“A institucionalização da memória”, por Aurélio Lopes

Foto: Painel de azulejos in "O melhor Alentejo do Mundo"

Realizou-se há escassos meses em Montargil, concelho de Ponte de Sor, o ‘Fórum Cultura 2018’, do qual participaram estudiosos da área cultural e patrimonial, representantes da Federação do Folclore Português e do Ministério da Cultura.

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Do mesmo, resultou um conjunto de ideias (mais ou menos conclusivas, poder-se-á dizer) que dão corpo a importantes referênciais matriciais, relacionados com as ações de pesquisa/divulgação que, geralmente, denominamos Folclore.

Ficou claro que a conceção de Folclore entendida entre nós, resulta da vontade manifesta dos folcloristas nacionais que pretendem (ou dizem pretender) representar de forma o mais possível coerente e rigorosa, as vivências tradicionais de tempos passados.

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Tal como, o facto, desta pretensão não constituir, afinal, a única legítima e respeitável. Na verdade, todas as utilizações/perceções/inspirações e divulgações da cultura tradicional são, naturalmente, legítimas. A cultura portuguesa não é propriedade de ninguém. Ou, se quisermos, é propriedade de todos nós. A única exigência que aqui avulta é que, cada um, de forma clara e honesta esclareça, cabalmente, o que pretende fazer. E que, depois, faça aquilo que diz. E, já agora, com qualidade! De preferência não tentando passar por aquilo que não é!

Ficou ainda claro que o conceito referente ao Património Imaterial da UNESCO possui muitas semelhanças com a componente imaterial (igualmente patrimonial) daquilo a que chamamos Folclore. Estranho seria que não tivesse.

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A dissemelhança, porém, é “apenas” a seguinte: O Folclore debruça-se sobre padrões igualmente patrimoniais, vivenciais e tradicionais, mas literalmente fósseis. Leia-se, desaparecidos. As eventuais alterações por parte dos grupos divulgadores constituem, portanto, quase sempre, corrupções da realidade recolhida, da qual se pretende manter a configuração memorial.

A UNESCO aponta para exemplos de padrões patrimoniais igualmente vivenciais (tradicionais, admita-se) mas ainda vivos; ou vistos como tal*. Suscetíveis, portanto, de naturais alterações funcionais. Em suma, um é uma matéria cultural fóssil, de que queremos preservar a memória. Outro, uma matéria cultural viva e, portanto, suscetível, ainda, de se operacionalizar. E isto, naturalmente, faz toda a diferença!

Foi isto que se espera tenha ficado claro, de entre os elementos conclusivos do debate aí travado. Resta saber se também virá a persistir na memória.

 

*A Classificação Patrimonial do “Cante alentejano” é bem exemplo de tal; necessitado, que foi, de se “ligar à máquina” para se apresentar como vivo.

Também o propalado projeto respeitante ao “Fandango Ribatejano” (hoje adormecido) necessitaria sempre (e ainda em maior grau) de se ressuscitar. Para UNESCO ver, com certeza.

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