feira, Julho 23, 2021

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“A legalização da eutanásia só poderá ser mais um sinal de evolução”, por Hália Santos

Arcelinda nasceu há quase 100 anos. Não nasceu, como a maioria da população dessa época, no seio de uma família pobre. Nem rica. Apesar de ter crescido numa aldeia, conseguiu fazer a instrução primária, teve aulas de lavores e de música. Era, à sua escala, uma menina de bem. De certa forma, até uma privilegiada. Foi uma mulher que, na sua simplicidade, esteve sempre à frente do seu tempo.

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Na década de 40, Arcelinda foi obrigada a separar-se do amor da sua vida. Não porque um dos dois quisesse, mas porque alguém viu o amigo do marido entrar em casa quando só ela lá estava. Foi ‘denunciada’. Acusaram-na de adultério, quando ela simplesmente foi simpática e educada, permitindo que o amigo do marido esperasse por ele dentro da casa do casal.

O pai, com uma vergonha sem explicação, fechou Arcelinda num quarto com uma caçadeira, para que ela, sem marido e olhada de lado por toda a aldeia, se matasse. Não o fez. Ao fim de um ano, já podia sair do quarto e ir até à porta de entrada da casa dos pais. Todos os dias passava Tiago, um jovem viúvo, pai de uma menina de dois anos. Juntaram-se num casamento que, para os dois, foi uma salvação. Não sendo um amor arrebatador, acabou por ser um amor de convivência. Juntos conseguiram uma vida estável, relativamente folgada, e Arcelinda criou a menina como se fosse sua.

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Quando Tiago, uns 40 anos depois, morreu de repente, Arcelinda tinha um cancro. Ela deixou de lutar. Recusava comida. A vida não fazia sentido, sem aquele homem que permitiu que voltasse à vida. O primeiro marido foi o amor da sua vida, mas Tiago foi o homem que a fez viver, que lhe deu uma família. E ela retribuiu com uma dedicação extrema. Por isso, quis morrer com ele. Por isso, fechava a boca e olhava a filha, o genro e as netas com um ar tranquilo, dizendo sem o dizer que queria partir. A família sofria com a recusa em se alimentar e acabou convencida de que Arcelinda morreu à fome. Foi a sua opção. Dura, para quem ficou, mas foi a sua opção.

Enquanto estava no leito de morte, Arcelinda respondeu às perguntas algo indiscretas de uma das netas, acabada de entrar na vida adulta. “Por que nunca teve filhos?” Porque essa era uma condição de Tiago, para proteger a sua filha, menina pequenina que tinha ficado sem mãe. Arcelinda, que talvez tivesse perdido a vontade de ser mãe, aceitou, sem problemas. “Mas como? Não havia pílula?!” Arcelinda explicou como se faziam abortos e admitiu que os fez. Por acordo com Tiago, mas também por vontade própria.

A filha de Arcelinda e de Tiago, tendo crescido como a menina de bem da sua aldeia, também sempre foi, na sua simplicidade, uma mulher muito à frente do seu tempo. Teve uma filha deficiente mental no início da década de 60 e sempre a assumiu com todo o amor do mundo, tratando-a como o bem mais precioso da terra, levando-a para todo o lado, quando a prática, na época, era a de esconder as crianças e jovens deficientes.

Depois de perder a filha deficiente e o marido, a filha de Arcelinda e Tiago doou o seu corpo a uma Faculdade de Medicina porque acredita que só ela deve poder decidir sobre o destino que lhe é dado, mesmo depois da morte. E quer ter o direito a decidir sobre a sua morte, se ficar num estado vegetal ou num sofrimento insuportável.

A legalização da eutanásia, ou morte medicamente assistida, só poderá ser mais um sinal de evolução. Para que mulheres e homens sejam efetivamente donos de si. Porque a única coisa com que nascemos e com que morremos, e a única coisa que é verdadeiramente nossa, é o nosso corpo. Arcelinda concordaria. A filha aguarda poder decidir sobre a sua morte. Duas mulheres enormes na sua simplicidade.

 

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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